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Gerson Jorio

Professor, engenheiro e jornalista. É autor, entre outras obras, do livro Eleição tem lógica

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Brasileiro não sabe votar

Dirigentes partidários que vão decidir quem concorre. Na maioria das vezes, essas decisões são tomadas sem levar em consideração os interesses do eleitor

Brasileiro não sabe votar (Foto: ABR)

Além de estarmos vivendo um momento político conturbado, uma crise econômica de efeitos assoladores atinge a grande maioria da população, que sem saber o que fazer, espera por oportunidades que possam ajudar na resolução de seus problemas.

Vivemos um período de desesperança, mas a proximidade das eleições sempre nos traz um alento, pois, em tese, a escolha de gente honesta, bem-intencionada e sobretudo capaz para ocupar os cargos em disputa, aumentaria sobremaneira a nossa capacidade de superação.

Por outro lado, contrariando nossas esperanças, existe um senso-comum que afirma que o brasileiro não sabe votar.

Antes de nos aprofundarmos nessa questão podemos ainda acrescentar mais uma pergunta que julgamos, também seja pertinente: 

- O voto realmente tem esse poder transformador que lhe é atribuído?

Acreditamos que essas questões são complexas, interligadas e merecedoras de uma profunda reflexão a respeito e, certamente, este pequeno texto não será capaz de esgotá-las completamente.

Para começar, podemos fazer mais uma pergunta:

- Como são construídas as candidaturas?

- Será que todas as candidaturas têm as mesmas oportunidades e capacidade de se apresentarem em igualdade de condições aos olhos dos eleitores?

Achamos importante essa pergunta porque os eleitores escolhem seus representantes a partir de uma lista de candidatos visível aos seus olhos, ou mais especificamente pelo que a mídia lhe apresenta.

Muito bem, vamos então começar analisando como são construídas as candidaturas. 

Primeiramente, é necessário não deixarmos de considerar que existe uma seleção natural. Nem todos querem concorrer.

Pior ainda, nem sempre os mais preparados e adequados para os cargos em disputa, estão dispostos a enfrentar uma eleição e até mesmo os sacrifícios que um político bem-intencionado tem que se submeter.

Suponha que mesmo com essas barreiras surjam candidatos realmente preparados e dispostos a lutar pelas demandas dos eleitores. 

Pois bem, esses candidatos ainda terão de enfrentar a fase de escolha dos partidos. 

Nesse momento, são os dirigentes partidários que vão decidir quem concorre e quem não concorre através de sua agremiação. 

Na maioria das vezes, essas decisões são tomadas sem levar em consideração os interesses do eleitor e muito menos do candidato, visam tão somente as vantagens eleitorais do próprio dirigente ou seu grupo de interesse.

Isso sem levar em consideração que o candidato ideal pode ingressar em um partido desprovido de potencial para levá-lo a uma vitória eleitoral. 

Falo de partidos que apresentam grandes dificuldades para atingirem o quociente eleitoral e elegerem seus candidatos. 

Se analisarmos eleições passadas veremos que a maioria dos partidos que disputam as eleições elegem pouquíssimos candidatos, isso para não dizer nenhum. 

Outro problema que o candidato tem que enfrentar é a interferência do poder econômico na visibilidade das candidaturas. Quanto mais dinheiro, mais fácil se torna a eleição.

As empresas financiam somente alguns candidatos, e os escolhidos serão definidos em comum acordo com os dirigentes partidários que assumem compromissos com quem financia a campanha, compromissos que invariavelmente não estão alinhados com as necessidades da população.

Ao eleitor somente serão apresentados candidatos que passaram por todos os filtros aqui citados, e no final quem fica com a fama de não saber votar é o “pobre coitado” do eleitor.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.