Balbúrdia

Ao sair com a bandeja deu aquela geral nas mesas procurando onde. Escolheu a mesa dos errados com os estudantes de filosofia e sociologia. Era um grupo de gente estranha. Como ela

Balbúrdia
Balbúrdia

Ao sair com a bandeja deu aquela geral nas mesas procurando onde. Escolheu a mesa dos errados com os estudantes de filosofia e sociologia. Era um grupo de gente estranha. Como ela.

Bolacha, trintão, está há doze anos na Universidade. Deve se formar neste ano em Ciências Sociais. Ticinha, codinome, devia o apelido ao porte físico da caloura de Filosofia no ano anterior, assemelhado ao de uma lagartixa. Polaco era um negrão, cabelo rastafári, o único casado. Assumiu o sobrenome da mulher de ascendência eslava como evidência definitiva de que não era machista. Jamais foi perdoado pelas colegas sacanas. Haveria de morrer com a alcunha, para aprender a não ser babaca. Esses apelidos da época da faculdade são eternos. O dela tampouco era muito melhor. Era chamada de Mebelê.

Receberam-na com moderada indiferença. Sentaí. Desfrutando da última ceia? A alfinetada mordaz antecipava o que viria. O restaurante universitário será fechado em decorrência dos cortes no orçamento. Estado mínimo. Poizé, para mim será terrível, grana curta, sabem como é. Faz arminha com a mão que passa, Mebelê. Gargalhada em quatro vozes. Defendo teu direito de estar errado, devolveu.

Para mudar o rumo da prosa propõe uma unanimidade. A única certeza é a de que não sentiremos saudades desta gororoba. Olhem esse arroz, que asco. Unidos venceremos, um clássico. E isso aqui o que é? Quiabo. Argh.

Aproveitando a deixa, emendou, tem comidas que não precisavam existir. Cogumelos, por exemplo. Ticinha discordou, gosta de fungos. Tenho vários entre os dedos do pé, disse o Bolacha. Nojento. Bife de fígado não precisava existir. O Polaco, depois da galega, ficou fresco, antes comia até bolo de bosta-de-cavalo. Alto lá, um de ervas ainda encaro. Escondido da patroa, com certeza. Risos. Não havia animosidade, apenas quatro colegas matando um rango no erreú.

E a greve, será que sai? Tomara que não, estou no último ano. Não vai precisar. A Universidade, com esse corte no orçamento, fecha em julho, agosto, no máximo. Depois de aprovada a Reforma da Previdência eles recuam. É tudo estratégia. Duvido muito.

Acho que desta vez o Coiso mirou na codorna e acertou o cachorro. Que metáfora horrorosa, Polaco. Não encha, deixe eu falar, Ticinha. Se fosse eu interrompendo você já viria com aquela crítica de que os homens sempre fazem isso. Não encha você, com esse anti-patriarcalismo de araque. Para ser feminista tem que ser mulher, tem que ter lugar de fala. Posso continuar? Pode, sim, feministo.

A maioria dos estudantes é pequeno-burguesa, filhinhos de papai. As famílias de classe média ficarão indignadas. Apoiam todas as barbaridades desse bando de aloprados desde que não venham bulir com seus privilégios de classe. Bem-feito, filosofou o negrão corpulento.

Pode tirar o jesus da goiabeira, forma atual da expressão tirar o cavalo da chuva, divertiu-se o Bolacha. Vão nada. Continuarão a colocar a culpa no petê. Até aplaudirão. Pelo menos vocês pararam com aquela patacoada de luta de classes. Somos pós-modernos. Não concordo. Eram contra pretos e pobres nas Universidades, consideram-na um espaço deles. No primeiro enfrentamento da estudantada com os meganhas a classe média muda de lado. Vocês acham que a PM reprimirá os estudantes? Óbvio, Mebelê, mas apenas naqueles que ousarem defender o ensino público e gratuito. Você e teus amiguinhos do MBL estarão a salvo. Uma chapuletada desnecessária e deselegante, protestou Ticinha por sororidade.

Vocês misturam as coisas. A Reforma da Previdência é necessária. Sem ela o país quebra. Lá vem você com o discurso de sempre. Inútil, como se constata. Nossa geração não vai se aposentar mesmo. O Estado Social acabou. Cada um que cuide de si, que se esforce, que contribua para uma previdência privada. E quem está perto da aposentadoria e terá que trabalhar mais dez anos? Problema deles, por que nós teríamos que sustentar os velhos? Talvez por solidariedade. O ponto não é esse, o Estado não pode ficar sustentando vagabundos. Vejam o que acontece aqui na Universidade. Uma galera ganha por 40 horas, dedicação exclusiva e o escambau, e dá apenas 8 horas semanais e olhe lá.

Peraê. São 8 horas em sala, mas tem a pesquisa, as publicações, a preparação das aulas. Quando aparecem, né? Você está generalizando. Sim, estudo Ciências Sociais. Esse é o método científico, óbvio que há exceções. Mas são exceções. A maioria dos professores não publica nada de relevante há anos, temos que reconhecer.

Estou desempregada, minha mãe e meu pai estão sem trabalho. Culpa de quem? Do Estado! Você e sua família não estão se esforçando o suficiente, Mebelê, irônica. Onde terminará a faculdade de Economia se a Federal fechar, indagou o fã de MMA. Dá-se um jeito. Greve é que não vou apoiar. Eu vou, aproveitarei para curtir a praia. Vocês não tem jeito mesmo. Eu vou procurar um dos tais bacanais de que o teu Ministro falou e encher a cara. O colombiano já saiu, seu desinformado. E deixou saudades, este aí é bem pior. Vocês deviam estudar mais já que têm tempo, com as mesadas que recebem. Assistiram o último vídeo do Olavo de Carvalho?

Deu. Agora você baixou o nível, o Trótsky da Direita. Citando general de pijama agora, filosofozinho? Filósofo é o seu astrólogo? O que tem de errado acreditar em astrologia? É uma ciência, protestou Ticinha. O cara é macho, alfa, reconheço, o zerotrês adora, não é o caso de denegri-lo.

Virou questão de gênero, para as duas, questão de discriminação racial para o Polaco e de homofobia para o Bolacha. Uma esbórnia. Federal.

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Cabaços

Precisava de alguma aventura. Não suportava mais a bruaca martelando no seu ouvido que era um inútil. Uma ingrata que nunca trabalhou na vida. Ele não merecia. Fez intercâmbio, fritou hambúrguer...

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