"Arte degenerada" diz o MBL. Ecos dos anos 30

O que vimos com os ataques do MBL não é surpreendente. O que esperar de um grupo que prefere atacar arte ao invés de entender arte? É o mesmo tipo de mente totalitária que queima livro, que grita para ser ouvido, que ataca quem está quieto

censura santander
censura santander (Foto: K. Von Novack)

Entender, analisar e sublimar. Esse era o mantra da filósofa Hannah Arendt para sobreviver a perseguição e a dura analise que os tempos em que viveu a exigiam que fizesse.

Hannah cunhou o conceito de que o mal é banal. De que não existe um mal superior e absoluto, com grande intelecto e motivação, mas sim um conjunto de indivíduos alienados fazendo seu trabalho de destruir o progresso aos poucos, dia após dia, de forma monótona porém contínua.

Ela viu os livros serem queimados na Bebelplatz, artistas e cientistas serem exilados pela busca insana de um regime por pureza moral, religiosa e étnica.

Hannah ficaria incrédula com o Brasil de hoje.

O papel da arte sempre foi fazer questionamentos dos mais duros na sociedade em que foi criada.

Duchamp expôs um urinol para questionar os conceitos do que pode ser arte, Warhol refletiu a cultura consumista. Antes deles, a Olympia de Edouard Manet causou furor conservador por ser considerada vulgar e imoral.

Marina Abramovic e Andres Serrano foram atacados por décadas.

O que vimos com os ataques do MBL não é surpreendente. O que esperar de um grupo que prefere atacar arte ao invés de entender arte? É o mesmo tipo de mente totalitária que queima livro, que grita para ser ouvido, que ataca quem está quieto. Mentes tão limitadas veêm corrupção e imoralidade em tudo que não seja a estreita visão de mundo que possuem. Esperado, entendido.

Analisar é o mais difícil, pois um grupo que considera expressão cultural como uma forma de propaganda não entende o que é cultura, logo não consegue manter um argumento sobre o problema, pois o entendimento em si é limitado.

Mostrar pedofilia, transsexualidade e bestialismo em arte existe desde que a arte existe. Criticas sobre religião também, inclusive em obras expostas no Vaticano.

Não existe perigo para ninguém em ver expressão cultural desse tipo, pois não há incentivos para a execução do que está exposto. É arte, não tutorial de youtube.

Pobres almas que acham que mostrar obras como essas pode incentivar praticas sexuais - e pior, incentivar seus filhos (argumento muito popular nas caixas de comentários) -. Tão pouca é a fé que tem no senso de discernimento de sua prole e na educação que fornecem a eles.

Não devem se preocupar, uma pequena exposição de arte não fará a cabeça de seu filho. O que fará é seu comportamento como pai ou mãe, e espero que seja 100% igual ao moralismo que projetam ao mundo.

Essa perseguição cultural é um dos últimos respiros de uma democracia estrangulada. Impossível acreditar que a censura, o totalitarismo e a ditadura do moralismo estão em controle do Brasil novamente.

E para sublimar uma situação dessa, apenas da mesma maneira que Hannah fez: brigando, lutando e organizando resistencia.

Hannah viveu para ver o sistema que a oprimiu e censurou parar na lata de lixo da história. O mesmo destino aguarda o MBL.

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