Argumento canalha tenta salvar Bolsonaro na reta final

"Depois que Bolsonaro foi desmascarado por atitudes reveladoras contra a democracia, cabos eleitorais do PSL chegam ao fim da campanha tentando convencer o eleitor de que seus defeitos não são tão graves assim", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Empregando argumentos verdadeiros para produzir conclusões falsas, procuram minar a resistência a Bolsonaro amenizando o teor de suas ameaças ao Direito e às liberdades individuais"

Argumento canalha tenta salvar Bolsonaro na reta final
Argumento canalha tenta salvar Bolsonaro na reta final (Foto: Reprodução vídeo)

Na reta final de uma campanha que pode representar um retrocesso terrível em nossa história, apareceu um argumento canalha para auxiliar Jair Bolsonaro e tentar impedir impedir sua derrota nas urnas. Está por aí em conversas e mesmo em jornais. 

Típico de uma situação política na qual Bolsonaro já não para de perder fôlego e não dispõe de argumentos legítimos para seguir na disputa, a tal ponto que prefere fugir dos debates em vez de encarar um confronto aberto e limpo com Fernando Haddad, o argumento canalha é uma forma clássica de deslealdade intelectual: emprega fatos verdadeiros para produzir conclusões falsas.

O raciocínio é assim: mesmo reconhecendo riscos  que Bolsonaro representa para o país, cada vez mais claros a partir daquilo que ele diz e repete em entrevistas e discursos, o tamanho do estrago que ele pode produzir irá depender, acima de tudo, da própria sociedade brasileira, de sua capacidade de organização e luta para resistir a projetos e iniciativas que contrariam seus interesses e necessidades.

Todos nós sabemos que, a rigor, o futuro de um país, em qualquer latitude, qualquer circunstância, sempre depende da capacidade de resistência de seus habitantes. Essa verdade trivial de toda análise política ajuda a entender o que se passou no Brasil durante a consolidação do golpe de 1964.

Essa mesma visão benigna de uma tirania em construção ajuda explicar o que ocorreu na  Alemanha depois de 1933, quando Hitler ganhar uma eleição apertadíssima e ergueu uma ditadura terrível que só foi vencida por inimigos externos. Com um pouco de distanciamento, pode-se até dizer que em 1500 o projeto de colonização portuguesa teria sido expelido da Terra de Santa Cruz se a população nativa dos primeiros brasileiros e brasileiras exibisse uma maior capacidade de luta e resistência para enfrentar uma expedição que trocava suas riquezas por bugigangas.

Como se vê, é sempre fácil culpar o povo pelas irresponsabilidades cometidas por suas elites, não é mesmo? 

Os exemplos ajudam a entender a canalhice ideológica em curso na reta final da campanha de 2018. Ela finge desconhecer um ponto essencial no debate, uma relação de causa e efeito: ditaduras e regimes assemelhados só costumam assumir o poder de Estado e submeter  povos e países porque as sociedades não estão organizadas nem estruturadas em grau suficiente para enfrentar e derrotar possíveis tiranos. As instituições não se mostram a altura do momento, os líderes políticos fogem de suas responsabilidades. Muitas vezes, homens e mulheres sequer tem consciência política clara, na hora necessária, para reconhecer quem é o inimigo principal a ser abatido.

Essa situação dificulta a resistência a governos autoritários antes que estes sejam capazes de assumir o poder -- e, por motivos óbvios, irá tornar ainda mais difícil qualquer atuação na fase seguinte, quando o Estado estiver dirigido e dominado, e os novos ocupantes poderão valer-se de seus múltiplos instrumentos -- legítimos, ilegais e violentos -- para conservar-se no mando.

Diminuindo a gravidade do risco Bolsonaro, tenta-se desmobilizar a oposição a sua campanha, enfraquecer a resistência necessária a um risco real evidente e reconhecido, inclusive, por publicações estrangeiras lidas por banqueiros e grandes empresários que apoiam o capitão-candidato, como Economist, Financial Times e New York Times. 

Nos últimos dias, o vergonhoso ataque as universidades federais acusadas por uma juíza eleitoral de expôr "propaganda negativa contra Jair Bolsonaro" porque resolveram debater o fascismo constitui a prova mais clara do processo em curso no país de hoje. 

É exatamente este o risco que se corre na eleição de amanhã. Desmascarado por suas próprias atitudes, os cabos eleitorais de Bolsonaro já desistiram de inventar possíveis  qualidades -- apenas tentam diminuir seus defeitos inegáveis, conhecidos.  É uma arapuca política, para esconder a única opção  coerente para quem tem informação suficiente para reconhecer o risco que Bolsonaro representa: o voto  em Fernando Haddad.

Nem voto nulo ou branco podem funcionar, pois favorecem o candidato que está na frente -- e não interessa fazer isso numa situação de virada na reta final, quando a derrota de uma ameaça a democracia tornou-se a causa de uma nação inteira. 

Alguma dúvida? 

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