Banco Rural maquiou dados do Mensalão para proteger Aécio

O senador Aécio Neves
O senador Aécio Neves (Foto: Alex Solnik)

A "tecnologia do mensalão" foi criada em Minas Gerais pelo PSDB de Aécio Neves, mas a informação não veio à tona em 2006, na época da CPMI dos Correios devido a um acordo entre PT e PSDB que permitiu a exclusão dos nomes de Lula e de Aécio do relatório final, o que impediu que eles corressem risco de perder seus mandatos.

Foi o que revelou o ex-senador Delcídio do Amaral, então presidente da CPMI dos Correios, em novos trechos inéditos da delação premiada de 14/02/2016, com a qual obteve a revogação de sua prisão preventiva.

O PSDB concordou em excluir Lula se Delcídio aceitasse prorrogar o prazo para decretar a quebra do sigilo do Banco Rural, a tempo de as contas serem maquiadas para não "atingir em cheio Aécio Neves e seu vice, Clésio de Andrade".

Delcídio aceitou a condição depois de ser pressionado por emissários de Aécio, dentre os quais o então secretário-geral do PSDB, Eduardo Paes, hoje prefeito do Rio de Janeiro pelo PMDB.

A íntegra do depoimento de Delcídio é a seguinte:

"Delcídio tem conhecimento das tratativas ilícitas para a retirada do relatório, na madrugada de 05/04/2006, dos nomes do então Presidente Lula e de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, em um 'acordão' com a oposição.

"Delcídio esclarece que, caso não fossem retiradas as referências ao Presidente e seu filho, o relatório não seria aprovado e todo o trabalho da Comissão Parlamentar, durante onze meses, seria perdido".

No Termo de Colaboração n0. 18, prestado às 20h45 min de 14 de fevereiro de 2016, o senador Delcídio do Amaral fornece mais detalhes acerca do 'acordão' com a oposição:

"Na CPMI dos Correios foram quebrados os sigilos fiscal e bancário de várias pessoas físicas e jurídicas, dentre elas o Banco Rural. Curiosamente, quando foi feito esse pedido de quebra dos sigilos do Banco Rural começou a surgir um certo incômodo por parte do PSDB. O então governador de Minas Gerais, Aécio Neves era uma dessas pessoas incomodadas com essa quebra.

"Aécio enviou emissários para que o prazo de entrega das quebras dos sigilos fosse delongado, com a justificativa 'entre aspas' de que não haveria tempo hábil para preparar essas respostas.

"Um desses emissários foi o então secretário-geral do PSDB Eduardo Paes (atual prefeito do Rio de Janeiro).

"O declarante foi convencido, achando que o pedido que fora feito era razoável e quando instado pelo Banco Rural a prorrogar o prazo de entrega concordou com o adiamento pelas razões que foram apresentadas ao declarante pelas pessoas antes mencionadas.

"Foi com surpresa que o declarante percebeu, ao receber as respostas, que o tempo fora utilizado para maquiar os dados que recebera do Banco Rural.

"Ficou sabendo que os dados foram maquiados porque isso lhe fora relatado por Eduardo Paes e o próprio Aécio Neves. Os dados atingiriam em cheio as pessoas de Aécio Neves e Clésio Andrade, vice-governador de Minas Gerais.

"O declarante compreendeu a existência de maquiagem pelo fato de que a gênese do mensalão teria ocorrido em Minas Gerais.

"O declarante não tomou nenhuma providência ao saber que os dados estavam maquiados, ou seja, 'segurou a bronca'.

"A maquiagem consistia em apagar dados bancários comprometedores que envolviam Aécio Neves, Clésio Andrade, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Marcos Valério 'e companhia'.

"O relatório final da CPMI dos Correios foi feito com base nesses dados maquiados. O declarante foi informado que os dados foram maquiados antes da aprovação do relatório final. Essa informação foi dada ao declarante logo após ter concordado com a prorrogação do prazo. O declarante entende que o Banco Central possui os dados corretos e teria condições de apontar a maquiagem.

"O declarante não sabe dizer quais foram os responsáveis, no Banco Rural, pela maquiagem dos dados.

"Outros parlamentares também sabiam que esses dados estavam maquiados, podendo citar os deputados Carlos Sampaio e Eduardo Paes, dentre outros que não se recorda.

"Esse tema foi tratado com Aécio Neves, em Belo Horizonte, no Palácio do governo. Após essa reunião, Aécio Neves franqueou o avião do Governo de Minas Gerais para que o declarante viajasse para o Rio de Janeiro.

"O declarante ouviu do deputado José Janene que Aécio Neves era beneficiário de uma fundação sediada em um paraíso fiscal, da qual ele seria dono ou controlador de fato. Essa fundação seria sediada em Liechtenstein. O declarante não sabe precisar, mas, ao que parece a fundação estaria em nome da mãe ou do próprio Aécio Neves. Essa operação financeira teria sido estruturada por um doleiro do Rio de Janeiro. Não sabe afirmar se há relação entre essa fundação e o mensalão mineiro ou a maquiagem do Banco Rural.

"Não sabe dizer se a maquiagem feita nas contas do Banco Rural teve participação dos então donos dessa instituição financeira, porém os donos sabiam da maquiagem realizada.

"Marcos Valério não chegou a comentar com o declarante sobre essa maquiagem nas contas. Marcos Valério comentou com o declarante que 'a tecnologia do mensalão' foi desenvolvida no Estado de Minas Gerais e exportada para o PT".

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