Carta aberta (e de repúdio) à ESALQ/USP

Foi com tristeza e pesar que recebi a notícia de que a centenária e ilustre Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiróz”, da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) iria ter como paraninfa a atual ministra (sic) da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina

Ministra da Agricultura, Tereza Cristina
Ministra da Agricultura, Tereza Cristina (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)
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Foi com tristeza e pesar que recebi a notícia de que a centenária e ilustre Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiróz”, da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) iria ter como paraninfa a atual ministra (sic) da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina – mais conhecida como “Musa do Veneno”.

Tive o orgulho de fazer parte desta escola e sua história, durante os anos 2000 até 2007. Na ocasião, fui estagiário (2000 até 2004) e desenvolvi meu curso de Mestrado em Ciências (2005 até 2007), junto ao Departamento de Entomologia, no Laboratório de Patologia e Controle Biológico de Pragas, sob a orientação do saudoso professor Dr. Sérgio Batista Alves. Foi ele, inclusive, que me incentivou a lutar contra os agrotóxicos da maneira como luto hoje. Por sinal, seu laboratório era “um ponto fora da curva” em meio a um departamento financiando e abastecido por interesses da agroindústria.

Financiamentos para nossos trabalhos eram difíceis de serem conseguidos, pois íamos contra a indústria dos agrotóxicos, priorizando a descoberta e utilização de técnicas sustentáveis – como o uso de fungos, bactérias e até vírus – para o controle natural das chamadas ‘pragas’. Tive a honra, inclusive, de participar de vários congressos e encontros científicos, assim como artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, sendo também convidado para participar do livro “Controle microbiano de pragas na América Latina: avanços e desafios”. O legado que o professor Sérgio deixou através de seus ensinamentos, não poderia passar despercebido e ignorado neste momento.

Caso estivesse vivo, tenho plena certeza que apoiaria e aplaudiria a formanda Nara Perobelli que discursou perante a tal ministra, falando verdades nuas e cruas, denunciando o (des)governo fascista a paraninfa imposta qual faz parte. Ao término da fala, também rendeu homenagem à agrônoma Ana Maria Primavesi, pioneira na defesa da agroecologia e que dizia que o objetivo “não é vender adubos e defensivos, mas produzir bem e barato”.

Lamentável que a ESALQ, famosa por sua tradição e competência acadêmica, e que outrora já contou com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva na inauguração do Polo Nacional de Biocombustíveis (2004), e até mesmo por sua acessibilidade e ajuda ao pequeno produtor rural através de suas extensões, agora tenha essa mancha em sua linda história, graças ao pífio diretor Durval Dourado Neto.

Não condiz com a ESALQ a presença indesejada dessa patética figura da Tereza Cristina como paraninfa da turma de 2019. A tal ministra representa o que de há pior no Congresso Nacional, atendendo desejos capitais diretos da bancada ruralista e do agronegócio, sem o mínimo de preocupação com a questão ambiental e até mesmo de saúde pública. Sob sua batuta, o Brasil bate o recorde de aprovações de agroTÓXICOS e produtos transgênicos, indo na contramão do que o mundo faz.

(Infelizmente não foi a primeira vez que a ESALQ atua de maneira autoritária e antidemocrática. Lembro aqui a perseguição ao nobre professor Marcos Sorrentino, do Laboratório de Educação e Política Ambiental, ligado Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental, quando sofreu uma sindicância intimidatória em 2017 para explicar a 4ª edição da Jornada Universitária em Apoio à Reforma Agrária).

Em um período obscuro, de censuras e retrocessos que vivemos no país, incluindo o desmonte da educação e das pesquisas científicas (como os cortes nos orçamentos da CAPES, da qual fui bolsista durante a pós-graduação), a escolha nada democrática da “Musa do Veneno” por parte da própria diretoria da referida escola, não nos surpreende. Ao mesmo tempo, não pode passar em vão.

Atos e ações como essa só nos reafirmam que o momento é de resistência e luta. Luta pelo direito à terra, pela agroecologia, pela inclusão dos povos e das minorias. Luta contra a hegemonia do agronegócio e sua insustentabilidade, contra as mortes no campo e a devastação ambiental.

Lutamos para denunciar que a agricultura familiar detém apenas 24% do território cultivável, mas responde por 70% da produção dos alimentos, enquanto que os latifúndios do agronegócio somam 76% da área, degradando-a, contaminando-a para a produção de ração (à base de soja e milho, por exemplo), combustível (cana-de-açúcar) e atender às exportações.

Lutamos para denunciar o grande acesso aos investimentos e créditos disponível ao agronegócio (86%), em comparação aos míseros 14% destinados à agricultura familiar que mesmo assim resiste e emprega 74% da mão-de-obra do campo.

A luta é contra o agro que é tóxico, e de pop não tem nada!

Fica aqui, portanto, minha sincera carta de repúdio à ESALQ e sua infeliz atitude.

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