Brumas de monopólio (II)

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Contextualização e reescalonamento

Para Sebastião Squirra

I

A história da comunicação no Brasil é prolífica em demonstrar que a dinâmica política convencional mudou significativamente após a emergência monopolista da visibilidade mediática das Organizações Globo, na segunda metade do século passado.

Desde então, a simpatia do império jornalístico-televisivo tem contribuído para manter, com a maior estabilidade possível, nomes e fantoches na principal cadeira da República, sob beneplácitos de recíproca subsequentes. Se o reinado decide o contrário, engrossa o cadafalso dos bodes expiatórios, mobilizando programação seleta para manter o moral e o nó da corda, seja explicitamente, em editoriais, seja de forma alegórica, metafórica e subliminar, em módulos humorísticos, de auditório e/ou de variedade.

Sem prejuízo de traços populistas, atenta à disputa diária (senão horária) por audiência e mercados, sempre sob paranoia de eventual decadência, a visibilidade multimediática monopolista responde, com sensibilidade, a gotas-d'água. Até há pouco – antes da exasperação de Manaus –, evitou guerra aberta e fatal com o hóspede do Palácio do Planalto e seus colaboradores tragicômicos.

Signos correntes, no entanto, autorizam a especular, não sem diligência, que as tendências podem ter mudado. Salvo melhor juízo, o império, na trilha da sagacidade política e de mercado de seus fundadores, precavê-se na liberação de vozes credíveis e de massa, aparentemente desconexas ou isoladas. A aleatoriedade dos fatos é a iguaria preferida dos desatentos. A clareza distinta contempla quem rejeita banquetes ou deles participa sem perda do panorama geográfico da mesa. A esse ângulo os fatos soam bastante elementares: no miolo das paralelas, ali onde qualquer cultivo de explicitação editorial pisca para o confronto alegório-metafórico cifrado, brota a ação multilateral mediante terceirização das vozes de combate.

Se esse caminho interpretativo respira algum raio de sol, espera-se que o império mediático não recue um passo sequer. Tornou-se sine qua non, para a saúde – até psíquica – do país, expelir a supuração criminosa da mais alta cadeira republicana. Esse mister independe da necessidade de solução posterior, com a prudência estratégica necessária, da presença de centenas e centenas de militares em diversos escalões do Estado. O Brasil está calejado em sinas de cordilheira: sabe que descartar um seixo agora na planície o fará ter de transpor três montanhas à frente. Joga ao favor dessa superação negociada o fato de que, na estrutura semântica sábia da Constituição Federal de 1988, todas as fardas e patentes hoje alocadas no Governo Federal se encontram em flagrante distância legal em relação às suas funções militares e institucionais.

II

Não obstante, a história da crítica social é, igualmente, pródiga em requerer os préstimos da percepção escaldada. Diante dos mesmos signos ostensivos, ela se cobra, reclinada sobre si, o dever de dialetização interpretativa, sob idêntica angulação ponderada que ela empresta diretamente do procurador-geral do inferno, andar acima ao gabinete advocatício do diabo. O papel de sensibilidade política do primeiro costuma ser mais sutil em agudeza. Essa expertise permite cumprir a função contraditória de um modo tão enigmático quanto as brumas do monopólio multimediático.

A descrença experimentada em relação elas assenta fundamento na observação histórica detida, iluminadora dos dias em curso. A própria imagem utilizada no título deste artigo – a das brumas, atrás das quais há olhos carmins – empurra o devir para densas beiradas de enigma. O horizonte continua inundado no estranhamento.

O império respeita as Forças Armadas, e especialmente militares de alta patente. Membros das três Forças espalharam-se dentro do aparelho de Estado e dão apoio, ora explícito, ora reservado, ao hóspede do Palácio e seus sequazes civis.

Não por acaso, as últimas fileiras da plateia para ouvir Cassandra no jardim das apostas acomodam lentes e gentes cachimbando suspeitas e exalando incertezas. A percepção de pálpebra cerrada, de par com o tímpano maduro na grade vazada, sempre refugiou a dúvida contra os fáusticos banquetes da inocência.

Ao que tudo indica, se houver guilhotina parlamentar durante o longo surto pandêmico, a aparente dispersão em torno – melancólica em relação aos grandes comícios de oposição do passado – tende a operar via janelas protegidas, das casas às redes sociais, para pressionar câmaras legislativas, especialmente a majoritária, brasiliense. A indignação jamais se conforma quando a insistência não consegue romper o bloqueio da pusilanimidade.

A essa altura, as corajosas manifestações esporádicas nas ruas e praças, no furacão do (já relativo) medo da morte, deverão contribuir fortemente, mas como empiria multimediática e periférica, de realimentação de janelas e redes. Quanto ao destino do fundamental, a parca esperança escaldada o alocou nos bastidores. Azedumes extensos, costurados de um poscênio a outro, poderão (espera-se: deverão) fazer as honras da casa, selando clamores direcionados, independentemente de eles se aplacarem na conhecida mimesis procedimental das sociedades secretas, fortes no país.

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