'Blowback', ou efeito bumerangue: O Talibã mira o exército das sombras do serviço de inteligência dos Estados Unidos

As bombas do aeroporto de Cabul mostram que existem forças sombrias no Afeganistão, dispostas a perturbar uma transição pacífica após a partida das tropas dos Estados Unidos. Mas o que dizer do "exército das sombras" do próprio serviço de inteligência norte-americano, acumulado durante as duas décadas de ocupação? Quem são eles e qual sua agenda?

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(Foto: REUTERS)


Por Pepe Escobar, para o site The Cradle

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Então, temos o diretor da CIA William Burns e sua ida às pressas a Cabul para solicitar uma audiência com o líder do Talibã, Abdul Ghani Baradar, o possível novo governante da antiga satrapia, a quem ele literalmente implora a extensão do prazo final para a evacuação dos ativos norte-americanos. 

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A resposta foi um retumbante "não". Afinal, o prazo de 31 de agosto foi estabelecido por Washington. Sua extensão significaria apenas o prolongamento de uma ocupação já derrotada.

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A pirueta 'Mr. Burns vai a Cabul', a estas alturas, já faz parte do folclore do cemitério dos impérios'. A CIA nem confirma nem nega que Burns se encontrou com o Mulá Baradar. Um porta-voz do Talibã, deliciosamente diversionista, afirmou que "não tinha conhecimento desse encontro".   

É bem provável que jamais venhamos a saber os termos exatos do que foi discutido pelos dois improváveis interlocutores - supondo-se que o encontro tenha de fato ocorrido, não sendo um erro crasso dos serviços de inteligência. 

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Enquanto isso, a histeria do público ocidental concentra-se, acima de tudo, na necessidade imperativa de retirar do aeroporto de Cabul, todos os 'tradutores' e outros funcionários (que, na verdade, eram colaboradores da OTAN). Mas um silêncio ensurdecedor envolve o que, na verdade, é o xis da questão: o exército das sombras que a CIA deixou atrás de si.  

O exército das sombras são milícias afegãs montadas já em inícios da década de 2000 para se engajar em "contra-insurreição" - esse adorável eufemismo para as operações de busca e destruição lançadas contra o Talibã e a al-Qaeda. Ao longo do caminho, essas milícias praticaram, aos montes, aquele proverbial combo semântico para a normalização dos assassinatos: 'mortes extrajudiciais', que geralmente se seguiam a 'interrogatórios intensificados'. Essas operações eram sempre secretas, seguindo o manual clássico da CIA, assegurando assim que jamais haveria responsabilização. 

Agora Langley tem um problema. O Talibã vem mantendo células adormecidas em Cabul desde maio, e desde antes ainda, em órgãos governamentais específicos da capital. Uma fonte próxima ao Ministério do Interior confirmou que o Talibã de fato conseguiu pôr as mãos na lista completa dos agentes dos dois principais esquemas da CIA: a Força de Proteção Khost (KPF) e a Diretoria Nacional de Segurança (NDS). Esses agentes são os principais alvos do Talibã nos postos de checagem situados no caminho do aeroporto de Cabul, e não 'civis afegãos' aleatórios e desamparados que tentam fugir.

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O Talibã montou em Cabul uma operação bastante complexa e direcionada, dotada de critérios bem nuançados - permitindo, por exemplo, a livre passagem de alguns membros específicos das Forças Especiais da OTAN, que entraram na cidade em busca de compatriotas seus.

Mas o acesso ao aeroporto está agora bloqueado para todos os cidadãos afegãos. O duplo caso de bombas suicidas de ontem introduziu uma variável ainda mais complexa: o Talibã terá que, rapidamente, reunir todos os seus recursos de inteligência para combater quaisquer elementos que tentem usar de ataques terroristas internos no país.

O RHIPTO Norwegian Centre for Global Analyses (Centro Norueguês para Análises Globais) mostrou que o Talibã possui um "sistema de inteligência mais avançado" atuando nas áreas urbanas, especialmente em Cabul. O  "bater nas portas das pessoas" que alimenta a histeria ocidental significa que eles sabem exatamente onde bater quando se trata de encontrar redes colaboracionistas de espionagem.

Não é de admirar que os think tanks ocidentais chorem lágrimas amargas ao pensar no estado lamentável de seus serviços de inteligência, bem ali,  na intersecção da Ásia Central e do Sul. Mas a discreta reação oficial limitou-se a um mero pronunciamento divulgado pelos Chanceleres do G-7, comunicando sua "profunda preocupação com os relatos de represálias violentas em algumas regiões do Afeganistão".

Efeito bumerangue é foda. Principalmente quando não se pode contar a história toda. 

De Phoenix a Ômega

O último capítulo das operações da CIA no Afeganistão teve início quando a campanha de bombardeios de 2001 não tinha sequer terminado. Assisti com meus próprios olhos em Tora Bora, em dezembro de 2001, quando as  Forças Especiais surgiram do nada, equipadas com telefones por satélite Thuraya e malas abarrotadas de dinheiro. Mais tarde, o papel das milícias 'irregulares' na derrota do Talibã e no desmonte da al-Qaeda foi festejado nos Estados Unidos como um grande sucesso. 

O ex-presidente afegão Hamid Karzai, para lhe fazer justiça, inicialmente foi contra as Forças Especiais dos Estados Unidos montarem milícias locais, um recurso essencial para a estratégia de contra-insurreição. Mas, ao final, foi difícil resistir à mina de ouro.  

Um dos que mais lucraram foi o Ministério do Interior Afegão, cujo esquema inicial foi desenvolvido sob os auspícios da Polícia Local Afegã. Mas algumas das principais milícias não estavam sob o controle do Ministério, respondendo diretamente à CIA e ao Comando das Forças Especiais  dos Estados Unidos, mais tarde renomeadas como o infame Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC).

Como seria inevitável, a CIA e o JSOC lançaram-se a um corpo-a-corpo na disputa pelo controle das principais milícias. A solução veio quando o Pentágono emprestou Forças Especiais à CIA dentro do Programa Ômega, no qual a CIA foi encarregada de tratar da inteligência, enquanto as Operações Especiais passaram a controlar o uso da força no campo. O Ômega fez sólidos avanços no reinado do ex-Presidente dos Estados Unidos Barack Obama: havia semelhanças sinistras entre ele e a Operação Fênix da era Vietnã.

Há dez anos, o exército da CIA, apelidado de Equipes de Busca Contraterroristas (CTPT), já contava com um contingente de três mil homens, pagos e armados pelo combo CIA-JSOC. Não se tratava absolutamente de 'contra-insurreição' e sim de esquadrões da morte muito semelhantes a seus correspondentes latino-americanos da década de 1970.

Em 2015, a CIA ganhou como irmã a unidade afegã, a Diretoria Nacional de Segurança (NDS), com o objetivo de criar novas equipes paramilitares para, em tese, combater o ISIS, que mais tarde passou a ser localmente conhecido como  o ISIS-Khorasan. Em 2017, o então diretor da CIA, Mike Pompeo, enviou Langley ao Afeganistão para coordenar o esforço concentrado de eliminar o Talibã e a al-Qaeda, que àquela época havia minguado para umas poucas dezenas de agentes. Pompeo prometeu que a nova rodada seria "agressiva", "implacável", e "incansável".

Aqueles sombrios 'atores militares' 

Pode-se afirmar que o relatório mais exato e conciso  sobre os paramilitares americanos no Afeganistão seja o de autoria de Antonio de Lauri, Pesquisador Sênior no Chr. Michelsen Institute, e de Astrid Suhrke, Pesquisadora Sênior Emérita naquela mesma instituição.

O relatório mostra que o exército da CIA era uma hidra de duas cabeças. As unidades mais antigas remontavam a 2001 e eram muito próximas à CIA. A mais poderosa delas era a Força de Proteção Khost (KPF), sediada no Campo Chapman da CIA, em Khost. A KPF operava inteiramente à margem da lei afegã, além de seu orçamento ser irregular. Seguindo os passos de uma investigação de Seymour Hersh, mostrei que a CIA financiava suas operações clandestinas por meio do caminho de rato da heroína, que o Talibã agora prometeu destruir.

A outra cabeça da hidra eram as Forças Especiais Afegãs do NDS: quatro unidades principais, cada uma operando em sua própria área regional. E isso é tudo o que se sabe sobre elas. O NDS era financiado por ninguém menos que a CIA. Para todos os fins práticos, seus agentes era treinados e armados pela CIA.

Portanto, não é de admirar que ninguém no Afeganistão ou na região circundante tivesse informações precisas sobre suas operações e estrutura de comando. A Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (UNAMA), em seu típico e irritante burocratês, definiu as operações do KPF e do NDS como parecendo "ser coordenadas por atores militares internacionais (itálicos meus), ou seja, externas à cadeia de comando oficial normal".

Em 2018, estimava-se que o KPF contasse com entre três e dez mil agentes. O que poucos afegãos sabiam é que eles eram bem armados, bem pagos, trabalhavam com pessoas que falavam inglês americano usando vocabulário americano, eram empregados em operações noturnas em áreas residenciais e, principalmente, que eram capazes de convocar ataques aéreos executados por militares dos Estados Unidos. 

Um relatório de 2019 da UNAMA ressaltava que havia "repetidos relatos de práticas de abuso de direitos humanos pelo KPF, que matavam civis intencionalmente, efetuavam prisões ilegais e destruíam ou incendiavam propositalmente propriedades de civis durante operações de busca e batidas noturnas". 

Pode-se chamar a isso de efeito Pompeo: "agressivo", "implacável" e "incansável" - fazendo uso ou de batidas de matar-ou-prender ou de ataques de drones equipados com mísseis Hellfire.

Ocidentais woke, que agora passam noites em claro pensando na 'perda das liberdades civis' no Afeganistão, talvez não façam a mínima ideia de que suas 'forças de coalizão' comandadas pela OTAN eram especialistas no preparo de suas próprias listas de matar-ou-prender, conhecidas pelo nome semanticamente demente de Joint Prioritized Effects List (Lista Conjunta de Efeitos Prioritários).

A CIA, de sua parte, não liga a mínima. Afinal, a agência sempre funcionou de forma totalmente externa à jurisdição das leis afegãs de regulamentação das operações das 'forças de coalizão'.  

A dronificação da violência 

Nestes últimos anos, o exército das sombras da CIA transformou-se no que Ian Shaw e Majed Akhter memoravelmente descreveram como The Dronification of State Violence (A Dronificação da Violência Estatal), um artigo seminal publicado no Critical Asian Studies Journal, em 2014 (que pode ser baixado aqui).

Shaw e Akhter definem o alarmante processo de dronificação atualmente em curso como: "a realocação do poder soberano dos militares uniformizados para a CIA e para as Forças Especiais; as transformações tecnopolíticas causadas pelos drones Predator; a burocratização da cadeia de mortes; e a individualização dos alvos". 

Isso consiste, argumentam os autores, naquilo  que Hannah Arendt definiu como  o "domínio de ninguém". Ou, aliás, de alguém que age para além de todas as regras.

O tóxico resultado final, no Afeganistão, foi o casamento entre o exército das sombras da CIA e a dronificação. O Talibã talvez esteja disposto a aplicar uma anistia ampla e não praticar vingança. Mas perdoar aqueles que se lançaram a uma orgia de matança como parte do acordo de casamento talvez seja ir longe demais para o código Pashtunwali.

O acordo de Doha de fevereiro de 2020 entre Washington e o Talibã não diz absolutamente nada sobre o exército das sombras da CIA. 

A questão, então, é como os americanos derrotados conseguirão manter na Afeganistão agentes dos serviços de inteligência para suas proverbiais operações de 'contraterrorismo'. Um governo comandado pelo Talibã fatalmente irá assumir o controle do NDS. O que acontecerá às milícias é uma questão em aberto. Elas talvez sejam totalmente assumidas pelo Talibã. Ou talvez elas se separem e encontrem novos patrocinadores (sauditas, turcos). E elas podem ainda se tornar autônomas e servir ao senhor guerreiro mais bem-posicionado e que pagar melhor.

O Talibã talvez seja uma coleção de senhores guerreiros (jang salar, em dari). Mas o que é certo é que um novo governo simplesmente não permitirá um cenário miliciano de terra arrasada semelhante ao da Líbia. Milhares de mercenários de todos os tipos, com o potencial de se tornarem um pastiche do ISIS-Khorasan, ameaçando a entrada do Afeganistão no processo de integração eurasiana, têm necessariamente que ser domados. Burns sabe disso, Baradar sabe disso – enquanto a opinião pública ocidental não sabe de nada.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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