As eleições municipais e 2022

"O melhor caminho para formar uma frente progressista em 2022 são as mobilizações de massa, a construção de uma unidade na luta e a pressão dos movimentos sociais para que frente se forme", escreve o professor Aldo Fornazieri

(Foto: Ricardo Stuckert | Abr)
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Não existe uma relação de determinação ou de forte condicionamento entre os resultados de eleições municipais e o resultado de eleições presidenciais, sendo o inverso também verdadeiro. Alguns estudos mostram isso. Mas, para ilustrar, basta citar alguns exemplos. Bolsonaro venceu sem que seu partido tivesse peso em prefeituras e, agora, ele tem pouco poder de influência para determinar resultados expressivos nas eleições municipais.

Em 2004, em que pese ter crescido, o PT não teve um bom desempenho nas eleições municipais. Mesmo assim, Lula venceu a reeleição de 2006. Aliás, o equívoco do superdimensionamento estratégico que o PT conferiu às eleições de 2004 e o tipo de aliados que tentou potencializar, a exemplo do PTB de Roberto Jefferson, foi um dos fatores, talvez o principal, que gerou a crise do Mensalão. 

O resultado de eleições municipais, porém, deve ser um fator a considerar para a montagem das estratégias para as eleições presidenciais. Faltando 15 dias para o pleito, o recorte de momento não indica possíveis resultados positivos para os partidos de esquerda, embora isso possa mudar. Atribuir o frágil desempenho à não realização de frentes de esquerda é um equívoco porque: 1) eleições municipais servem para a construção e fortalecimento de partidos e, 2) frentes não podem ser formadas artificialmente a partir do desejo das pessoas. É preciso que se gere uma cultura de unidade nas lutas e que haja convergência de interesses nas cidades para que frentes municipais se formem. 

Dada a conjuntura de crise dos partidos de esquerda no Brasil e dada a relevância nacional para o futuro do país imbricadas nas eleições presidenciais de 2022, a formação de uma frente progressista é um desejo legítimo de setores progressistas e de esquerda. Este desejo, para que não se perca no ar etéreo das ilusões, precisa ser permanentemente cotejado com a realidade, com o movimento da conjuntura e com o jogo de interesses dos partidos e de líderes, envolvendo as eleições e a sucessão presidencial. 

Este cotejamento, desde já, indica que a formação de uma frente progressista, embora desejável e possível, é difícil de ocorrer. Em primeiro lugar é preciso acompanhar o movimento do governo Bolsonaro. Depois de certa calmaria, a partir da estocada que o STF desferiu contra os bolsonaristas extremados, as águas subterrâneas do governo voltaram a se agitar, pelas seguintes razões: elevado déficit, tendências inflacionárias, alto desemprego, frágil recuperação da economia, inoperância da esquipe econômica de Paulo Guedes, ausência de um plano econômico, dificuldade para impulsionar um programa substituto ao Bolsa Família e tensão de Bolsonaro e os bolsonaristas com a ala militar. 

Qual e como vai ser o desdobramento do agravamento da crise ninguém sabe muito bem. Mas se Bolsonaro chegar forte em 2022 haverá uma pressão maior para a formação de uma frente progressista. Caso contrário, a pressão será mais débil. Outro movimento que será preciso acompanhar é o da centro-direita. Ela virá com um candidato único? Se dividirá? Quem será ou quem serão os candidatos? Este também é um fator que influenciará positiva ou negativamente a formação de uma frente progressista. 

No campo progressista existem três atores decisivos na conformação das estratégias para 2022: Lula/PT, Ciro/PDT e Boulos/PSol. Um quarto ator, que ainda não está no jogo, poderá vir a jogar: o movimento de popular e social – o movimento de massas. Este ator, para se constituir ativamente, depende, ao menos, de três fatores: 1) conjuntura favorável a mobilizações; 2) direções competentes e corajosas e, 3) cultura de mobilização. O primeiro já existe e, os outros dois, são ausências trágicas. 

Lula, ao encontrar Ciro Gomes, já deu o primeiro lance tendo em vista 2022, em que pese a choradeira de setores do PT. Lula sabe que venceu em 2002 fazendo uma aliança com o centro e governou, inclusive, com a centro-direita. A partir da prisão de Lula, o PT fez um movimento à esquerda, rumo a um espaço ocupado pelo PSol. Se isolou da centro-esquerda e não conseguiu emplacar uma aliança estratégica com o PSol. O PSol é melhor que o PT em ocupar um espaço mais à esquerda. 

Animal político que é, Lula não faz política com o fígado, ao contrário de Ciro Gomes, Gleisi Hoffmann e tantos outros. Pôs-se em linha com a sabedoria de Ulisses Guimarães, quando disse: “Em política você nunca deve estar tão próximo que amanhã não possa ser adversário ou inimigo. E nem tão distante que amanhã você fique em dificuldade por ter que estar próximo”. O encontro dos dois não significa a formação de uma frente, mas significa um lance num jogo político. Um lance acertado. Ciro dificilmente comporá uma frente se não for o cabeça da mesma. O que importa, neste momento, é que foi aberto um jogo e que ele é útil porque, no mínimo, cessa a virulência dos ataques mútuos.

O PT, no governo, esticou em demasia à aliança para a centro-direita? Provavelmente sim. Mas seus erros maiores consistiram em confiar nos aliados, não barganhar avanços maiores usando o peso da popularidade de Lula e governar sem politizar e organizar os setores sociais e populares, acreditando que a concessão de benefícios geraria fidelidades políticas e eleitorais.

Boulos e o PSol mostram uma grande dificuldade em ocupar a imensa avenida deixada aberta pelas dificuldades do PT. Deram alguns passos, mas insuficientes. Por outro lado, o PSol não consegue também adotar uma estratégia que foi adotada pela nova esquerda chilena que formou a Frente Ampla naquele país: apostar nas mobilizações populares como estratégia de pressão, de luta por direitos e por mudanças. O  PSol não pode limitar-se a ser um PT de esquerda. 

A pergunta que cabe fazer é a seguinte: O PSol integraria uma frente progressista com o PT, Ciro/PDT, PCdoB e PSB? Resposta: depende muito da evolução da conjuntura. Bolsonaro deveria chegar muito forte em 2022 para que o PSol integrasse essa frente. Neste caso, a pressão externa sobre o partido seria muito forte.

Mas o melhor caminho para formar uma frente progressista em 2022 são as mobilizações de massa, a construção de uma unidade na luta e a pressão dos movimentos sociais para que frente se forme. Em Florianópolis, por exemplo, a frente de esquerda, com o professor Elson como candidato a prefeito, se formou muito mais em razão da pressão externa sobre os partidos, vida dos movimentos sociais, do que propriamente por uma opção dos partidos. 

Este processo poderá se viabilizar no plano nacional? Embora não impossível, sua ocorrência é difícil. Em que pese a existência de uma conjuntura propícia às mobilizações, os movimentos estão desarticulados e sem líderes significativos. A esperança reside no fato de que jornadas intensas de luta e de mobilizações geralmente fazem emergir novos líderes e geram ocasiões extraordinárias e imprevistas, favoráveis às mudanças, com o concurso da boa Fortuna. 

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