Atentados contra o Brasil: do tiro em Lacerda à facada em Bolsonaro (Parte 1)

(Foto: Reprodução)
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Por Carla Teixeira 

Desde o episódio da facada sem vestígios, há quem diga que Bolsonaro não sangrou porque verme não tem sangue. Após assistir ao documentário “Bolsonaro e Adélio – uma fakeada no coração do Brasil”, produzido pela TV 247, é razoável pensar que não houve sangue porque pode ser que tudo não passou de uma grande “fakeada”. O episódio, intrigante, lembra outros acontecimentos controversos ocorridos antes e durante a ditadura militar (1964-1985). O presente texto abre uma trilogia que narra eventos recentes da nossa história política. Esta primeira parte, cuida sobre o “atentado da rua Tornelero”, em 1954; a segunda, apontará como a ditadura militar, através de uma conspiração nacional e internacional, atuou para eliminar as principais lideranças brasileiras, chegando a assassinar um ex-presidente da República; a terceira e última, mostrará como os eventos narrados, do tiro em Lacerda à facada em Bolsonaro, se inserem em contextos semelhantes de subordinação do Brasil aos interesses estrangeiros.

Em comum, todas as situações contaram com a ação sinérgica da grande mídia, dos grupos da direita liberal, da burguesia (anti)nacional e das forças de segurança, com destaque para a atuação das forças armadas, sempre apoiadas e subordinadas aos piores interesses estadunidenses. O objetivo: frear projetos políticos de soberania nacional e desenvolvimento, com justiça social, que poderiam significar a emancipação econômica do Brasil e, consequentemente, de toda a América Latina. Ao manter a situação de subdesenvolvimento, o resultado foi a garantia dos interesses de classe dos grupos mencionados e a dominação estadunidense sobre o cone sul.

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O tiro no pé de Lacerda acertou Vargas pelas costas

O terceiro governo Vargas foi marcado por um intenso desgaste que consumia, dia a dia, o Executivo. A fundação da Petrobrás – que detinha o monopólio da exploração do petróleo -, a tentativa de criação da Eletrobrás, a instituição de iniciativas que beneficiavam os trabalhadores e garantiriam o projeto de soberania nacional incomodavam profundamente os setores liberais e os interesses estadunidenses. Toda a grande mídia, com exceção do jornal Última Hora, abriu uma campanha de difamação contra Getúlio a partir de sucessivas denúncias de corrupção. Houve tentativas frustradas de impeachment que não vingaram e serviram apenas para evidenciar, à oposição, que o golpe seria a única maneira de depor o ex-ditador, então presidente democraticamente eleito, em 1950.

Na madrugada do dia 5 de agosto de 1954, um tiro fatal matou o major da Aeronáutica, Rubens Vaz, e deixou ferido, no pé, o jornalista Carlos Lacerda. Integrante da União Democrática Nacional (UDN) e principal opositor do governo Vargas, Lacerda era a voz do descontentamento da direita liberal, da burguesia (anti)nacional e dos Estados Unidos em relação ao presidente Getúlio. O episódio ficou conhecido como o “atentado da rua Tornelero”. No dia seguinte, a foto de Lacerda com o pé ferido, sendo carregado por militares, estampou a capa dos principais jornais do país. Estava instalada a crise.

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O sociólogo Ronaldo Conde Aguiar levantou uma série de indícios e fatos que questionam o incidente e abrem a hipótese de que se tratou de um auto atentado. Para Aguiar, o ato foi planejado por forças políticas que queriam derrubar o presidente. A investigação iniciada pela base militar do Galeão, chamada de “República do Galeão” - qualquer semelhança com a recente “República de Curitiba” (não) é mera coincidência -, tratou-se de um poder paralelo disposto a desvendar o crime que já estava sendo investigado pela Polícia do Distrito Federal, a mando do próprio presidente. Durante as investigações, dois suspeitos foram excluídos do processo: o deputado Euvaldo Lodi, por ser deputado, e o general Angelo Mendes de Moraes, por ser Oficial superior das forças armadas.

Ao final, o inquérito do Galeão concluiu que a guarda pessoal de Getúlio armou uma emboscada para atirar e matar Carlos Lacerda, vitimando o major que fazia a sua segurança. O “Anjo Negro”, como era conhecido Gregório Fortunato, filho de escravos alforriados e empregado antigo do presidente, foi apontado como responsável pela morte do major e o ferimento de Lacerda, que passou a vociferar, através do rádio, exigindo a deposição do governo afundado num “mar de lama”. Fato é que o tiro no pé, recebido por Lacerda, é tão controverso quanto a facada sofrida por Bolsonaro.

Durante as investigações, Carlos Lacerda se negou a entregar, à polícia, a arma que possuía. Então, surgiu o primeiro indício: Lacerda não poderia se comprometer com a hipótese de que uma das balas que matou o major Vaz tivesse saído de sua própria arma, o que o converteria de vítima em autor do crime. Quatro dias depois de ter dado entrada no hospital para tratar o pé ferido, o prontuário, a ficha e as radiografias de Lacerda desapareceram para sempre, o que gerou suspeitas de que o ferimento não foi exatamente como havia sido noticiado pela imprensa. A arma que matou o major, de calibre 45, poderia ter provocado um ferimento que exigiria meses de cuidado, poderia gerar a amputação do membro e, no mínimo, deixaria sequelas permanentes. O próprio Lacerda, ao longo do tempo, em diversas situações, narrou o episódio de modos diferentes, o que apenas contribuiu para aumentar as suspeitas.

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Vargas sempre negou envolvimento com o caso. Fato é que nenhuma crise política resiste a um cadáver, principalmente quando se trata de um cadáver fardado, jovem, casado com uma mulher bonita e jovem, pai de quatro filhos pequenos e de oposição ao presidente. A campanha de Lacerda, apresentado como vítima do atentado e culpando pessoalmente o presidente da República, engrossou o caldo da crise. A campanha da grande mídia, responsabilizando o governo, se intensificou. O colapso era iminente.

Diante da inevitável deposição, Getúlio Vargas atirou contra o próprio peito, em 24 de agosto de 1954. Revoltada, a população saiu às ruas, destruiu as redações e os veículos de imprensa que difamavam Getúlio. Ao contrário do planejado, as forças udenistas, midiáticas e militares, apoiadas pelos EUA, não conseguiram efetivar o golpe. O contragolpe legalista do marechal Teixeira Lott garantiu a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. O ato final de sacrifício da própria vida, as mobilizações populares e a intervenção do marechal ofereceram ao Brasil dez anos de governos democráticos, encerrados a partir do golpe civil-militar, em 1º de abril de 1964. A ditadura militar instalada atuaria implacavelmente para a eliminação das principais lideranças políticas do país, mas isso já é assunto para o próximo texto.

Indicações de Leitura, Reportagem e Documentário:  

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NETO, Lira. “Getúlio 3”. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.  

GETÚLIO DO BRASIL. (dir. Deraldo Goulart e Chico Sant’Anna, 2004) – Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Mcu4MtLtemE&t=5997s

https://oglobo.globo.com/brasil/historia/sessenta-anos-depois-atentado-da-rua-tonelero-ainda-gera-especulacoes-13466468

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