Às armas, cidadãos!

Eram sete pessoas, três mulheres e quatro homens. Suas idades passavam dos 55 anos. As armas que portavam eram um pouco de seu sangue em mamadeiras, martelos, cartazes e aquelas fitas que indicam a “cena de um crime”

Eram sete pessoas, três mulheres e quatro homens. Suas idades passavam dos 55 anos. As armas que portavam eram um pouco de seu sangue em mamadeiras, martelos, cartazes e aquelas fitas que indicam a “cena de um crime”. Seu alvo era a base naval de Kings Bay, Geórgia, EUA, a maior base de submarinos nucleares do mundo. Queriam revelar que essas armas nucleares matam todos os dias, por sua mera existência e manutenção. Cortaram um cadeado e entraram na base no dia 4 de abril de 2018, no aniversário de 50 anos do assassinato de Martin Luther King.

Mas por quê? Por que correr um risco tão alto?

“Eu tenho 60 anos agora. Neste momento, eu realmente vejo e entendo como essas armas não são apenas onicidas se forem lançadas. Eles são mortais agora, todos os dias. Eu as vejo como o ponto culminante dos sistemas de violência, de cima abaixo até a arma da polícia na rua que mata e ameaça matar. Essas armas são o bastão do valentão, usado da mesma maneira que uma arma, quando mantida encostada na cabeça de alguém. Mesmo se você não puxar o gatilho, você está usando essa arma. Então, estamos usando essas armas todos os dias. Eu não estou apenas preocupada se elas são lançadas, mas como elas são usadas todos os dias para extorquir (…) Essas armas são o mecanismo essencial para impor esses sistemas de supremacia branca e capitalismo global. É assim que vejo tudo isso. Ir para Kings Bay com meus amigos foi a minha maneira de retirar meu consentimento a esse sistema,” revelou Clare Grady ao DemocracyNow!

70 anos da OTAN

No dia 4 de abril de 1979 foi constituída a Organização do Tratado do Atlântico Norte, um sistema coletivo de defesa formado por 28 países da América do Norte e Europa. Trump, em sua fala sobre os 70 anos da aliança, cobrou os aliados que não estão pagando sua parte e advertiu: “estamos considerando 2% do PIB e, em algum ponto, eu acho que [a contribuição de cada país] terá que ser mais alta que isso.”

Responde Joe Cirincione, da Ploughshares: “Todos nós chegamos ao ponto de aceitar que a segurança nacional é igual a forças e armas militares, quando, de fato, como você aponta, uma segurança nacional é mais frequentemente determinada pela saúde e pelo bem-estar de seus cidadãos, o sistema de justiça, se os cidadãos se sentem envolvidos no país e têm um papel na governança do país.”

Cirincione demonstra o absurdo da proposta de aumentar os valores gastos em armamentos pela Otan: “O mundo como um todo, todo ano, gasta cerca de 1,7 trilhão de dólares em armas e forças militares. Um ponto sete. Os Estados Unidos e nossos aliados da OTAN respondem por US$ 1 trilhão disso. Assim, mais da metade de todo o gasto global é gasto pelos Estados Unidos e nossos aliados da Otan. (…) Bem, se você acha que a Rússia é a principal ameaça, a Rússia gasta apenas cerca de 66 bilhões de dólares todos os anos em defesa. Na verdade, seus gastos caíram 20% entre 2016 e 2017, o último ano para o qual temos dados. Então, seus gastos estão diminuindo”.

Quem lucra?

Não faz o menor sentido gastar mais, especialmente quando o mundo enfrenta questões graves na economia, na imigração, na justiça social, na saúde, no bem-estar. Ou melhor: o sentido talvez esteja em saber quem são os beneficiados: “Quem faz dinheiro disso? Bem, a maior parte do dinheiro que gastamos neste país [EUA] em defesa, e que os europeus gastam, vai para um punhado de empreiteiros de defesa: Boeing, Lockheed Martin, Northrop Grumman, Raytheon, etc. Eles fazem lobby, incessantemente, por esse aumento de gastos em Washington, na sede da OTAN, nas capitais da Europa”, conclui Cirincione, em entrevista ao DemocracyNow!

Quais penas enfrentam os Sete de Kings Bay?

Voltando aos pacifistas que entraram na Base naval de Kings Bay. Martha Hennessy, 62, que participou da ação na base naval, diz que a pena estimada para cada um dos sete é de 10 anos, por depredação de propriedade, destruição de propriedade, conspiração e invasão: “Minha vida pessoal é irrelevante comparada à criação de Deus que está sendo destruída”.

A ação ocorreu no aniversário de 50 anos do assassinato de Martin Luther King

“Entramos em paz neste triste aniversário do martírio de um grande profeta, o reverendo Dr. Martin Luther King Jr. Há 50 anos, hoje, 4 de abril de 1968, o Dr. King foi assassinado em Memphis, Tennessee, como uma reação a seus esforços. para abordar ‘os gigantes trigêmeos do racismo, materialismo extremo e militarismo’. (…) Nós resistimos ao militarismo que empregou a violência mortal para impor a dominação global. Acreditamos que as reparações são necessárias para terra, trabalho e vidas roubadas”, diz o comunicado oficial da Plowshares:

EUA, o maior fornecedor de violência no mundo

“O Dr. King disse: ‘O maior fornecedor de violência no mundo (hoje) é o meu próprio governo’. Isso permanece verdadeiro no meio de nossa interminável guerra ao terror. Os Estados Unidos adotaram uma economia de guerra permanente. ‘Paz pela força’ é uma mentira perigosa em um mundo que inclui armas de destruição em massa, ativáveis por alerta instantâneo. As armas de um Trident têm a capacidade de acabar com a vida como a conhecemos no planeta Terra. As armas nucleares matam todos os dias por meio de mineração, produção, testes, armazenamento e despejo, principalmente em terras indígenas nativas. Este sistema de armas é um revólver engatilhado mantido na cabeça do planeta”, complementa o comunicado.

O Brasil como aliado, ou talvez como consumidor

“O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Brasil será designado principal aliado dos Estados Unidos fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ainda deixou aberta a possibilidade de o Brasil integrar a Otan, que é uma organização militar formada por países da Europa e da América do Norte, com origem na oposição ao socialismo liderado, na época, pela União Soviética, hoje extinta”, diz matéria da Agência Brasil.

Às armas, cidadãos! Não para obtê-las, para destruí-las!

Notas

1 Para saber mais sobre a Plowshares (em inglês): https://www.kingsbayplowshares7.org/

2 Onicídio (substantivo masculino) - extermínio geral de vidas e/ou bens; morticínio e destruição em grandes proporções. (Houaiss)

3 Para ver a entrevista completa no DemocracyNow! (em inglês): https://www.democracynow.org/2019/4/8/kings_bay_plowshares_peace_activists_face

4 Para ver a matéria da Agência Brasil:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-03/trump-brasil-sera-principal-aliado-dos-estados-unidos-fora-da-otan

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