Bolsonaro transformou Mourão em guardião de luxo de Ricardo Salles

"Mourão acaba, com sua autoridade de vice, legitimando as ações do ministro que apoia ou é negligente com incendiários, grileiros, assassinos de índios, desmatadores, garimpeiros", escreve Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Reuters)
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Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia 

Um vice é quase sempre uma possibilidade. Mas não é o caso de Hamilton Mourão. Café Filho chegou a dizer a Getúlio que tramava para ser. Jango foi, mesmo sem querer. Figueiredo sempre desconfiava que era o que Aureliano Chaves queria.

Itamar foi, sem muito esforço. Marco Maciel seria naturalmente, se quisesse e surgisse a oportunidade. E Temer acabou sendo porque os golpistas aceitariam qualquer nulidade como possibilidade no lugar de Dilma.

Mas Hamilton Mourão parece estar condenado a nunca ser. Nem a direita enxerga Mourão como uma alternativa, se os desmandos de Bolsonaro saírem de um controle cada vez mais precário.

Mourão é o sujeito que, com as honrarias, com a fleuma e com as liturgias de quem foi general, consegue o desastre de fazer piada com a desgraça dos bichos da floresta.

O vice reproduziu nas redes sociais o vídeo em que fazendeiros subestimam a destruição da Amazônia e conseguem transportar o mico-leão-dourado da Mata Atlântica para as florestas do Norte. Mourão levou adiante uma mentira e uma gafe.

Deveria ter pedido desculpas e empurrado o mico para o colo dos assessores incompetentes. Diria que entrou numa fria e, falando com firmeza, que isso não pode acontecer.

Mas Hamilton Mourão não quis ficar mal com os fazendeiros e tampouco com Salles e com Bolsonaro. Por isso tentou ser engraçado.

“Aquilo é uma integração Amazônia-Mata Atlântica”, disse rindo o general sobre o milagre que levou o mico-leão para um lugar em que nunca viveu.

Mourão não é uma possibilidade porque vacila quando poderia ser firme e porque não tem densidade como figura pública. O general não corre nenhum risco para não incomodar Bolsonaro.

Já foi atacado pelo próprio Bolsonaro, pelos filhos de Bolsonaro e pelas milícias mobilizadas pela família e decidiu recuar.

No máximo, Mourão se arrisca a palpitar na direção contrária à de Bolsonaro em questões de costumes. No mais, não arrisca nada.

O aborto deve ser uma decisão da mulher, já disse Mourão. Sua opinião nessa área não incomoda Bolsonaro. Outras discordâncias (quem se lembra delas?) não têm relevância nenhuma.

Seria natural, num governo normal, que o vice concordasse com seu chefe ou pouco discordasse dele. Mas o governo não é normal.

Mourão assumiu a presidência do Conselho Nacional da Amazônia em fevereiro, quando o Brasil era massacrado no Exterior. Mas o que o general faz desde então é avalizar falas e atitudes de Ricardo Salles.

Mourão acaba, com sua autoridade de vice, legitimando as ações do ministro que apoia ou é negligente com incendiários, grileiros, assassinos de índios, desmatadores, garimpeiros. A imagem do Brasil é a da tragédia ambiental, e o nome do general passou a ser associado a esse desastre.

Mourão não é uma possibilidade para a direita porque poderia ser protagonista da política, no vácuo dos desatinos de Bolsonaro, mas preferiu ser coadjuvante.

O vice recebeu a chance de preencher o latifúndio de vazios do governo, sem necessariamente se indispor com Bolsonaro e com os garotos. Mas preferiu se encolher.

Bolsonaro empurrou o general para uma armadilha, a de ser tutor de Salles, quando na verdade ele é hoje um subalterno do ministro destruidor.

Bolsonaro deu uma ocupação a Mourão para que tivesse com o que se preocupar e não se intrometesse em outras áreas. E essa é a ocupação de Mourão: não ter ocupação.

O general nunca foi uma possibilidade com o estofo da tradição dos vices que desejam mais, mesmo que se movendo na penumbra. Nem para 2022.

Mourão é o que é, apenas isso, e nunca o que possa vir a ser. O vice foi jogado por Bolsonaro no fogaréu da Amazônia para ser o guardião de luxo de Ricardo Salles.

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