Bolsonaro vai a guerra e Brasil vira bucha de canhão

Florestan Fernandes Jr., membro do Jornalistas pela Democracia, relaciona gestos recentes de Bolsonaro com lideranças internacionais que fizeram o Brasil passar vexame; "Ao desprezar importantes parceiros internacionais e se aliar incondicionalmente ao governo norte-americano, Bolsonaro coloca todas as fichas em Donald Trump. Com isso, corremos o sério risco de ser vítima da própria imprudência e ignorância do presidente dos EUA"

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Por Florestan Fernandes Jr. para o Jornalistas pela Democracia - A ligação umbilical do governo Bolsonaro com Donald Trump permite prever a merda, pra ficar na metáfora preferida do capitão, que se avizinha para o futuro do planeta. Logo após a eleição, Bolsonaro recebeu na casa dele o assessor de segurança de Trump para uma conversa reservada. 

Na época, a imprensa preferiu dar destaque ao fato de Bolsonaro ter batido continência para John Bolton em vez do que estaria por trás da conversa. Afinal, não era a visita de um simples diplomata, mas do conselheiro de segurança nacional da Casa Branca. Certamente Bolton deve ter antecipado a estratégia dos EUA no cenário internacional e o que esperavam do novo aliado brasileiro.  

Não por coincidência, logo após o encontro, Bolsonaro já falava em transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Abriu a primeira crise com os países árabes, importantes importadores de carne, frango, embutidos e cereais do Brasil. A segunda crise viria recentemente com a negativa da Petrobras em abastecer duas embarcações do Irã carregadas de grãos de milho. A estatal disse na época que temia represálias dos EUA.  

Bolsonaro também não escondeu suas diferenças com a China, a quem acusava de ser um predador em busca de dominar importantes áreas da economia nacional. Até 2017, a China era responsável pela compra de um quarto de todas as exportações brasileiras. A demanda dos chineses era por soja, minério de ferro e petróleo. Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, chegou a fazer um alerta: “Ninguém vai vir se não é bem-vindo. Os chineses estão cheios de dúvidas”.  

Dias depois da posse, Bolsonaro seguiu Trump e apoiou o movimento para depor o presidente Nicolás Maduro da Venezuela e reconhecer o governo do autoproclamado presidente Juan Guaidó. A Venezuela era um grande fornecedor petróleo para o Brasil e um forte comprador de produtos industrializados nacionais.  

Na cúpula do G-20, o presidente brasileiro cancela um encontro agendado com o chanceler francês, Jean Yves Le Drian, para ir cortar o cabelo e fazer lives na internet. A grossura irritou bastante o chanceler francês. Já seu colega brasileiro, Ernesto Araújo, achou normal Bolsonaro não dar as caras para França. Afinal, o presidente francês Emmanuel Macron havia recebido em audiência, dias antes, o cacique Raoni para falar sobre a questão ambiental no Brasil.   

Ainda nas relações com os países europeus, o capitão se insurgiu também contra a Alemanha e a Noruega, que suspenderam repasses de financiamento milionário para a preservação da Amazônia. A resposta foi dentro da truculência usual da nova diplomacia brasileira. O capitão sugeriu à primeira ministra Angela Merkel pegar o dinheiro e reflorestar o país dela. Ignorando, por desconhecimento total, que a Alemanha tem 11,4 milhões de hectares de floresta, 32% do território do país. Na resposta ao governo do país nórdico, mais um desdém de Bolsonaro: “A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a dar exemplo para nós”. 

No início da semana Bolsonaro se indispôs com os eleitores argentinos que deram vitória para a oposição nas prévias presidenciais. Chegou a ameaçar sair do Mercosul caso Macri perca a reeleição. Isso tudo sem falar nas pequenas diatribes de Bolsonaro com os russos.  

Ao desprezar importantes parceiros internacionais e se aliar incondicionalmente ao governo norte-americano, Bolsonaro coloca todas as fichas em Donald Trump. Com isso, corremos o sério risco de ser vítima da própria imprudência e ignorância do presidente dos EUA. 

Em artigo publicado no The New York Times, o economista Paul Krugman afirma que Trump “superestima sua capacidade em muito de ferir a China, enquanto subestima os danos que Pequim pode causar ao reagir”. O prêmio Nobel de economia lembra que uma simples desvalorização do yuan, moeda chinesa, seria capaz de derrubar o preço das ações de empresas norte-americanas.  

Com poucos aliados de peso nas disputas internacionais por conta de seu discurso beligerante, Trump pode levar à ruína quem estiver com ele. 

Como toda pessoa de perfil egocêntrico e autoritário, ele não quer ouvir ninguém, a não ser seu próprio pensamento. Para Krugman, a guerra comercial liderada por Trump está fadada ao insucesso. E, como bucha de canhão, o Brasil sairá bem menor desta batalha.

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