Ciro Gomes: de furação antipetista a doce menino tucano

Aos conciliadores, que pregam um cessa fogo entre Ciro e o PT, convém lembrar que não há como acabar com o fogo, quando um dos protagonistas do incêndio insiste em jogar mais fogo sobre a coivara. Vimos um Ciro explosivo, emocionalmente caótico, se converter, diante de FHC e Globo, na imagem de um doce menino encantado com uma promessa de presente de aniversário

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As intrigas entre Ciro Gomes e o PT já não são meros bate-bocas entre ambos, mas uma real motivação para os debates entre nichos políticos digitais. É provável que logo mais surja uma caricatura própria para denominar esse novo cabo de guerra, puxado por ciristas e petistas, que já figura como forte candidato a ocupar a lacuna deixada pela “saudosa” rixa entre “coxinhas” e “mortadelas”. 

Essa disputa de redes sociais, quando extraída a nocividade dos debates neuróticos e extremistas, é um componente saudável para a nutrição da democracia. Contudo, eu comparo essa querela, entre Ciro e o PT, ao relacionamento de um famoso casal da Mitologia Grega: Zeus e Hera que, apesar de gozarem de uma lua-de-mel de trezentos anos, tiveram uma relação sempre marcada por uma louca disputa de poder.

A mitologia conta que Zeus, um senhor de barbas longas, chefe do Olimpo, casou-se com Hera, uma deusa explosiva e ciumenta, que não suportava a infidelidade de Zeus. Diante da traição do marido, Hera, por vezes, reagia com vingança ou viajava para bem longe, em caminhadas que alcançavam os limites da terra e do mar.

A descrição do casal de deuses gregos ilustra perfeitamente a confusão entre Ciro Gomes e o PT, cuja palavra-chave usada para justificar a separação é traição. Depois de mandar o PT “a puta que pariu”, ontem, nas entrelinhas, Gomes aponta para Lula ao usar o termo “traidor”. Mas Lula já havia se manifestado: “se Ciro fosse humilde e não fosse para a França, o PT poderia ser o primeiro em 2018”. 

Nas redes, o mote dos apoiadores de Ciro diz que ele seria o único capaz de vencer Bolsonaro em 2018, mas o PT, dizem eles, foi arrogante em não apoiá-lo. Já os petistas acusam Ciro de ser vingativo e prepotente; que igualmente à deusa grega, fugiu para “além dos mares” (Paris) em pleno Segundo Turno. 

Diante dessa briga brasileira, a La Mitologia Grega, duas considerações são necessárias: a primeira é que há um esforço de conciliadores, nos partidos e nas redes, que tratam esse fato como uma espécie de fogo amigo entre Ciro e petistas; que acreditam serem essas divergências uma munição para o inimigo neofascista.

Porém, ao ver ontem Ciro em um banquete dominical com Mirian Leitão, Marina e FHC, rasgando elogios e babando para um suposto sucesso do governo tucano, concluo que essa atitude foi um verdadeiro balde de água fria nessa empolgação conciliatória. Ciro, valendo-se da sua capacidade de se metamorfosear politicamente, lança palavras de ordem contra o fascismo, o mesmo (fascismo) que ele, Marina e FHC, por omissão, ajudaram a semear em 2018. Agora, acusa o PT de traidor, mas este PT, agora acusado por Ciro de omissão contra o fascismo, esteve batendo de frente com Bolsonaro nas eleições passadas, enquanto ele tomava banho nos mares do Velho Mundo. A domingueira de ontem  foi para zerar qualquer fagulha da paciência que Lula disse já ter se esgotado. 

Aos conciliadores, que pregam um cessa fogo entre Ciro e o PT, convém lembrar que não há como acabar com o fogo, quando um dos protagonistas do incêndio insiste em jogar mais fogo sobre a coivara. Portanto, essa guerra estridente que sobrecarrega mentes democráticas, preocupadas com o avanço de populismos autoritários, parece que seguirá. Ontem, vimos a imagem de um Ciro explosivo, emocionalmente caótico, se converter, diante de FHC e Globo, na imagem de um doce menino encantado com uma promessa de presente de aniversário. 

Entretanto, os atores digitais dessa série maluca certamente ganharam mais combustíveis para continuar brincando de mitologia grega nas redes sociais.

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