As reformas de Leite são o bolsonarismo em ação

Porque a vitória de Costa desmente a fatalidade do “caminho único” das reformas de destruição do Estado Social -hoje pregadas pela direita unidas ao neo-fascismo- e mostra que as reformas do Governador Leite (pintadas como solução para crise do Estado pelos gurus neoliberais) são o caminho do desastre. Estes caminhos já foram testados por Governos anteriores da mesma ideologia e redundaram em mais precatórios, mais dívida pública, além do desmonte das funções sociais do Estado, particularmente na educação, na saúde e na segurança pública

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Os lucros dos 4 maiores bancos do país subiram 21,3 por cento no segundo trimestre de 2019. Nos últimos 12 meses, os bancos lucraram 109 bilhões, o maior valor em 25 anos, segundo informa o distinto Banco Central. Impossível deixar de ligar estes fatos “financeiros”, no bojo do que Piketty chamou  de “hiper-financeirização” da economia (combinada com “perda de soberania), com dois outros acontecimentos recentes: a vitória do Governo moderado de Antonio Costa, nas eleições portuguesas, e as reformas propostas pelo Governador Leite, aqui no Rio Grande.

Porque a vitória de Costa desmente a fatalidade do “caminho único” das reformas de destruição do Estado Social -hoje pregadas pela direita unidas ao neo-fascismo- e mostra que as reformas do Governador Leite (pintadas como solução para crise do Estado pelos gurus neoliberais) são o caminho do desastre. Estes caminhos já foram testados por Governos anteriores da mesma ideologia e redundaram em mais precatórios, mais dívida pública, além do desmonte das funções sociais do Estado, particularmente na educação, na saúde e na segurança pública.

Ambas as escolhas políticas -de Antonio Costa para manter seu entendimento com a União Européia e do Governador Leite (para “salvar” o Estado da ruína) – foram opções políticas liberal-democráticas, mais próximas do padrão socialdemocrata (Costa), ou mais próximas do fascismo liberal-rentista (Leite).

Suas escolhas, todavia, no contexto do controle mundial que o capital financeiro exerce sobre os estados endividados, geram resultados significativamente diferentes: o projeto de Antonio Costa gera mais paz social, mais emprego, mais diálogo dentro da democracia política; o projeto do Governador Leite, seguidor de Bolsonaro e seus sequazes “Chicago Boys”, gera violação de direitos, desemprego, milicianismo e acumulação de riqueza, nos estratos superiores do rentismo que tenham condições de proteger-se na ciranda financeira global.

O Governo Antonio Costa não rompeu com os padrões financeiros da União Européia -impostos pelo Banco Central alemão- mas conseguiu produzir uma série de políticas internas soberanas, com alianças políticas originais: conseguiu uma forte redução do desemprego (de quase 50 por cento em 4 anos!), bloqueou uma parte dos barbarismos contra o setor público português, aumentou o poder aquisitivo dos assalariados de baixa renda e reduziu o déficit público, deixado em alta pelos governos conservadores anteriores.

A coalizão política que dá sustentação ao Governador Leite defendeu a eleição de Bolsonaro, apoiando sem hesitação a proposta de Paulo Guedes, de tirar um trilhão dos mais pobres com a reforma da previdência e viabilizar, portanto -com o seu projeto suicida e homicida- a potencialização do lucro dos banqueiros, para o país “voltar a crescer”. Este compromisso do Governador Leite com o projeto bolsonariano é que lhe leva, inapelavelmente, às reformas que propõe, após um aumento brutal da dívida pública e o fracassado “dever de casa” de Sartori”.

Para que pudéssemos chegar a este estado de coisas foi necessário opor à democracia social em experimento, – a partir de 88 – uma desconfiança radical com a política, que levou uma grande parte da sociedade ao isolamento e à depressão: um refluxo pelo medo de um destino incerto, que recém começa a sua superação.

A política, como experiência humana virtuosa, corrupta, grandiosa, dramática por vezes, sempre foi -com continuidade nas guerras, revoluções, golpes, acordos de concertação- a forma através da qual os humanos foram construindo e aperfeiçoando -no seu contraditório- a civilização moderna.

Aqui no Brasil, os traços de identidade com a vida comum foram rompidos pelos fascistas, naquele dia marcante em São Paulo, quando a Presidenta Dilma foi ofendida com chavões de baixo calão – estimulados pela mídia tradicional- que se tornaram, então, um modo de fazer política. Através das redes, onde as taras organizadas de fora para dentro do país permitiram a eleição de um Presidente que odeia a política, a representação liberal-democrática foi sendo substituída pela democracia direta da perversão anônima endinheirada.

“Do homem” -diz Maria Rita Kehl, no seu texto “Depressão e Imagem do Novo Mundo”-  “a máquina de moer carne capitalista aproveita até o berro: os depressivos, porém, não oferecem nem isso. Os depressivos não berram. Seu silêncio, seu recolhimento, sua falta de interesse por todas as ofertas de gozo em circulação, fazem do depressivo a expressão do ‘sintoma social’ contemporâneo. O depressivo, como no verso do poeta suicida Torquato Netto, desafina o coro dos contentes nesta primeira década do século XXI”.

Os contentes, neste país, estão regidos pelos banqueiros cuja menção abre este pequeno artigo indignado. E os depressivos – cujo destino certo vemos com frequência mendigando nas esquinas da cidade – adotarão os exemplos dos índios equatorianos?  Ou pensarão como o Governador Leite, que imaginou poderia governar o Estado com decência e razão, apoiando indecentes e fascistas, para governar o país?

Uma foto que circulou nas redes mostra uma trabalhadora argentina, apeando de uma bicicleta para fazer uma entrega -com seu bebê junto ao peito como uma mochila- talvez num prédio de Buenos Aires. Não importa onde, nem importa o que ela entrega. O que importa é que este é o mundo que os bilionários do globo querem nos oferecer de imediato. E o fazem quando explodem os lucros dos bancos e os bebês  da nova Idade Média vão para o mercado perfeito, com suas mães que se deslocam em busca do pão na fúria das cidades. E carregam os pequenos muito próximos dos corações cansados, nos seusminúsculos veículos de tração humana. Como na Idade Média

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