Carta aberta à senhora Leticia Dornelles, presidenta da Fundação Casa de Rui Barbosa

Colunista Eric Nepomuceno diz estar assombrado com projeto "tão específico e contundente" da instituição: "tratar de Margareth Thatcher e Ronald Reagan justo no ano em que serão celebrados, entre outros fatos, os centenários de nascimento de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto"

Prezada sra. Dornelles:

Dou-me por informado de que a senhora, para registrar seu ingresso no universo cultural brasileiro, programa, na Casa de Rui Barbosa, uma atividade para marcar sua chegada ao setor: duas mostras, uma sobre o período da ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher (1979/1990), e outra sobre o período do ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (1981/1989).

Confesso meu estado de assombro ao constatar que sua estreia na instituição que é referência no universo das artes e da cultura em nosso país (calculo que a estas alturas vossa senhoria já saiba disso) se dê com projeto tão específico e contundente: tratar de Margareth Thatcher e Ronald Reagan justo no ano em que serão celebrados, entre outros fatos, os centenários de nascimento de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto.

Em todo caso, e diante dessa circunstância, peço licença para me colocar à disposição de vossa senhoria, caso julgue conveniente minha eventual colaboração em uma das atividades anunciadas. 

Creio poder contribuir em relação ao período presidencial de Ronald Reagan, a quem a senhora se refere como, data vênia, ‘um ídolo para muita gente’.

Esclareço: durante uma temporada especialmente intensa de meus anos jovens (1979-1983), fui correspondente estrangeiro de uma então respeitável publicação brasileira. Minha base era o México, e minha atividade incluía o que acontecia na América Central, em especial as guerras civis que ensanguentavam vários de seus países. Mesmo depois de meu regresso ao Brasil, naquele 1983, continuei e continuo frequentando a região.

Foi, pois, na condição de correspondente de guerra que pude acompanhar de perto as consequências da brutal política imperial levada a cabo por Ronald Reagan naquelas comarcas da nossa América. 

Foram anos especialmente nefastos para os povos da Nicarágua, Guatemala, Honduras e El Salvador, graças à permanente intromissão do governo dos Estados Unidos incitando e estimulando conflitos internos.

A política externa de Ronald Reagan consistia exclusivamente em prestar apoio sem limite a aliados sanguinários, ou treinar, armar e financiar opositores de governos que não seguissem com cabal submissão e vassalagem as instruções de Washington.

Foi assim que a administração Reagan conseguiu tornar-se uma das mais brutais para a América Latina, mesmo levando em conta o que fizeram todos os seus antecessores. 

Aliás, se os sucessores puderam concentrar suas ações violentas em outras regiões do mundo, isso se deu graças à política de terra arrasada levada a cabo em quase todas as nossas comarcas pelo mandatário que vossa senhoria afirma ser um ‘ídolo para muita gente’.

Posso calcular que tipo de gente integra o que vossa senhoria afirma ser ‘muita’, e advirto que sob nenhuma circunstância me incluo nesse lote. 

Ao mesmo tempo, afirmo ter sólidas razões para crer que entre essa gente a que vossa senhoria se refere como ‘muita’ estejam vários elementos do governo que a descobriu e, de forma surpreendente, elevou ao posto que momentaneamente ocupa. 

Creio, porém (pensando sobretudo nas novas gerações deste país anestesiado e amnésico), e por ser a Casa de Rui um centro justamente de investigação e preservação da memória, que meu depoimento sobre aqueles tempos de horror e violência possa ser de alguma utilidade. 

Tudo que o ‘ídolo de muita gente’ fomentou e executou continua sendo uma formidável lição de autoritarismo reacionário, abjeta prepotência imperial e violência desenfreada, algo que sob circunstância alguma deveria se repetir nem lá nem cá, apesar das evidentes e insistentes tentativas.

No aguardo de manifestação de vossa senhoria, e à sua inteira disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários, subscrevo-me atenciosamente

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247