Brasil perdeu valores morais após Lava-Jato

"Apesar de todas essas revelações ninguém faz absolutamente nada para, pelo menos, afastar os procuradores denunciados da Lava-Jato", critica o colunista Ribamar Fonseca; "Moro e os dalanhóis da vida, intocados, vão se fazendo de vítimas, enganando os imbecis que ainda acreditam neles quando dizem que os seus críticos são favoráveis à corrupção"

(Foto: Ag. Senado | ALESP)

A cada nova revelação do site The Intercept, sobre os porões da Lava-Jato, vão surgindo novos e surpreendentes personagens dessa abrangente trama criminosa, montada com objetivos políticos, que envergonha a Justiça brasileira. O apresentador Faustão, da Globo, por exemplo, surge como conselheiro voluntário de comunicação da força-tarefa, para que as entrevistas dos procuradores atingissem melhor o povão (ele próprio confirmou a autenticidade da informação), ao mesmo tempo em que aparece outro ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, como aliado da operação nas suas ações. Num dos diálogos revelados o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa, comemora, após um encontro reservado com o ministro, que “o Fachin é nosso”. O comportamento do magistrado nos julgamentos da Corte Suprema, aliás, parece confirmar a informação de Dallagnol, inclusive a sua declaração de que a Lava-Jato criou “uma nova ordem jurídica e ética” no país ao atropelar as leis e violar a Constituição para atingir seus objetivos. E nos julgamentos das ações que envolvem Lula, com perspectivas de libertação para o ex-presidente, o ministro Fachin tem votado sistematicamente contra, para alegria dos lavajateiros.

Outro membro do Supremo também aliado da Lava-Jato em sua trama, segundo os diálogos revelados pelo The Intercept, é o ministro Luiz Fux, que teria dito a Dallagnol que estava à disposição deles para o que fosse necessário, o que levou o ex-juiz Sergio Moro a comemorar, afirmando  “in Fux we trust”, ou seja, “em Fux nós confiamos”. Fux, aliás, parece confirmar o procurador ao cassar a decisão do seu colega Ricardo Lewandowski, que autorizou Lula a conceder entrevistas.  Foi uma decisão inédita no Judiciário brasileiro, um ministro cassar ato do colega, mas como o seu objetivo era impedir o ex-presidente de falar ninguém disse nada. Foi “normal”. O próprio presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, aliás, já havia cassado em tempo recorde decisão do seu colega Marco Aurélio Mello mandando libertar todos os presos condenados em segunda instância, o que beneficiaria Lula. Constata-se, sem nenhuma dificuldade, que tudo o que contribuir para manter o ex-presidente preso, mesmo atropelando as leis, passa a ser encarado como normal, até por quem tem o dever de preservar a Constituição e fazer justiça.  Agora mesmo, apesar da enxurrada de provas sobre a ação criminosa de Moro e Dallagnol na Lava-Jato, a vida deles continua na mais absoluta normalidade, sem nenhuma iniciativa dos poderes competentes para puni-los.

Afora algumas manifestações isoladas, não se vê indignação, como se desrespeitar as leis e violar a Constituição fossem atitudes perfeitamente naturais. Depois das declarações do ministro Edson Fachin e do ex-ministro Carlos Velloso, que aprovaram publicamente os métodos da Lava-Jato, o “normal” é exatamente isso: atropelar as leis e violar a Constituição. As máscaras, no entanto, estão caindo de forma acelerada, graças às revelações do The Intercept. Na verdade, há muito que jornalistas sérios vinham manifestando suas suspeitas sobre a farsa da Lava-Jato e os métodos ilegais empregados para atingir seus objetivos escandalosamente políticos, habilmente disfarçados pelo “combate à corrupção”. Hoje, porém, as suspeitas se transformaram em provas sem que as instâncias superiores da Justiça tomem alguma providência pelo menos para investigar as denúncias, provavelmente porque encaram os crimes praticados pela força-tarefa como ações normais. O mais importante jornal do planeta, o The New York Times, diante do conteúdo dos diálogos do juiz com os procuradores da força-tarefa revelados pelo jornalista Glenn Greenwald, classificou o hoje ministro Sergio Moro de “juiz imoral”, classificação que, obviamente, se estende a todos os que apoiaram a sua atuação e aprovaram as suas decisões. Aqui, no entanto, ele continua sendo visto como herói, inclusive apoiado por milhares de pessoas que saíram às ruas em algumas das principais cidades do país. 

No Brasil, ao que parece, o ódio disseminado pela mídia e pelas redes sociais, que contaminou grande parte da população, suprimiu alguns valores morais conquistados ao longo do tempo, ao ponto de Bolsonaro ser saudado com entusiasmo todas as vezes em que, em seus discursos, falava em matar.  Muita gente que antes conseguia conter seus piores instintos, por não encontrar ambiente para extravasá-los, deixou o armário, estimulado pelo comportamento bélico do novo presidente, e a violência cresceu no país, com um aumento inclusive do feminicídio. Com as ilegalidades praticadas pela Lava-Jato endossadas pela Suprema Corte e cantadas em prosa e versos pela mídia, o que fez de Moro um super-herói, as ações criminosas passaram a ser encaradas com naturalidade pela população, como se fossem normais. Até a atuação do governador Witzel, do Rio de Janeiro, comandando de helicóptero o abate de bandidos nos morros cariocas, foi visto como um ato de heroísmo. E como consequência desse estado de coisas o país vive sob um clima policialesco, muito próximo de uma ditadura, onde, surpreendentemente, o próprio povo pede o fim das instituições democráticas, certamente desencantado com elas. Como diria Silvio Brito em uma de suas famosas composições: “Tá todo mundo louco! Oba!” 

O fato é que apesar de todas essas revelações ninguém faz absolutamente nada para, pelo menos, afastar os procuradores denunciados da Lava-Jato. A Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, sempre muito diligente quando se trata de ferrar Lula, mergulhou num silêncio sepulcral, como se vivesse em outro planeta, ignorando solenemente as proezas das quais seus pupilos são acusados. O Conselho Nacional dos Procuradores também se mantém alheio a tudo, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, que arquivou todas as representações contra Moro. E como ministro da Justiça ele está a salvo das investigações da Policia Federal, da qual é o chefe, despreocupado, portanto, inclusive de ser exonerado pelo presidente Bolsonaro, que reconhece a importância da sua atuação política na Lava-Jato para garantir a sua eleição. Então, depois de tudo o que fez, vai continuar impune? Parece que sim, pois o Congresso Nacional, a única instituição que ainda poderia fazer alguma coisa, através de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, está se limitando a discursos indignados de parlamentares da esquerda. Cadê a CPI? O que está faltando para a sua instalação? Se depender de Rodrigo Maia ela não sairá nunca, pois ele se transformou num ministro extraordinário do governo Bolsonaro no Parlamento, empenhado, inclusive, na aprovação da desastrosa reforma da Previdência.

Enquanto isso, embora moralmente destroçados, Moro e os dalanhóis da vida, intocados, vão se fazendo de vítimas, enganando os imbecis que ainda acreditam neles quando dizem que os seus críticos são favoráveis à corrupção. Quando esteve no Senado Moro afirmou, na maior cara-de-pau, que “a Lava-Jato acabou com a tradição de impunidade do país”. Mais uma de suas mentiras. Cadê o Queiroz, que desafiou a Policia Federal e o Ministério Público ignorando a convocação para depor? Cadê o Aécio, o mais chato cobrador de propina? Por onde andam o Temer, o Serra, o Alkmin, o Youssef, entre outros? E o FHC, que não pode ser melindrado? Por que ele não quis a delação de Eduardo Cunha e muito menos o depoimento de Tacla Duran? Por que o STF não o obrigou a tomar o depoimento do ex-advogado da Odebrecht? Por que até hoje ninguém sabe nada sobre as investigações relacionadas com o laranjal do PSL? Por que nada se sabe sobre a quebra do sigilo bancário e fiscal de Queiroz e do senador Flavio Bolsonaro? São muitas perguntas que estão no ar e ninguém se dispõe a respondê-las, sobretudo o ministro da Justiça.  Até quando vamos assistir, perplexos, a essa degradação moral do país, bichado que foi pela Lava-Jato? Com todos os poderes contaminados, faz-se urgente uma assepsia do país, começando pelo Supremo. Do contrário, melhor rezar, porque Bolsonaro, que ainda nem começou a governar após seis meses no Planalto, já fala em ficar no poder até 2026.   

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