Cida Pedrosa, poeta em construção

É claro, todos estamos em construção. Se não nascemos feitos, se apenas somos um projeto de humanização, pois crescemos com o mundo e com as relações que travamos com pessoas e acontecimentos, no mundo somos agentes e pacientes da nossa construção

É claro, todos estamos em construção. Se não nascemos feitos, se apenas somos um projeto de humanização, pois crescemos com o mundo e com as relações que travamos com pessoas e acontecimentos, no mundo somos agentes e pacientes da nossa construção. Mas o título acima, no que se refere à poesia de Cida Pedrosa, vem do que eu conhecia dela e do que agora percebo em seu mais recente livro “Solo para vialejo”. Para me expressar bonito, ou metido a bonito, eu diria que há unidade e diversidade do que ela escreveu desde antes até aqui. Bonito, hem? Pois sim. Melhor me expressar de modo mais coerente com o que penso. 

Isso significa: a leitura até então dos poemas de Cida Pedrosa vinham em formas que eram fôrmas, em que não percebíamos a planta a crescer nos seus versos. E essa falta de percepção não era “culpa” da poeta e poetisa. Não, vinha de preconceitos, como todo preconceito, estúpidos. Isto é: de uma militante comunista, todos esperávamos de Cida a poesia “social”, de protesto político, panfletária. E aqui bem caberia a ressalva de que toda grande obra literária é panfletária, que nos perdoem os mais puros estetas. Mas este não é ainda o momento de mostrar o panfletário em Graciliano Ramos, Castro Alves, e até mesmo em Machado de Assis, pasmem. Quero dizer; tínhamos que ressaltar, ampliar a revolta legítima de uma mulher nordestina frente à opressão histórica. E com isso íamos até mais longe: os seus poemas haviam de ser lineares (existe também uma poesia de construção linear, quadrada, de muro vertical, que não admite as curvas de Niemeyer). Ou seja, os seus poemas deviam guardar uma lógica de exposição evidente, serem didáticos a nível de cartilha. Ora, a poesia não é assim. 

Em outra leitura preconceituosa, jamais poderíamos admitir que uma poeta nascida em Bodocó, sertão pernambucano, recebesse influências de outros tempos e sociedades que não fossem de sol, vaqueiro e baião. Não minto. Era isso mesmo. E notem que não falo do lugar de nascimento apenas. Eu me refiro à formação primeira, primária, da família e dos amigos de infância e juventude. Numa entrevista há mais de 7 anos, Cida Pedrosa me disse:

“Em Bodocó, a gente só tinha uma salvação pra poder viajar: era ler. Então eu fui leitora muito assídua de gibi, de livro policial de bolso, e daqueles romances safados de bolso, com aquelas coisas que a gente lê no interior quando é pequena. Daí pra literatura foi um passo, comecei a ler literatura sem dor nenhuma. Porque, quando você é viciado em ler, é normal passar de uma leitura para outra. E o meu colégio municipal tinha uma biblioteca enorme, maravilhosa. Aí li os clássicos lá.A gente tinha um sítio, meu pai criava gado e plantava. Os meus primeiros irmãos todos trabalharam na roça, pra gente conseguir comprar um pouco mais de terra. Quando meu pai casou com a minha mãe não tinha terra alguma, trabalhava de alugado. Depois foi que teve a primeira terra, e com os filhos mais velhos trabalhando pôde comprar um pedaço de chão. Os meus primeiros quatro irmãos não foram à escola. Uma até foi, depois de adulta. E esses irmãos ajudaram à gente e ajudaram papai, pra gente poder vir estudar no Recife. Vim morar na casa do meu irmão Absolon Pedrosa, porque ele fez um acordo com o meu pai, que se ele viesse estudar, ele se daria bem, e traria todos os outros. E ele fez assim, cumpriu.Não foi um professor que me influenciou não, de verdade. Foi meu pai e seu Zé Pedro, porque eles eram dois grandes contadores de história. A minha leitura começou antes de eu ir pra escola. A leitura do mundo começou de eu ouvir história de trancoso, da boca do meu pai, e da boca do seu Zé Pedro. Então aprendi a gostar de literatura não foi nem com professor nem com livro. Foi com as contações de história do terreiro na minha casa. Meu pai comprava cordel também, trazia da feira e lia os cordéis, pra gente, de noite”.

Então veem que não é só lugar de origem, é de formação. Ou seja, Cida Pedrosa estaria destinada, predestinada a fazer poesia de referências sertanejas de Pernambuco. Somente. Notem que o preconceito sobrevive até à experiência viva. Quero dizer, quem assim esperava nem via o grande exemplo do gênio musical de Moacir Santos. Negro, de talento precoce, ele nasceu em Serra Talhada, terra natal do cangaceiro Lampião. Nasceu e até os 14 anos viveu ali, para depois partir e se tornar o maestro de música para o cinema em Hollywood e vanguarda musical em todo o mundo culto. E Cida Pedrosa, à sua maneira, fez também o seu salto musical. O título do seu livro “Solo para vialejo” (gaita de boca, realejo) não é gratuito. Há poemas nele que de tão música até parecem uma citação de melodia:  

“faz dim dim neném neném faz dim dim 

faz zum zum abelhinha 

abelhinha faz zum zum

dim dim dim zum zum zum 

dum  dum  dum”

O que é isso? Seria Moraes Moreira em “Acabou Chorare” nestas linhas?

“Faz zunzum pra eu verFaz zunzum pra mimAbelho, abelhinho escondido faz bonitoFaz zunzum e melFaz zum zum e melFaz zum zum e mel” 

Ou é só a poeta que se transforma com novos recursos, que tudo mistura e se torna música em versos? E nesses recursos que vêm como um voo contra a gravidade do solo rachado, ela cita letras de canções fora do cânone do que seria bom gosto citar. Mas para o poeta o que é o bom gosto? Puxar uma tartaruga por uma cordinha pelas ruas de Paris? Amar a negra Doroteia, aspirar a sua cabeleira crespa cujo perfume de óleo de coco levava Baudelaire a viagens sonhadas? Sim. O bom gosto é aquilo que o poeta mudar no corpo do seu poema. 

E agora chego ao específico, digamos. Onde Cida Pedrosa é grande e rara é nos poemas em que ela vê a mulher. Para os homens, até mesmo para os criadores e artista, a mulher é individualizada como pessoa que se ama, em um amor desejado ou em um amor pleno carnal e de espírito. A personagem absoluta. Mas a particularidade de Cida Pedrosa é outra. Não é nem que ela fale da mulher para a mulher. Não. Ela fala da dor silenciosa da mulher para todo o mundo. É certo que Cida Pedrosa sempre teve os olhos sensíveis à dor de todos os homens, e de um modo mais particular para a dor  feminina. 

Mas em “Solo para vialejo,” a sua particularidade para a dor da mulher atinge versos que ferem toda a gente. Eu não tenho nem pejo de copiar, porque a revelação tem que ser pública:

“princesas de outras terras imponentes

impermeáveis pobres padeciam sob  o calor

de agosto e sob o ferro de engomar cheio de 

brasas moravam na casa de taipa com alpendre

para o nascer do sol e porta lateral para o pé

de umbuzeiro varriam o terreiro com esmero e

plantavam açucenas faziam sequilho adoçado 

com rapadura temperado com erva-doce cravo 

e canela receita exclusiva de uma terra que 

nunca vi guardavam na alma a vontade de ver na 

porteira o príncipe perdido na tribo longínqua 

permaneceram solteiras e virgens suavemente 

como o sopro do silêncio .... 

geralda e lourdes santas negreiras do araripe

e é assim que se criam segredos 

e é assim que busco a ti

segredos 

sagrados

segregados”.     

Lindas, adoráveis e machucadas negras da nossa infância. Lindas. E mais não falo para não me pôr a falar besteira sobre a memória oculta no sentimento. 

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