Centralidade da questão nacional e patriotismo de fachada

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A eleição presidencial brasileira é um dos acontecimentos dos mais importantes do mundo neste momento, se não o mais importante. Isso em função da grandeza da economia brasileira, de sua população e território, e pela abundância de matérias-primas que possui o país. Ao contrário do que muitos divulgam, o Brasil é um país muito importante no cenário internacional e, por isso mesmo, sofre uma férrea vigilância do imperialismo, especialmente da sua cabeça, os EUA, que se consideram donos daquilo que pensam ser o seu “quintal”, a América Latina.

A imensa polarização política existente no País, simplesmente dizimou o chamado centro político, a direita chamada de “neoliberal” foi varrida do mapa político nacional. A polarização aumentou muito a partir do momento em que a reação começou a organizar o golpe de 2016, com coordenação internacional, inclusive. A polarização não é obra do espírito santo, mas decorrência de uma crise econômica sem precedentes e sem um fim previsível. Como ocorre em graves crises, a cada ação encaminhada, em vez de aliviar a crise, esta é alçada a um patamar superior.

É o caso da guerra da Ucrânia, provocada para afetar um dos principais inimigos eleitos pelo imperialismo, a Rússia. Cercaram o país geopolítica e economicamente e a reação armada desse, com todas as suas consequências, mergulhou a Europa numa grave crise. Em função do interrompimento do fornecimento de gás natural da Rússia, o Continente está numa sinuca de bico, sem suprimento estável de energia, o que é vital para o funcionamento de qualquer economia. Isso somado ao baixo crescimento, inflação, desemprego elevado, tudo levando a uma imensa crise política, na qual a extrema-direita se encontra em ascensão. Um caso ilustrativo da gravidade da crise foi a renúncia da primeira-ministra britânica, Liz Truss, ocorrido nesta quinta-feira (20). Terceira líder do Reino Unido consecutiva a sair antes da hora, Truss foi a que menos tempo ficou no cargo, na história do país.

Com o agravamento da crise mundial, as forças que historicamente não querem que o Brasil se desenvolva (impressiona a atualidade da carta-testamento de Getúlio Vargas, divulgada em agosto de 1954), intensificaram seu ataque ao País. Não é difícil entender que num quadro de crise mundial aguda, cujas consequências neste momento são imprevisíveis, aumenta a disputa por matérias-primas, fontes de energia e mercados mundiais. Um país com os recursos naturais e com a extensão territorial do Brasil, com uma política de desenvolvimento, petroquímica desenvolvida, com as reservas petrolíferas que dispõe, seria imbatível como nação desenvolvida. Porém, colocar toda essa riqueza a serviço do País e da maioria de sua população, requer uma mudança significativa na correlação de forças.

O que acontece no Brasil em relação à Amazônia reflete a polarização e as disputas que estão em jogo. Não existe região em qualquer parte do globo terrestre que disponha de mais recursos naturais do que a Amazônia. O potencial de existência de grandes quantidades de minerais raros, gás, petróleo, naquela região, é imenso. Nesse contexto, os grandes capitais internacionais estão fomentando, na imprensa, e em outros espaços, a aceitação da ideia de que a Amazônia deva ter uma administração internacional. Inclusive alguns setores de esquerda vêm defendendo essa maluquice. É claro que esse debate está sendo estimulado por grandes capitais internacionais, que querem simplesmente roubar os recursos da Região. Tais ambições são disfarçadas por objetivos nobres, como a proteção das populações indígenas, preservação do meio ambiente, e outros. Jornalistas da mídia comercial, aqui e ali, vêm defendendo isso em nome da “racionalidade” e da “civilidade”.

Uma das teses difundidas é a de que o Estado brasileiro é incompetente para administrar a Amazônia. Nessa sórdida campanha, usam como pretexto a verdadeira desgraça que é o governo Bolsonaro, que já pode ser considerado um dos piores da história. Este é um governo incompetente em qualquer área, especialmente no tema ambiental, que é complexo e exige um mínimo de capacidade de planejamento e gestão. A campanha defende que a Amazônia deveria ser gerida por um conjunto de países, inclusive de fora da Região. Claro, estão se referindo aos países ricos, que, nessa versão dos fatos, seriam mais “organizados” e “civilizados”, e, portanto, mais preparados para administrar a Amazônia.

Esse tipo de abordagem esconde que a Alemanha está destruindo uma floresta de 12 mil anos e vilarejos para extração de carvão marrom, ou lignite, um dos combustíveis fósseis mais poluentes que existe no Planeta. Empresas e o governo estão utilizando a guerra na Ucrânia para continuar a minerar o produto, além de outras medidas tomadas, como a reativação de usinas de energia nuclear, que estavam com seus dias contados. O debate sobre gestão internacional da Amazônia não é banal. Está se falando em entregar para administração internacional 59% do território brasileiro, compreendido pela Amazônia Legal, que é distribuído por 775 municípios. A Amazônia compreende nada menos que 67% das florestas tropicais do mundo. Se fosse um país, como querem alguns, a Amazônia Legal seria o 6º maior do mundo em extensão territorial.

O governo de Bolsonaro está destruindo as ferramentas de execução de política econômica, o conjunto de medidas encaminhadas ou anunciadas pelo governo tendem a debilitar ainda mais a economia brasileira. Venda de estatais estratégicas sem política de valorização dos ativos; entrega do pré-sal e de outros recursos naturais; achatamento do mercado consumidor interno via arrocho salarial; regressão em décadas na regulamentação do trabalho; esvaziamento do BRICS, fragilização do Mercosul, tudo isso enfraquece ou dificulta muito a possibilidade de retomada do crescimento do País.

A destruição da indústria, e a transformação do Brasil num fornecedor de commodities baratas para os países centrais, não são efeitos colaterais, ou “erros”, da política econômica desenvolvida desde Michel Temer, é parte constitutiva de um projeto de recolonização do Brasil. Paulo Guedes e Bolsonaro apenas deram continuidade à política entreguista que vem sendo implementada desde o golpe. Por exemplo, as reservas internacionais do Brasil, que foram fundamentais até agora para o País não quebrar financeiramente, se encontram no patamar mais baixo em mais de 11 anos, segundo dados do Banco Central (BC)., US$ 326 bilhões, o mesmo registrado em abril de 2011.

Temos que considerar que, mesmo sendo um país subdesenvolvido, com milhares de problemas, o Brasil é o único país na América que pode rivalizar com os EUA, enquanto potência. Por exemplo, a classe trabalhadora brasileira, de quase 108 milhões de pessoas, é superior à população total de praticamente todos os países da América, com exceção do próprio Brasil, EUA e México.

O governo ilegítimo de Bolsonaro sustenta um patriotismo de fachada, com ações de aparência e atos comemorativos destituídos de conteúdo nacional autêntico. Enquanto faz demagogia barata com os símbolos nacionais, desenvolve uma política econômica que massacra a população e compromete o futuro do País. O caráter antinacional do governo Bolsonaro se revela não por atos vazios, mas por ações muito concretas. Por exemplo, há poucos meses entregou a Eletrobrás, maior empresa de geração de energia da América Latina, a preço de banana, um grave crime de lesa-pátria. Está desmontando a Petrobrás, e é responsável pela maior distribuição de dividendos do mundo, entre as petroleiras, para deleite dos especuladores estrangeiros.

Agora, aproveitando que a opinião pública está voltada para as eleições, colocou à venda 8 mil km de fibra óptica da Petrobrás, que é uma rede estratégica, distribuída por todo o País, acompanhando gasodutos e oleodutos em todo o território. A intenção de Bolsonaro é a de que grupos estrangeiros controlem toda a rede de comunicações da empresa. É simplesmente uma política de torra-torra do patrimônio da companhia. Já vendeu parte das refinarias, obrigando o País a importar derivados do petróleo e, agora, está levando o capital internacional a controlar também as linhas de comunicação da empresa

Em função de tudo que acontece no mundo e no Brasil nessas eleições, a questão nacional está no centro do debate. A extrema-direita, que sequestrou os símbolos nacionais, é patrioteira de fachada, do tipo que bate continência para a bandeira dos EUA. Enquanto Bolsonaro distrai a opinião pública com bobagens diárias, as ações essenciais do seu governo são movimentos de entrega das riquezas do País e de subserviência aos interesses estrangeiros, especialmente dos EUA.

O golpe, desde Temer, manteve dois eixos principais: 1. Destruição de direitos, 2. Entrega da soberania e das riquezas. E Bolsonaro leva a execução desses eixos às últimas consequências.

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