Brasil continua dividido em três, como no dia da eleições dos Bolsonaros

"Aconteça o que acontecer, um terço da população brasileira apoia Bolsonaro; um terço é contra e o outro terço é coluna do meio", escreve Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia. "É como se o Brasil tivesse sido congelado, imobilizado politicamente, no dia da eleição dos Bolsonaros"

(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)
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Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Aconteça o que acontecer, um terço da população brasileira apoia Bolsonaro; um terço é contra e o outro terço é coluna do meio.

A nova pesquisa XP/Ipespe divulgada nesta segunda-feira de Carnaval, como todas as anteriores, mostra que o eleitorado brasileiro continua dividido exatamente como no dia das eleições de 2018.

As pequenas oscilações ocorreram dentro da margem de erro de 3,2 pontos percentuais da pesquisa.

Para 39%, o governo do capitão é ruim ou péssimo, exatamente o mesmo porcentual de outubro do ano passado.

Para 34%, o governo é ótimo ou bom e 29% o consideram regular.

Essa divisão do país em três partes quase iguais permaneceu inalterada nos levantamentos divulgados por todos os institutos de pesquisa de um ano para cá.

É como se o Brasil tivesse sido congelado, imobilizado politicamente, no dia da eleição dos Bolsonaros.

Por maiores que sejam as barbaridades já cometidas pelo governo miliciano-militar contra o povo brasileiro, a sua soberania e seu futuro, os números não se mexem.

O Fla-Flu das redes sociais também continua o mesmo e se revela até nos comentários sobre os desfiles das escolas de samba.

Quem defende o governo ataca o desfile da Mangueira, de forte crítica social e política, e vice-versa nos que são contrários.

Nos últimos 14 meses, as condições de vida da maioria da população só pioraram, com a perda dos direitos trabalhistas e previdenciários e a uberização da economia.

Pouco importa. Parece que até mesmo os desempregados, as maiores vítimas, que votaram em Bolsonaro, votariam de novo no capitão se as eleições fossem hoje.

No levantamento da XP Investimentos em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), o que mais me chamou a atenção foi que 40% da população ainda acha a perspectiva ótima ou boa para os próximos anos de mandato do capitão.

Como explicar esse brutal contraste entre a cada vez mais degradada vida real dos brasileiros e esse otimismo que se mantem irredutível?

Só encontro uma explicação: a maioria dos brasileiros ainda prefere acreditar nas fake news da rede bolsonarista de comunicação, montada nos subterrâneos da internet e amplificada por grandes veículos da mídia amiga, do que nos fatos de uma economia estagnada, sem nenhum sinal de que possa melhorar tão cedo.

Como Bolsonaro só governa para os seus devotos e trapaceia diariamente a realidade, esses seguidores se mantém fiéis em qualquer situação, nada é capaz de mudar seu sentimento.

Os demais dois terços da população, que votaram no adversário do capitão no segundo turno (o petista Fernando Haddad, lembram-se dele?) e aqueles que digitaram branco/nulo ou se abstiveram, permanecem onde estavam, só vendo a banda de patos amarelos passar pela janela.

Só um fato novo poderá mudar esse cenário. Mas qual fato novo se pode esperar depois do Carnaval?

Estão previstas duas grandes manifestações para depois da Quarta-feira de Cinzas.

Uma, no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, contra o governo Bolsonaro.

Outra, em defesa de Bolsonaro, no dia 15, contra o Congresso e o STF, liderada pelo general Augusto Heleno, o grande patriota do “foda-se”.

A partir daí, algo poderá começar a se mover para um lado ou outro, a depender do número de manifestantes levados às ruas por mulheres ou bolsominions.

Ou não acontecerá nada, o que é mais provável, e o cortejo fúnebre do país estrangulado pelo poder miliciano-militar seguirá seu caminho.

Vida que segue.

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