Bolsonaro, Moro e a classe dominante

Com Bolsonaro, ou com os militares, que já se reinstalaram no poder, não fará a menor diferença para a classe dominante, pois ela é quem paga a banda e, portanto, escolhe a música. Já o Congresso, majoritariamente financiado por ela, votará o que lhe for determinado

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A demissão de Sérgio Moro, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, não passou despercebida do mercado financeiro, como observado na irrefreável e previsível aceleração da escalada de valorização do dólar, frente ao real. Houve dia em que a moeda americana chegou a ser vendida a R$ 7,00. E não há nada nos horizontes nacional e internacional que pareça fazer o Brasil deixar de sangrar a classe trabalhadora e a economia. A pandemia, de resto, fez agravar o que já vinha muito ruim, desde 2019, com um PIB de 1%. Disso tudo, maior gravidade da conjuntura é Bolsonaro à frente do Brasil. Não se pode duvidar da infinita capacidade da classe dominante para apresentar embustes e imposturas, mas, dificilmente, apresentará um representante tão à altura do seu caráter.

Além da pandemia, cujo enfrentamento não é uma escolha, os brasileiros continuam desempregados, as empresas ainda mais estagnadas e o governo Bolsonaro, a mando de quem lhe sustenta, passa à margem da realidade de mais de 100 milhões de brasileiros. Além de retardar o pagamento de uma renda mínima de R$ 600, os projetos enviados pelo governo ao Congresso Nacional, são elaborados sob a ideologia ultraliberal. Em suma, desprotegem a classe trabalhadora e diminuem, quando não aniquilam, a capacidade do Estado induzir o desenvolvimento. Reduzem direitos e massa salarial dos trabalhadores e apresentam privatizações de empresas estratégicas como saída para a crise econômica.

Assim como fizeram com a Embraer, devolvida pela Boeing, que já pode ter sugado toda a tecnologia da empresa brasileira que projetou e produziu o cargueiro C-130, o Tucano, mundialmente conceituado avião de treinamentos e é campeã mundial na produção de aeronaves para 100 passageiros. Com algumas alterações, a Boeing vai poder patentear tecnologia a partir do que os brasileiros já desenvolveram na Embraer. E não apenas nela, mas na Petrobras, Eletrobras, Correios, Casa da Moeda, Serpro, DataPrev, entre várias outras empresas brasileiras onde a tecnologia desenvolvida é assinada por brasileiros. Porém, para a brejeira, ignorante e truculenta classe dominante, isso não tem o menor valor, pois não foi desenvolvido no estrangeiro do hemisfério Norte. Enquanto alguns países produziram uma classe dominante empenhada em proteger os seus interesses, o Brasil produziu uma gente covarde, soberba e, ao mesmo tempo, envergonhada de ser brasileira.

E Bolsonaro é a caricatura que encarna com perfeição os sentimentos da classe do atraso. Ele é subserviente aos interesses dos EUA, não tem a menor empatia pela classe trabalhadora, é absolutamente desinteressado do Brasil, a não ser como um objeto de lucro com a sua venda, e não tem simpatia alguma pela democracia, assim como os endinheirados do Brasil que financiaram todos os golpes aplicados contra o Brasil e a democracia, desde Tiradentes ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, passando pela ditadura civil-militar, de 1964 a 1985 e por todas as vezes em que Lula foi roubado nas eleições. Com Bolsonaro, ou com os militares, que já se reinstalaram no poder, não fará a menor diferença para a classe dominante, pois ela é quem paga a banda e, portanto, escolhe a música. Já o Congresso Nacional, majoritariamente financiado por ela, votará o que lhe for determinado. Nas ruas, qualquer reação popular será rechaçada pelas forças armadas que, também, cumprem os interesses da classe dominante.

O caráter sínico e dissimulado dessa classe ficou ainda mais claro na última crise. Durante a coletiva em que pediu demissão, Moro confessou o cometimento de, pelo menos, dois crimes. O de pedir pensão para ocupar a cadeira do Ministério da Justiça e o de acobertar os vários crimes de Bolsonaro, tonando-se, portanto, seu comparsa. O presidente não cometeu os crimes, na última semana, e nem Moro os descobriu, ontem. Diante do derretimento do governo que a classe dominante elegeu, ela usou do seu braço político, a Rede Globo, para salvar o seu pupilo, o juiz que persegue o PT e o Lula. Porém, o processo não foi muito bem ensaiado, como nas novelas. Com o tiro pela culatra, a classe dominante, coerente com seu caráter autoritário, usa sua emissora para dar voz apenas a quem apoia o seu projeto político, chamado Moro, ainda que ele não difira em nada de Bolsonaro. Não há figura, hoje, no Brasil, que represente tanto o atraso, o mal e a perversidade quanto Bolsonaro. Porém, apenas com um pouco mais de um falso verniz, Moro não fica para trás na legitimação da truculência da classe dominante, que não faz outra coisa senão atrasar este País.

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