As portas do inferno continuarão escancaradas

A foto de apoiadores de verde e amarelo, com um deles fazendo o gesto dos nazistas, é bem o retrato da bagunça que o Brasil se transformou

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(entrevista à jornalista Letícia Lins)

Alguém lembra de ter visto um 7 de setembro como o da última terça-feira? Com um Presidente - no caso, Jair Bolsonaro - aproveitando uma data nacional para desafiar o Supremo Tribunal Federal e para chamar ministro do STF de canalha? Já viu Presidente da República levar um puxão de orelha de Presidente do STF e do Presidente do TSE sob acusação de "crime de responsabilidade", ao ponto de ter que se retratar? Para uns, o capitão se comportou como um "moleque". Para outros, agiu como um "terrorista", ao tentar liderar um golpe na democracia.

Forçado, o Presidente pediu desculpas aos tribunais por ataques aos Ministros na tarde dessa quinta-feira. Mas as milícias digitais não pararam. Circula na Internet um abaixo assinado pedindo o impeachment do Ministro Alexandre de Moraes, um dos desafetos do Presidente. A petição diz ter a pretensão de recolher "15 milhões de assinaturas". Ou seja, os ataques ao poder judiciário não vão parar. A situação é tão confusa, que fica difícil fazer um prognóstico do que acontecerá realmente no Brasil. O #OxeRecife foi ouvir um historiador, o Professor Marco Mondaini, sobre a bagunça institucional que o Brasil se transformou.

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Uma bagunça provocada por quem - no cargo que ocupa - deveria fazer tudo para manter a paz, a democracia, a estabilidade econômica. Mas que, ao contrário, se encarrega de disseminar o discurso do ódio, estimular o uso de armas, divulgar fake news via milícias digitais, desafiar as instituições democráticas e, pelo visto, nada faz para evitar a escalada da inflação .

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A foto de apoiadores de verde e amarelo, com um deles fazendo o gesto dos nazistas, é uma reprodução do Jornal Hoje da TV Globo. E é bem o retrato da bagunça que o Brasil se transformou, como o país de ameaçadores e perigosos retrocessos. Para o professor, o "inferno" está longe de terminar. Marco Mondaini é historiador com pós-doutorado no Departamento de Teoria e História dos Direitos Humanos da Universidade de Florença/Itália. Professor Titular da Universidade Federal de Pernambuco, leciona no Departamento e no Programa de Pós-graduação em Serviço Social. Coordena e apresenta o programa Trilhas da Democracia, veiculado na TV247, TVT, TVPE e Rádio Brasil de Fato. Seu livro mais recente intitula-se Direitos Humanos. Breve História de uma Grande Utopia (São Paulo: Edições 70, 2020).

Veja o que ele diz em entrevista ao #OxeRecife:

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#OxeRecife - O Brasil já teve um 7 de Setembro como este que passou em 2021?Marco Mondaini - Como o dia marcado para a eclosão de um golpe de Estado? Não, nunca. As comemorações da Independência do Brasil tiveram seu ápice durante os 21 anos em que vigorou a ditadura militar iniciada em 1964. Então, o 7 de setembro transformou-se numa data comemorativa permeada de forte simbologia militarista – uma comemoração que tinha a duração de uma semana: a Semana da Pátria. Os desfiles militares aconteciam não apenas em Brasília, mas, também, em várias capitais do país, reunindo milhares de pessoas atraídas pela retórica verde-amarelista, que procurava propagandear a ideia de um Brasil que se tornava potência mundial. Passada a ditadura, o 7 de setembro desmilitariza-se a ponto de, desde 1995, contemplar o seu contraponto: o Grito dos Excluídos.

#OxeRecife - Como definiria os acontecimentos do dia 7, do ponto de vista do que foi protagonizado pelo presidente e seus apoiadores?

Marco Mondaini - Como uma tentativa inequívoca de golpe que se pretendia organizada, sob o comando de dois tipos de estrategistas. De um lado, os militares da estirpe de Braga Neto e Heleno; de outro, os manipuladores de redes sociais da escola fundada por Steve Bannon e seguida pelo clã Bolsonaro. Uma tentativa que, porém, acabou se revelando uma grande cacofonia, uma “união não harmônica de sons diversos”. Como revelado de maneira grotesca nas cenas de comemoração de um falso estado de sítio por parte dos bolsonaristas, que insistiam em permanecer em Brasília e nas paralisações de caminhoneiros em várias partes do país, mesmo depois do seu comandante-mor ter percebido que a tentativa de golpe havia sido abortada.

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OxeRecife - Bolsonaro ficou mais forte ou mais fraco depois do dia 7?

Marco Mondaini - No exato momento em que redijo as presentes respostas, mais fraco, o que não deve implicar, sob forma alguma, a repetição do gravíssimo erro cometido pelas forças democráticas de subestimá-lo como expressão mais genuína das estruturas conservadoras e autoritárias da sociedade brasileira. É preciso que nos demos conta de que se disputa uma partida de xadrez contra um adversário político que não apenas desrespeita as regras do jogo, como também objetiva eliminar o seu adversário. Para tanto, o caminho eleitoral não é suficiente, apesar de ter sido inicialmente necessário. Com isso, com cada vez mais certeza, afirmo que o fim político de Bolsonaro não se dará nas urnas. Fim entendido como ponto final ou finalidade. Fim por meio de um golpe ou através de um impeachment.

#OxeRecife - As instituições brasileiras estão suficientemente fortes para barrar um golpe?

Marco Mondaini -  A democratização (incompleta) das instituições brasileiras remontam a um processo iniciado nos anos 1980. Estamos falando de não mais que 40 anos, que não representam muita coisa quando confrontados com 400 anos de escravidão e latifúndio, as duas bases de sustentação da nossa estrutura social e econômica. O Brasil de Bolsonaro e do bolsonarismo precisa ser pensado nos marcos dessa longa duração histórica, que, no século XX, foi atravessada por uma sucessão de golpes e regimes autoritários. Por isso, Bolsonaro e o bolsonarismo não podem ser pensados como pontos fora curva, ao contrário da democracia. Por isso, ainda que necessárias, as instituições não são suficientes para barrar um golpe. Sem a entrada em cena da parcela democrática da sociedade brasileira, as portas do inferno continuarão escancaradas.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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