Beagles, pitbulls e rottweilers

O problema para a imagem da Folha, desse contorcionismo de virar-se cada vez mais à direita ao contratar o colunista Reinaldo Azevedo, é que é dessa maneira que os cães acabam por morder o próprio rabo

Os cães viraram notícia. A semana passada foi marcada pela presença deles nas manchetes de jornais, portais e revistas. Primeiro foram os corajosos ativistas a darem voz aos melhores amigos do homem. A libertação dos 178 beagles do Instituto Royal causou comoção, revolta e surpresa em toda a sociedade. E chamou atenção para um assunto pouco discutido no país: podemos permitir que se use animais em experiência para a indústria cosmética? O que acontece aos animais que são cobaias para testes de medicamentos, como são tratados?

Isso por si só já justifica a ação dos melhores amigos dos cães. E os cachorros, vejam como funciona o marketing das ações espetaculosas, foram parar na capa da revistaveja.

Já a Folha de São Paulo notabilizou-se por contratar como colunista o jornalista conhecido na blogosfera como o Pitbull da Veja. E ele já chegou mostrando os dentes.

A entrada de Reinaldo Azevedo e do geógrafo onipresente Demétrio Magnoli no time de colunistas da Folha gerou controvérsias. Muitos acreditam que o jornal deu uma guinada à direita. Mas como um jornal que serviu ao regime militar, abrandou a ditadura, publicou uma ficha falsa da presidenta da república e, fazendo política, apavorou o país com um hoax sobre uma improvável epidemia de febre amarela urbana pode ir mais à direita? Mais à direita do que isso?

Tudo é possível. Suzana Singer cantou a pedra. A ombudswoman da Folha insinuou que Azevedo, que ela metamorfoseou em Rottweiler, pode estar sendo usado pelo jornal para fazer experiências com o leitor/eleitor, para testar hipóteses como diria caninamente Ali Kamel. Singer diz que com a contratação dos novos colunistas "a Folha almeja tornar-se a principal arena de debate político em 2014, ano de campanha eleitoral."

Bom, não é que a Folha estivesse sem colunistas, ela tem mais de cem! O negócio é o seguinte, a jornal do Frias divulgou uma pesquisa feita pelo Datafolha que aferiu o perfil ideológico do brasileiro, veja que curioso. E parece que Otavinho, o barão da Barão de Limeira, ficou assanhado com o resultado: 49% da população se diz inclinada aos "valores" da direita e somente 30% são de esquerda.

Ora, e como é que Lula e Dilma deitam e rolam há uma década? Reinaldo Azevedo ofereceu uma resposta com o título de seu artigo publicado logo após a divulgação do inusitado perfil ideológico do brasileiro: "pesquisa Datafolha: direita e centro-direita são maioria relativa no Brasil, mas não têm em quem votar". "o Brasil é a única democracia do mundo que não tem um partido conservador — se quiserem, "de direita" — viável."

Então Otavinho resolveu acionar o Partido da Imprensa Golpista. Lembremos das palavras da inefável Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais e executiva da Folha afirmando em entrevista aO Globo que os "meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada."

O que a Folha quer é fortalecer o seu discurso oposicionista, encorajar os seus leitores/eleitores a mostrarem os dentes e criar um ambiente para os candidatos de oposição perder a vergonha de se posicionarem claramente à direita.

E a Folha, malandramente, crava esse discurso em alguns sujeitos que se sujeitam a isso, uma vez que já são conhecidos pelo seu perfil conservador e têm opinião própria, por assim dizer, o que descola suas estripulias da opinião do jornal. Não há discurso sem sujeito e nem sujeito sem ideologia, como nos ensina Pêcheux.

E tanto Demétrio quanto Azevedo são figuras de prestígio na grande mídia, sempre utilizados para se contraporem ao discurso do governo, timbrado nos grandes veículos como puro marketing, ou seja, mentira. Eles, portanto, estes colunistas, é que seriam os arautos da verdade. "O poder precisa da produção de discursos de verdade" segundo Foucault, necessita de um discurso sólido e convincente, sem marquetagens.

O poder necessita de produção, acumulação, circulação e funcionamento de um discurso sólido e convincente.

Reinaldo Azevedo disse que o combinado é que ele poderá escrever sobre o que queira na Folha; ou seja, não é a Folha que fala, ela não é o sujeito do discurso. Se não colar, demite-se os dois e a Folha volta a ser o que era.

Suzana Singer teme que a ferocidade dos novos colunistas possa desagradar os leitores da Folha e contaminar a imagem do jornal. Reinaldo Azevedo não gostou das críticas da ombudswoman e, sem focinheira, partiu pra cima da jornalista e a chamou para um debate. Coisa perigosa, visto que Azevedo é animal de rinha.

O problema para a imagem da Folha, desse contorcionismo de virar-se cada vez mais à direita, é que é dessa maneira que os cães acabam por morder o próprio rabo.

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