Caso Greenwald: esquerda está disposta a defender a censura para apoiar Biden?

A esquerda, ao atacar Greenwald, na realidade está se colocando em defesa da censura dos grandes jornais para apoiar uma candidatura apoiada pelos criminosos de guerra

Por Juca Simonard

Por Juca Simonard

Na discussão sobre a provável censura do artigo de Glenn Greenwald, o problema se o jornalista foi censurado ou não é o menos importante. Mais relevante ainda é o posicionamento de boa parte da esquerda nacional e internacional sobre a questão.

Logo que surgiu a denúncia, uma parte da esquerda passou a atacar Glenn por publicar, às vésperas das eleições norte-americanas, um artigo mostrando um esquema de corrupção envolvendo o candidato do Partido Democrático à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, e uma empresa de energia ucraniana, a Burisma.

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O caso

Glenn apresenta uma série de informações sobre emails de Hunter Biden, filho de Joe, refletindo seus esforços para induzir seu pai a tomar decisões que beneficiassem a empresa.

Hunter recebia pagamento mensal de US$ 50.000 e, em troca, ele, Joe e Jim Biden (irmão de Joe) teriam perspectivas de negócios lucrativos na Ucrânia e na China. 

O jornalista Glenn relatou a participação ativa de Joe Biden na substituição do procurador-geral de Justiça da Ucrânia, Viktor Shokin, responsável por investigações contra a empresa Burisma, em troca da liberação de US$ 1 bilhão pelos EUA em ajuda ao país no governo de Barack Obama, do qual Biden era vice-presidente.

O portal The Intercept, porém, não gostou do artigo, uma vez que, assim como os grandes jornais e meios de comunicação capitalistas, apoia Biden contra Donald Trump, que busca a reeleição nos EUA. Segundo Glenn, ele foi censurado pelo portal que ajudou a fundar.

“A causa final e precipitante é que os editores do The Intercept, em violação do meu direito contratual de liberdade editorial, censuraram um artigo que escrevi esta semana, recusando-se a publicá-lo a menos que eu removesse todas as seções críticas ao candidato democrata à presidência Joe Biden, o candidato apoiado veementemente por todos os editores da Intercept de Nova York envolvidos neste esforço de supressão”, disse o jornalista. 

Apenas contextualizando, pois esse é o problema menor. Entretanto, cabe aqui ressaltar que o esquema denunciado por Glenn em seu artigo - apesar da grande imprensa corporativa alegar que não há comprovação - é extremamente provável (além de muito bem fundamentado), pois como se sabe o imperialismo norte-americano tem um grande histórico de intervenção na economia e na política de outros países para favorecer seus interesses. Aliás, esse era o foco da política de Barack Obama.

Esquerda a reboque dos interesses dos monopólios

Apesar de uma parte da esquerda ficar a reboque do setor mais tradicional do imperialismo, que adora Obama, o ex-presidente dos EUA é responsável por uma das políticas mais genocidas ultimamente vistas no mundo. Obama entrou em mais guerras do que o criminoso George W. Bush, lançou mais bombas que ele e promoveu mais golpes de Estado também. Os golpes na América Latina (Honduras, Brasil, Paraguai, etc.) e no Oriente Médio (Líbia, Síria, Iêmen, etc.), assim como Ucrânia e Egito, foram todos promovidos pelos EUA durante o mandato de Obama.

Mesmo sendo um genocida, a esquerda ficou a reboque. E continua atualmente.

O imperialismo norte-americano está dividido entre o vice de Obama, Biden - apoiado pelo capital financeiro e pela indústria da guerra -, e Trump - apoiado por capitalistas de menor porte que perderam dinheiro com a saída das indústrias norte-americanas para países como a China e pelo intenso desemprego promovido pelos governos democratas.

A esquerda brasileira e internacional está apoiando a política do setor mais tradicional do imperialismo. Para algumas pessoas, a vitória de Biden seria um “duro golpe” contra a extrema-direita mundial e enfraqueceria Bolsonaro. Assim, uma parcela da esquerda vê um falso progressismo na chapa Biden-Harris, que defende a manutenção das guerras genocidas pelo mundo e defende uma política repressiva interna gigantesca.

Biden e Harris: chapa da guerra e da repressão

Sobre este último ponto, vale fazer um esclarecimento. A escolha de Kamala Harris para a vice-presidência foi comemorada pela esquerda pelo fato dela ser uma mulher negra. Harris, porém, é procuradora e, em seus debates, comemora seus feitos de repressão contra a população pobre da Califórnia. Para ela, o fato de inúmeras famílias pobres (a maioria negra) não conseguirem consolidar uma disciplina escolar em seus filhos é motivo para a prisão dos pais.

O senador Biden, da mesma forma, é um dos principais defensores da lei de encarceramento em massa, que levou os Estados Unidos a ter a maior população carcerária do mundo (num país em que existem presídios privados que lucram com os presidiários), e da guerra do Iraque, que matou milhões de pessoas e devastou o país em nome do interesse dos monopólios de exploração do petróleo.

Agora, imaginemos que Glenn Greenwald tenha sido, de fato, censurado. A esquerda está disposta a defender a censura para apoiar Biden? 

Qualquer um com um pouco de senso crítico percebe a gigantesca campanha dos meios de comunicação para eleger Biden. Na realidade, a censura a Glenn surge destes monopólios. A esquerda, ao atacar Greenwald pela publicação do artigo, na realidade está se colocando em defesa da censura dos grandes jornais para apoiar uma candidatura apoiada pelos criminosos de guerra.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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