Bela, recatada e do lar: uma ova!

Assinalamos que nossa voz não tem a intenção de ser protagonista, mas apenas subsidiária de vocês, mulheres, determinadas que sabem o que querem e que lutam por direitos iguais

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Bela, recatada e do lar: uma ova!

Nem sempre a sociedade foi patriarcal. Em tempos antigos, por exemplo, existiam sociedades cujo papel da mulher era de liderança, um poder que emanava das mães, das mulheres, que comandavam os caminhos sociais. E não eram apenas sociedades indígenas das Américas. No continente europeu algumas culturas antigas depositavam na mulher o protagonismo da liderança familiar e da transmissão de bens. Ou seja, nem sempre a sociedade foi patriarcal.

Não obstante, no decorrer do tempo, o gênero dominante foi invertido. As sociedades deixaram de ser matriarcais e se tornaram patriarcais. Para Friedrich Engels, na sua obra “Origem da família, da propriedade privada e do estado” (1884), o processo histórico que culminou no controle, por alguns grupos denominados de burgueses, da propriedade privada permitiu a substituição do matriarcado pelo patriarcado nas sociedades até então tidas como “primitivas”. 

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Certamente que esta não é a única interpretação sobre o assunto. No entanto, cabe sublinhar que tal tema deve constar na pauta de reflexão contemporânea por dois motivos: 1) desnaturalizar a ideia de que a sociedade sempre foi patriarcal e, nesse sentido, nem sempre o domínio social foi dado pelo homem; 2) que as sociedades são históricas e, como tais, devemos observar a dinâmica dos seus processos históricos que acabaram por modificá-las, do domínio feminino para o domínio masculino.

Teríamos muito a dizer desse percurso social, dessa modificação histórica, porém apenas gostaríamos de colocar em relevo (de gritar para o mundo!) que nem sempre foram os homens que exerceram o poder/domínio sobre as mulheres, e que esta relação não se constitui como absoluta, muito pelo contrário, depende justamente da correlação de forças estabelecidas entre tais gêneros a partir das suas relações sociais (e que ultimamente que se diversificaram). 

Não vamos voltar a um passado remoto, mas apenas ao início do século XX. Neste momento histórico, qual era o lugar social da mulher? Na dinâmica social, nas relações de gênero instituídas, os homens operacionalizaram, por intermédio de diversos aparelhos ideológicos de hegemonia (alguns chamam de esferas sociais, mas há outros termos para designar o movimento de poder alinhavado pelos homens sobre as mulheres), um discurso e um poder sobre os corpos femininos. 

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Tais corpos tinham que se recolher a esfera privada, tida como o seu domínio “natural”, uma vez que nesse discurso a característica biológica da mulher, de gerar um filho e colocá-lo no mundo, indicaria a sua situação social: dar a luz, cuidar do filho e daquele que seria o provedor da casa, o homem, cuja responsabilidade seria, no espaço público, assegurar o sustento da família (burguesa, porque nem sempre a ideia de família era esta). 

Claro que as mulheres não se conformaram com esse lugar social e com o domínio masculino. Elas passaram a questionar toda essa arquitetura construída historicamente. O momento histórico emblemático disso foi a década de 1960, quando as mulheres disseram ao mundo chega!, que queriam direitos iguais aos dos homens, incluindo liberdade sexual e participação ativa na esfera pública (que antes era tido como uma mancha moral. Mulher que através do trabalho marcava presença na esfera pública era igualada a uma “prostituta”, pois seu espaço era o privado, a casa). A referência aqui, de textos e posições políticas, era de Simone Beauvoir, por exemplo. 

Um passo importante que ecoou longe, e hoje ainda é relembrado pelas mulheres que não admitem um lugar social, uma posição subalterna, ditada pela sociedade patriarcal, pelos homens. Nesse sentido, tal luta do passado tem alimentado movimentos contemporâneos de mulheres que querem igualdade de direitos. 

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Através do movimento feminista – são várias as correntes e as bandeiras de luta – as mulheres têm conquistado uma forte presença no espaço público (hoje elas são chefes de famílias, com orgulho, e atuam em espaços profissionais diversos: são motoristas de ônibus, pedreiras, engenheiras civis, executivas e até Presidente da República, como a Dilma Rousseff...), com destaque social importante. 

Entretanto, a luta continua. Recentemente, logo após o golpe de 2016, que tirou da Presidência da República uma mulher de luta e honrada, o vice-presidente traidor tratou de propagar um discurso de que a mulher tinha que ser “bela, recatada e do lar”. Nada mais retrógado. A mulher tem que ser o que ela quer ser... E digo mais, força mulheres, imponham a esta sociedade seus anseios e desejos. 

Assinalamos que nossa voz não tem a intenção de ser protagonista, mas apenas subsidiária de vocês, mulheres, determinadas que sabem o que querem e que lutam por direitos iguais. A vocês o nosso respeito e admiração.

Bela, recatada e do lar, uma ova! 

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