Bustani (2 parte): é um equívoco negar o papel internacional do Brasil

Na segunda e última parte de sua entrevista exclusiva ao 247, o embaixador José Maurício Bustani denuncia submissão de Bolsonaro a Washington, recorda papel internacional de Lula e avalia atuação de Vladimir Putin num mundo cada vez mais conturbado

José Maurício Bustani
José Maurício Bustani (Foto: Reprodução)

* "NO ASSASSINATO DE SULEIMANI, ENTROU UM FATOR: A ELEIÇÃO AMERICANA", diz Bustani. O embaixador explica: "A opinião corrente é que a reeleição de Trump não será muito difícil, porque é grande a possibilidade do pedido de impeachment ser rejeitado pelo Senado. As pesquisas eleitorais também mostram que Trump fala ao coração de muitos americanos, ao "Deep United States,"os Estados Unidos Profundos. Mesmo assim, é preciso considerar que as denúncias, em especial os diálogos gravados, são muito fortes, impactantes e comprometedores. Isso permite imaginar uma campanha difícil. Por isso acho possível imaginar que a eleição pode ter sido um fator importante na decisão de assassinar Sulemani.

"O Trump não tinha por que matar o segundo homem do Irã. Os americanos estavam sendo ajudados pelos iranianos na luta contra o Estado Islâmico, com êxito. O Trump jogou uma cartada muito forte. Jogou pôquer. Porque a reação do Irã poderia talvez ter sido mais violenta. Debaixo de tantas sanções como se encontra, o Irã não teria condições de reagir de forma mais dura. Os iranianos reagiram de forma cirúrgica, sem vontade de matar ninguém. Visivelmente, não queriam elevar as tensões, o que teria acontecido num agravamento da escalada militar. Também não descarto que o Irã tenha ouvido uma palavra de cautela de Putin", afirma o embaixador, para quem o presidente russo tem desempenhado um papel peculiar num cenário mundial de problemas graves, impasses frequentes e governos fragilizados.

* ACHO QUE O PUTIN TORNOU-SE O PRINCIPAL 'ESTADISTA'DE NOSSO TEMPO, diz Bustani.

"Putin consegue, discretamente, impor uma influência russa em diversos países, em particular nas áreas mais conflagradas. Consegue se entender com a maioria dos países. Quem manteve a integridade da Síria foi Putin, que também tem uma ligação evidente com o Irã. A viagem recente de Netanyahu a Moscou prova que Putin também tem relações com Israel. Na última campanha norte-americana, ficou claro ainda que seus contatos podem chegar ao próprio Trump. Estará este protegendo seus investimentos particulares na Rússia? "

*"É UM EQUIVOCO DIZER QUE O BRASIL NÃO TEM CACIFE PARA DESEMPENHAR UM PAPEL EM NÍVEL INTERNACIONAL", afirma o embaixador. "Não devemos ter complexo de vira-lata, para usar a expressão de Nelson Rodrigues. Até porque não somos vira-latas. Pelo seu tamanho, por sua economia, o Brasil pode sim ter voz e oferecer soluções. O exemplo mais evidente foi a iniciativa brasileira e turca, que convenceu o Irã de Ahmadinejad, um líder mais complicado do que os atuais dirigentes iranianos, a aceitar um acordo para controlar a produção de urânio e não produzir artefatos nucleares. O Brasil conseguiu se unir a Turquia, país-membro da OTAN, e fazer uma negociação que poderia ter sido exitosa. Não obstante, Hillary Clinton, que tinha uma agenda própria, sempre muito ligada aos interesses do Estado de Israel, da noite para o dia convocou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e travou a proposta turco-brasileira. Cinco anos depois, norte-americanos e europeus assinaram um novo tratado com o Irã. O lamentável é que, entre um acordo e outro, foram perdidos cinco anos."

* "TUDO QUE O LULA FAZIA TINHA GRANDE REPERCUSSÃO", diz o embaixador, para explicar o lugar do ex-presidente na política mundial da primeira década deste século. "Ele era mais do que um político bem sucedido. Virou uma espécie de vedete internacional, um ídolo popular. Todo mundo queria saber o que pensava a respeito de qualquer coisa, e todas os seus atos e discursos tinham grande repercussão", explica. "Eu era embaixador em Londres quando, em viagem de Estado, hospedado pela Rainha da Inglaterra, Lula falou de improviso no parlamento britânico durante uma hora e meia, numa sessão que reunia a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes. Foi ovacionado de pé. Jamais se viu isso. Anos depois, quando eu já me encontrava em Paris, como embaixador, tomei um taxi para ir à embaixada. Na chegada, reparei que o motorista prestou atenção na bandeira brasileira. Pensei que iria falar "Brasil? Pelé". Ele disse: "Brasil? Lula".

Bustani sublinha que Lula era um politico particularmente jeitoso. "Dava-se bem com o Bush, até muito melhor do que com o Clinton, curiosamente". Bustani lembra que, por trás desta personalidade única, havia uma substância política clara: "Lula tinha noção do que o mundo representava para o Brasil e do papel que o Brasil poderia desempenhar no mundo. Ao mesmo tempo, acatava nossa tradição diplomática, a politica externa independente, linha de atuação que vigorou no Estado brasileiro por mais de 50 anos, desde que ingressei no Itamaraty, pelo menos. Com reinterpretações e diferenças de ênfase, essa orientação alimentou governos dos períodos democráticos e mesmo governos militares, como se viu no governo Geisel, que rompeu o acordo militar com os Estados Unidos, abriu espaço na África, inclusive como primeiro país a reconhecer a independência de Angola. "Referindo-se ao governo Bolsonaro, Bustani denuncia: "hoje você subordina tudo a Washington, que não pode ser paradigma para o Brasil. Nosso paradigma não deve ser os Estados Unidos, mas o próprio Brasil, apenas obedecendo nossa história."

Bustani afirma que o governo Bolsonaro representa uma desastrada tentativa de ruptura com o próprio passado do Brasil, movimento que gera suspeitas no mundo inteiro, prejudica uma articulação internacional construída com dificuldade e tem efeitos negativos sobre nossa economia. "O que se fez em relação ao assassinato de Soleimani é totalmente inaceitável: um governo brasileiro está endossando o terrorismo de Estado". Numa referência a hipóteticas retaliações do islamismo solidário com o Irã, Bustani observa que essa resposta de Bolsonaro "até pode trazer para cá um problema que não enfrentamos hoje".

Para o embaixador, em apenas um ano de governo a diplomacia de Bolsonaro mostrou-se especializada em produzir ataques gratuitos contra adversários de Trump, com a ilusão de que poderá agradá-lo. O tratamento dispensado a Alberto Fernandez durante a campanha eleitoral argentina até poderia ser aceito como lance de uma briga de rua entre torcidas de futebol -- jamais nas relações entre aliados históricos, com o qual o Brasil partilha fronteiras econômicas e até avanços importantes na área de energia nuclear.

* "Você não hostiliza um candidato, esteja ou não na frente as pesquisas, como Bolsonaro fez com Alberto Fernandez, porque sabe que vai ter de lidar com ele no futuro", observa o embaixador. Mas depois de errar pela primeira vez, prossegue Bustani, pelo menos Bolsonaro deveria "ter ido a posse. Mas mandou o vice. São rituais que não fazem parte da nossa prática diplomática, em particular com este vizinho".

* "CONCEITO DE ALCANTARA É DE QLUSE UMA BASE MILITAR ESTRANGEIRA." Embaixador na França entre 2008 e 2015, Bustani está em boa posição para avaliar a lamentável agressão de Bolsonaro à mulher de Macron. Além de envolver uma noção básica no convívio entre governos de países soberanos, a regra da "não-personalização das relações diplomáticas", o episódio sublinha uma noção social, sobre a necessidade de evitar ofensas privadas que provocam prejuízos pesados ao interesse público.

Na passagem por Londres como embaixador, Bustani recebeu, diretamente de Lula, a tarefa de reconstruir imagem do Brasil na City londrina, enfraquecida pelos miseráveis resultados da economia nos anos finais do governo Fernando Henrique.

Ao ser transferido para Paris, Lula lhe deu a incumbência de construir uma parceria estratégica já discutida entre presidente brasileiro e seu colega francês, Jacques Chirac. Embora Bustani tenha assumido a embaixada de Paris num momento em que Nicolas Sarkozy já tomara posse no Eliseu, as tratativas seguiram em frente sem atropelos. "Ao lado de Sarkozy, demos continuidade a parceria ambiciosa, que incluia três elementos principais: 1) o desenvolvimento de um programa de submarinos, inclusive um de propulsão nuclear; 2) a aquisição e desenvolvimento, no Brasil, de aviões de caça, Rafale; 3) desenvolver um programa espacial basileiro em toda extensão, desde a concepção e os lançadores de satélites, e a construção no Brasil de uma supercalculadora, de que só cinco países dispõem. O primeiro módulo dessa supercalculadora, cuja existência a maioria dos brasileiros desconhece, já está em funcionamento em Petrópolis."

Bustani tem uma explicação racional por essa opção francesa. "Desde o governo do general de Gaulle a França decidiu se tornar independente, do ponto de vista tecnológico e militar, dos Estados Unidos. Por essa razão os franceses desenvolveram sua própria arma nuclear e seus submarinos, entre outras altas tecnologias de defesa. O problema é que no final do século, a França, sozinha, já não era capaz de sustentar esse projeto tão grandioso. Precisava de um parceiro confiável, de grandes proporções, para dar continuidade a tantas pesquisas e investimentos altamente sofisticados. Foi assim que Chirac e Lula concluíram, mutuamente, que a parceria entre os dois países era a mais adequada." Durante sua estadia na França, Bustani negociou não só um projeto de submarinos, indispensável para a proteção de uma costa imensa como a nossa. Também contribuiu na elaboração de um programa espacial que envolvia desde a fabricação de foguetes até a exploração da base brasileira de Alcântara, em ação complementar com a base francesa de Kouru, na Guiana. "A ideia era explorar as duas bases de forma conjunta e, ao mesmo tempo, ter um programa próprio de lançamento de foguetes e de satélites", diz Bustani. "O projeto também incluía naturalmente trazer cientistas franceses para São José dos Campos para desenvolver tecnologia espacial".

Como se sabe, dessa parceria estratégica, sobrou apenas o programa de submarinos, ProSub. O resto não teve continuidade. Esqueceu-se o programa espacial. E não se deu continuidade ao projeto da super calculadora.

Neste cenário, a novidade produzida pelo governo Bolsonaro foi uma mudança radical, num novo acordo no qual principais objetivos acertados com a França foram abandonados e a pareceria foi substituída por uma relação de dependência com os Estados Unidos. Trabalhando num regime de porta fechada em Alcantara, técnicos norte-americanos irão desenvolver suas próprias pesquisas, conforme interesses de seu próprio país, num regime de zero parcerias científicas ou tecnológicas.

"Não conheço o texto do acordo mas, pelo pouco que se pode saber através dos jornais, o acesso de brasileiros ao local será controlado. O Brasil até ficou ficou proibido de usar o dinheiro resultante deste aluguel no desenvolvimento de seu próprio programa espacial", critica Bustani. "Não aceito isso. O governo de um país não pode pretender determinar e controlar como outra nação irá utilizar recursos que recebeu de forma legítima, se legítima é. Sabemos que, no início, os americanos queriam instalar uma base militar. O Itamaraty até concordava mas os militares disseram não. Mas no fundo o que temos hoje, possivelmente, é uma 'base militar disfarçada'", explica o embaixador. Bustani também observa que, em detrimento do caça francês, Rafale, foi escolhido o sueco Gripen. "Considero uma mudança equivocada, pois o Gripen não é adequado para um país de grandes dimensões, como o Brasil".

Como embaixador em Paris, Bustani também conduziu as tratativas iniciais para aproximar o Brasil da OCDE. Foi nomeado "embaixador-observador" em decreto assinado por Lula. "Que se dê a César o que é de Cesar", diz o embaixador. "A partir daquele momento, determinei que um grupo de quatro diplomatas cuidasse exclusivamente da OCDE, participando de comitês e grupos de trabalho." Ao deixar Paris, em 2015, o Brasil e os demais BRICS --Russia, China, India e Africa do Sul --, além da Indonesia, faziam parte dos chamados parceiro-chave da organização.

* "OS IMPÉRIOS ACABAM", José Maurício Bustani. O que aprendi na minha carreira é algo semelhante ao que diz Trump hoje. Eu digo 'Brazil first", afirma. "Temos um território gigantesco, um povo talentoso, infelizmente sem recursos para desenvolver esse talento, políticas equivocadas na educação, ciência e tecnologia. Temos que repensar o Brasil. Passá-lo a limpo.

"Também aprendi que os impérios parecem capazes de durar para sempre mas sempre acabam. O Império Romano acabou. O Império Otomano também acabou. O Império Britânico também acabou. Quem imaginava, há 20 anos, que a China iria se tornar o que se tornou?"

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