Bolsonaro não governa para todos

Jornalista Denise Assis avalia os números da pesquisa CNI/Ibope que mostram Jair Bolsonaro como o presidente mais mal avaliado em começo de mandato desde a redemocratização; "Nada que manobras de apoio aqui e ali, sobretudo do mercado financeiro, que espera a aprovação da tal reforma da Previdência, não trate de recompor. Enquanto isto, Lula e o PT continuam sendo a 'gentalha' que precisa ser mantida longe do poder. Muita luta pela frente", diz ela

Bolsonaro não governa para todos
Bolsonaro não governa para todos (Foto: Reuters | Abr)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Quando setembro vier, é possível que encontre o ex-presidente Lula na mesma situação. Preso. Difícil jogar água no chope de alguns poucos que arriscaram alguma comemoração pela redução da pena de 12 anos e um mês, para 8 anos, 10 meses e 20 dias. Principalmente agora, que sabemos ter o Lula saído do rol dos favorecidos pela votação da prisão só depois do transitado e julgado na segunda instância, a ser votada daqui a pouco. Com a condenação em terceira instância, em que pese outras interpretações jurídicas e recursos que possam ainda haver, pode ser que não o favoreça. O ódio é grande, minha gente. E, a despeito de ódio não caber na letra da Lei, existe muito desta força movendo decisões nas cortes e, ainda, ecoando nas ruas.

Dito isto, em dia de queda de três pontos percentuais na aprovação "desse governo que está aí", segundo pesquisa Ibope, reproduzo aqui cena na fila do mercado. Uma mulher, aguardando sua vez na fila, reclama dos preços, "culpa desse governo".

Retruco. "Mas todos quiseram esse governo, não deveria haver reclamação."

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-Ah! Mas está muito ruim... Não sei não. Está muito ruim.

Atrás, um senhor corpulento, de quase dois metros, camiseta e bermuda, entra na conversa:

-Está ruim? Se piorar a gente troca.

- Desta vez não será tão fácil – devolvo.

Mas quer saber? Não está ruim não. Pior era aquela gente que estava lá. Deixa ele tocar o barco. O importante foi que tiramos aquela gentalha... – reagiu o grandalhão. Achei conveniente não insistir.

Depois de pagar a conta, salgada, é verdade, reuni as sacolas, que passaram a pesar bem mais, peso somado ao desânimo de ver que esse público ainda não se desmobilizou, porque o que os move não é o Brasil, e sim o ódio. Deu vontade de perguntar pelos netos e filhos, deu vontade de perguntar se não se importava...

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Em casa, recebo a explicação plausível para aquele discurso. De posse do texto "O Caos Como Método - Manter o colapso institucional é o modo de Bolsonaro garantir a fidelidade de seus eleitores", do cientista político Marcos Nobre, publicado no número 151 da Revista Piauí, começo a entender melhor. Está ali a descrição, talvez, do motivo que leva esse segmento, - a despeito da senhorinha que se decepciona e reclama dos preços, colocando a culpa no governo, dos Padilhas e da pesquisa Ibope -, continuo ouvindo os grandalhões vociferando o: "deixa ele tocar o barco. O importante foi que tiramos aquela gentalha..."

"Não há pretensão de governar para todo mundo. Trata-se agora, de governar para uma base social e eleitoral que não é a maioria, mas é grande o suficiente para sustentar um governo. Algo entre 30 e 40% do eleitorado. Tornar essa base fiel é fundamental para manter o poder", argumenta Nobre em seu artigo. A mim, parece que ele ouviu o grandalhão da fila.

Vá lá que a pesquisa Ibope nos mostra que o percentual idealizado para constituir esta base está escapando dos números planejados, conforme nos mostra os obtidos pelo Ibope. Nada que manobras de apoio aqui e ali, sobretudo do mercado financeiro, que espera a aprovação da tal reforma da Previdência, não trate de recompor. Enquanto isto, Lula e o PT continuam sendo a "gentalha" que precisa ser mantida longe do poder. Muita luta pela frente.

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