Bolsonaro: derrota no primeiro turno ou impeachment

"Bolsonaro não tem como escapar de um duro veredicto e não tem como merecer nenhum tipo de desculpa, nenhum perdão. Se conseguir escapar do impeachment não conseguirá escapar do aluvião furioso que se abaterá sobre ele na campanha eleitoral, já no primeiro turno", escreve o cientista político Aldo Fornazieri

(Foto: FUP)
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De duas uma: Bolsonaro está se encaminhando para uma derrota no primeiro turno nas eleições de 2022 ou até mesmo para o impeachment. Dificilmente escapará desta desdita. A instalação de CPI da Pandemia, que lhe é adversa, é decisiva para aplainar este caminho. A CPI documentará fartamente as ações e as omissões criminosas do governo e do presidente que foram causa da morte de parcela significativa dos que partiram, nessa que é a maior tragédia da história do Brasil. Os mortos que Bolsonaro ofendeu agora ajudarão a enterrá-lo politicamente. 

Bolsonaro não tem como escapar de um duro veredicto e não tem como merecer nenhum tipo de desculpa, nenhum perdão. Se conseguir escapar do impeachment não conseguirá escapar do aluvião furioso que se abaterá sobre ele na campanha eleitoral, já no primeiro turno. Além do peso dos mortos, Bolsonaro terá contra si o peso dos vivos, dos milhões de desempregados, dos milhões dos semiempregados, dos milhões dos que passam fome, dos milhões de ofendidos, dos milhões de desesperançados. O peso avassalador que será jogado contra ele o fará perder as forças para resistir e somente os 12 a 15% de bolsonaristas desprovidos de bom senso irão votar nele. 

O establischment político, midiático, militar, empresarial e multinacional se voltará para a viabilização de uma candidatura da chamada terceira via.   Haverá um esforço imenso neste sentido. Por arrogância ou por ingenuidade, setores de esquerda não veem viabilidade nessa alternativa e dão como certo um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. O recomendável é que haja maior prudência na análise dos cenários para que evitar novas surpresas. As esquerdas correm o risco de um duplo erro histórico: em 2018 subestimaram Bolsonaro e agora parecem superestimá-lo. 

É preciso notar que Bolsonaro, além de sangrar pela CPI, não terá tempo para se recuperar. Enquanto que vários países estarão encaminhando a finalização dos processos de vacinação no final do primeiro semestre, o Brasil arrastará o seu processo até o final do ano. O risco de novas ondas de covid é evidente. As mortes continuarão crescendo e a economia continuará patinando. Assim será o ano de 2021. O próximo ano começará com as frustrações pregressas e as incertezas eleitorais do futuro. Não ocorrerão grandes apostas em investimentos. 

Ademais, muitos dos que se iludiram com Paulo Guedes começam a perceber que ali não há presente, não há futuro, só há palavrório vazio de conteúdo. Guedes nunca teve um programa econômico, um plano econômico para enfrentar as dificuldades de uma economia recessiva ou estagnada desde 2014. Menos ainda teve propostas para enfrentar as adversidades impostas pela pandemia. 

O passivo de Bolsonaro não se restringirá apenas às áreas da Saúde e da Economia. Alastrar-se-á para quase todas as outras áreas, como Educação, Meio Ambiente, Relações Internacionais e imagem do Brasil no Mundo, Infraestrutura, Políticas Sociais etc. O governo não terá quase nada a mostrar. Sobrarão provas de desgoverno, de ataques à democracia, de ofensas, de mentiras, de desrespeito, de desmoralização da dignidade da magistratura presidencial, de incentivo à violência, de uma família envolta em mal feitos, de semeaduras de ódios, de divisão da sociedade e do Brasil. Enfim, a negatividade e o passivo de Bolsonaro são tão grandes que será até difícil escolher como ataca-lo tantas são as disponibilidades e alternativas. 

Na campanha, Bolsonaro sofrerá um ataque em pinça, pois tanto Lula quanto a centro-direita terão a obrigação de ataca-lo, premidos pelas circunstâncias da campanha. Com Lula na disputa, Bolsonaro terá imensa dificuldade em escolher um adversário. Se escolher Lula, teria uma derrota quase certa no segundo turno. Se escolher um candidato da terceira via, poderá contribuir para sua derrota no primeiro turno. 

Mas Bolsonaro poderá não chegar no primeiro turno. Sem força para dar um golpe, cada vez mais isolado politicamente, perdendo apoio no empresariado e em sua base eleitoral, sem capacidade de reação na economia, com escassos recursos para oferecer ao centrão, a tendência é a de que sua força se torne cada vez mais anêmica com a CPI. Estas circunstâncias somadas enfraquecerão sua perspectiva de poder futuro, sua capacidade de atração de aliados. Esta tendência produz duas alternativas: 1) abandono crescente; 2) possibilidade de impeachment.

Bolsonaro pouco governa e muito desgoverna. Mas poderá chegar numa situação em que as forças políticas se verão obrigadas a removê-lo do cargo pela completa disfuncionalidade que ele representa. Ademais, sua remoção do cargo poderá interessar à centro-direita, pois ela se desvencilharia de um possível empecilho para estar no segundo turno. 

Isolado e enfraquecido, com baixa possibilidade de ter êxito ou manobrar a CPI, Bolsonaro estimulará a radicalização de seus seguidores. A tensão política aumentará pelas duas vias: pelos trabalhos da CPI e pela mobilização dos bolsonaristas. No limite, os bolsonaristas poderão provocar algum ato desesperado.

As esquerdas vivem um impasse. Com pouca força e baixo protagonismo na CPI, por outro lado, elas também não têm um papel ativo na mobilização popular. Estão passivas, aquarteladas. Parecem pensar mais nas eleições do que no enfrentamento da conjuntura atual. Pode ser uma estratégia arriscada. A escusa que apresentam é a impossibilidade e a inconveniência de mobilizar durante a pandemia. Mas os colombianos mostraram o caminho: foram para as ruas, enfrentaram a repressão e impuseram uma derrota ao governo de direita de Iván Duque, fazendo-o retirar a proposta de reforma tributária antipovo.

Pelos sinais que vêm dando, Lula e o PT tendem a buscar uma aliança ao centro. A presidente do partido admitiu uma aliança até com Geraldo Alckmin como vice na chapa de Lula. Parece uma estratégia de quem não quer correr riscos de uma derrota eleitoral. Aqui surgem algumas perguntas: é necessária uma frente mais ampla para vencer e/ou para governar? Qual o custo disso? Que limites a mudanças imporá essa frente?

Se esta frente se configurar, o PSOL enfrentará um imenso impasse: fazer parte dela apoiando Lula e correndo o risco de se descaracterizar ou reafirmar seu programa e sua proposta com uma candidatura própria? Existem argumentos pró e contra para as duas alternativas. Mas qualquer uma delas deixará sequelas no partido. Nenhuma é inteiramente boa. O ideal para o PSOL seria uma frente de centro-esquerda com Lula. São dilemas que só o tempo, as escolhas e os acontecimentos desvendarão.

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