Até quando Mourão será o intérprete de Bolsonaro?

"Se continuar nesse ritmo, o general Hamilton Mourão vai ter de permanecer ao lado de Bolsonaro todas as vezes em que ele for discursar ou dar entrevistas para, a exemplo do pessoal da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras), traduzir simultaneamente as palavras do presidente", avalia o jornalista Ribamar Fonseca sobre a atuação do vice-presidente frente às declarações desastrosas do presidente Jair Bolsonaro; "Não seria melhor um porta-voz que falasse fluentemente o português sem precisar de interpretação? Ou substituir o capitão na Presidência da República porque, afinal, na verdade ele não tem mais utilidade, pois já cumpriu a sua missão, trazendo os militares de volta ao poder"

Até quando Mourão será o intérprete de Bolsonaro?
Até quando Mourão será o intérprete de Bolsonaro? (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

O capitão Jair Bolsonaro provou mais uma vez, na semana de carnaval, que não tem preparo nem equilíbrio emocional para ocupar o cargo de Presidente da República do Brasil. Ao postar em sua página na Internet um vídeo obsceno para vingar-se dos foliões que o criticaram em todo o país, numa onda de protestos que sinaliza o descontentamento do povo já nos seus primeiros meses de governo, o capitão-presidente perdeu o decoro, ridicularizou o Brasil perante o mundo e envergonhou os brasileiros de vergonha, aqueles que não votaram nele. Se o Congresso tivesse a mesma vergonha a esta altura já estaria articulando o seu impeachment, conforme defende o jurista Miguel Reale Junior, por ferir o dispositivo constitucional que zela pela dignidade do cargo, mas com Rodrigo Maia na presidência da Câmara dos Deputados qualquer pedido nesse sentido terá, sem sombra de dúvidas, a gaveta como destino. Só não se sabe até quando, porque, como diz o dito popular, "cesteiro que faz um cesto faz cem".

No dia seguinte à quadra carnavalesca, não satisfeito com a repercussão negativa do seu post, Bolsonaro produziu mais uma crise ao afirmar, em meio a um discurso relâmpago na cerimônia comemorativa aos 211 anos do Corpo de Fuzileiros Navais, que "a democracia e a liberdade só existem enquanto as Forças Armadas permitirem". A declaração soou como uma ameaça, levando-se em conta que os militares, de volta ao poder através dele, poderão endurecer o regime se assim o desejarem. Resta saber se, considerando-se tal hipótese, ele, o capitão, continuaria no comando dos generais. O fato é que Bolsonaro, com seus posts e declarações polêmicas, está se notabilizando como o mais novo campeão de crises, superando em muito o seu antecessor, Michel Temer, que anda meio esquecido depois de denunciado duas vezes pela Procuradoria Geral da República. Mais uma vez, no entanto, o vice-presidente Hamilton Mourão entrou em cena para tentar minimizar o episódio, reinterpretando a fala do presidente.

No seu discurso o capitão considerou a sua eleição para a Presidência da República como uma missão que, segundo disse, "será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso país, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que amam a democracia". Como é possível semelhante declaração de quem se cercou de ministros acusados de corrupção, de pessoas que não amam a pátria, pois estão entregando nossas riquezas naturais para os americanos? Como tem coragem de falar em respeito à família quando ele próprio a desrespeitou ao postar nas redes sociais um vídeo obsceno? Como pode falar em amor à democracia se ele próprio a ameaça? Apesar da permanente preocupação do general Mourão em tentar reduzir o estrago causado por declarações do capitão, que já deixou claro a sua indiferença pelas repercussões negativas das suas palavras, não se sabe até quando o vice vai manter essa tarefa cansativa de sempre colocar panos quentes nos excessos do titular.

Ao tentar minimizar os efeitos do discurso do capitão, o general Mourão disse que ele foi "mal interpretado", pois "o que ele quis dizer é que onde as Forças Armadas não estão comprometidas com a democracia e a liberdade esses valores morrem". E exemplificou com a situação da Venezuela que, na verdade, não serve como parâmetro, porque lá os militares estão garantindo um presidente legalmente eleito. Recentemente o vice-presidente mais uma vez buscou reinterpretar as palavras do presidente relacionadas com a reforma da Previdência. Se continuar nesse ritmo, o general Hamilton Mourão vai ter de permanecer ao lado de Bolsonaro todas as vezes em que ele for discursar ou dar entrevistas para, a exemplo do pessoal da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras), traduzir simultaneamente as palavras do presidente. Diante disso, não é difícil concluir que ou Bolsonaro fala grego ou não sabe o que está falando. Não seria melhor um porta-voz que falasse fluentemente o português sem precisar de interpretação? Ou substituir o capitão na Presidência da República porque, afinal, na verdade ele não tem mais utilidade, pois já cumpriu a sua missão, trazendo os militares de volta ao poder.

Mas uma coisa ninguém pode negar: Bolsonaro foi grato aos principais responsáveis por sua condução ao Palácio do Planalto. Ele recompensou Sergio Moro, com sua nomeação para o Ministério da Justiça, e o general Villas Boas, que teria sido nomeado assessor da Presidência da República. O ex-juiz foi recompensado por ter condenado o ex-presidente Lula sem crime, para impedi-lo de concorrer ao Planalto, e o ex-comandante do Exército por ter impedido o Supremo Tribunal Federal de libertá-lo. O capitão tem consciência, assim como todo mundo, de que foi graças à ação desses dois que conquistou a Presidência. Com Lula fora do páreo ele conseguiu vencer as eleições. Só faltou nomear, também para algum cargo no governo, o norte-americano Steve Bannon, que conseguiu fazer a cabeça dos eleitores beócios, inundando de fakenews as redes sociais, a exemplo do que fez nos Estados Unidos para eleger Donald Trump. Ah, ia esquecendo, seria justo também dar algo ao ministro Dias Tóffoli, que tem se revelado um colaborador inestimável, impedindo Lula até de dar entrevistas.

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