Cheiro de golpe no ar

Tenta-se, criminosamente, atribuir a decisão do ministro Cardozo a uma tentativa do governo de abafar a Operação Lava-Jato, impedindo o prosseguimento das investigações

É surpreendente a capacidade de distorção dos fatos, pela grande mídia, para tentar desqualificar as ações do governo. A ordem do ministro da Justiça para investigar os delegados da Operação Lava-Jato não teve como causa a crítica que eles fizeram à presidenta Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula ou à sua preferência pela candidatura de Aécio Neves, mas a suspeita de que foram eles os responsáveis pelo vazamento seletivo dos depoimentos sigilosos da delação premiada, com o objetivo de beneficiar o seu candidato à Presidência da República. Como servidores públicos, eles não podiam usar informações privilegiadas para atender suas preferências político-partidárias.

Tenta-se agora, criminosamente, atribuir a decisão do ministro a uma tentativa do governo de abafar a Operação Lava-Jato, impedindo o prosseguimento das investigações sobre as denúncias de propinas na Petrobrás. E muita gente nas redes sociais, por falta do uso do cérebro, acreditou nessa versão. Ora, basta um mínimo de raciocínio para saber que a Policia Federal é um órgão do governo, subordinado ao Ministério da Justiça, e, portanto, só está realizando seu trabalho sem qualquer restrição porque o governo lhe deu autonomia e quer tudo apurado para punir os responsáveis. Se o governo pretendesse impedir as investigações já o teria feito no início do inquérito, a exemplo do ex-presidente Fernando Henrique, que nunca deixou que as denúncias de corrupção no seu governo fossem investigadas.

O candidato derrotado à Presidência, Aécio Neves, no entanto, na mesma linha da mídia, divulgou nota no sábado, na qualidade de presidente do PSDB, reiterando "a posição de defesa intransigente da rigorosa apuração do maior escândalo de corrupção da história do país, através da Operação Lava-Jato". Confirmando a sua esperteza, ele tenta convencer os desavisados de que é o seu partido que quer a apuração dos fatos. Ora, todo mundo sabe que todo o povo brasileiro – e não apenas os tucanos – quer que as denúncias sejam apuradas e os responsáveis punidos. E o governo federal também. A presidenta Dilma Rousseff declarou de Brisbane, na Austrália, onde foi participar da reunião do G-20, que "não ficará pedra sobre pedra" nessas investigações. E lembrou: "É o primeiro escândalo de nossa história que é investigado".

O esperto Aécio continuou em sua nota, com seus conhecidos sofismas, dizendo que "o PSDB lamenta que neste momento o Governo Federal, através de suas autoridades, insista em tentar dar um tratamento político a um caso que é, eminentemente, de polícia". É muita desfaçatez. Foi justamente ele que desde o início politizou as investigações, com a decisiva ajuda da mídia, usando os vazamentos seletivos como arma eleitoral para tentar mudar o voto dos eleitores. E agora tenta usar as mesmas investigações como justificativa para um impeachment da Presidenta, ao afirmar que "tão importante quanto responsabilizar os diretores da Petrobrás (...) é identificar e punir os agentes públicos que permitiram o irresponsável aparelhamento da companhia e criaram as condições necessárias para a expropriação de recursos públicos, para dele se beneficiarem direta ou indiretamente".

Depois do editorial de domingo do jornal "O Estado de São Paulo", sob o título de "Crime de responsabilidade", na mesma linha de argumentação usada pelo senador tucano, ninguém mais tem dúvidas de que o golpe está em andamento, numa ação articulada que envolve figuras de vários setores. Após afirmar que Lula sabia e que Dilma participou dos fatos sob investigação, o "Estadão" propõe que "devem todos os envolvidos no escândalo pagar pelo que fizeram – ou não fizeram". É preciso ser mais claro? O poeta Ferreira Gullar também embarcou nessa, por ingenuidade ou senilidade, igualmente propondo o impeachment de Dilma ao dizer que "não se trata de buscar soluções antidemocráticas mas, sim, mudar para preservar a democracia". Será que existe alguém tão imbecil – ou ingênuo – para acreditar que derrubando um governo legítimo, sem nenhum respaldo constitucional, estará exercitando a democracia?

O fato é que já se percebe claramente um clima de golpe no país, com a orquestração de manifestações de rua, declarações de políticos e editoriais da imprensa comprometida sinalizando o próximo passo para tentar arrancar Dilma do Palácio do Planalto. Cinicamente invoca-se a democracia para afrontar a vontade dos 54 milhões de brasileiros que a reelegeram. E a Presidenta, talvez sem atentar ainda para a dimensão perigosa da conspiração, disse da Austrália que "o Brasil tem uma situação democrática consolidada e, por isso, faz parte da nossa história tolerar as manifestações, mesmo as mais extremas". Ela está subestimando o poder da extrema direita, que tem hoje como principal expoente no Brasil o candidato derrotado Aécio Neves. E se não mobilizar urgentemente as suas forças, botando o povo nas ruas para defender o seu mandato, vai correr o sério risco de não emplacar o segundo governo.

Aécio Neves não se conforma com o resultado das eleições e sonha conquistar o poder, de qualquer maneira, para leiloar o resto do Brasil, tarefa iniciada por FHC durante o seu governo. A privatização da Petrobrás, que o ex-presidente tucano não conseguiu porque estava em final de mandato, é a principal meta a ser alcançada. Não foi por acaso que ele quebrou o monopólio do petróleo e dividiu a Petrobrás em subsidiárias. E não é por acaso que se procura hoje desvalorizar a maior empresa estatal brasileira, usando-se as denúncias de corrupção como pretexto para justificar a sua desestatização. Vale a pena lembrar o que disse o jornalista Mauro Santayana no livro "O Príncipe da Privataria", do jornalista Palmério Dória: "O que temos de ficar atentos é que FHC não é só FHC. Ele é todo um grupo, um conjunto de interesses contra a nação brasileira". Não é por acaso, portanto, que Aécio o tirou do sarcófago para transformá-lo em seu guru.

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