Clã Bolsonaro tem um projeto: semear o terror para colher um Estado de Exceção

O clã Bolsonaro está colocando em marcha um projeto para semear terror no país; são duas operações em andamento: a criação do fantasma do "inimigo externo", o "terrorismo do Islã"; e a criação do espantalho do "inimigo interno", as "forças ocultas" que pretenderiam assassinar Bolsonaro; o plano é criar uma brutal sensação de insegurança e pânico para obter, de uma sociedade em pânico, das instituições em frangalhos e das mídias embasbacadas, aprovação para um estado de exceção; leia o artigo de Mauro Lopes 

Clã Bolsonaro tem um projeto: semear o terror para colher um Estado de Exceção
Clã Bolsonaro tem um projeto: semear o terror para colher um Estado de Exceção

O clã Bolsonaro está colocando em marcha seu projeto, à luz do dia, aos olhos do país. Eles, Jair, o chefe do clã, secundado por Eduardo, Flávio e Carlos têm um plano. Eles querem encerrar a experiência democrática no país e instalar um regime de acordo com sua maneira de ser e pensar as relações e o mundo -o fascismo. A simplicidade é espantosa e, ao mesmo tempo, um trunfo. Com a cumplicidade e complacência das elites, suas mídias, seus think tanks e a participação ativa do Judiciário e de expressivos segmentos do Legislativo, o plano está em marcha. Trata-se de semear o terror para obter, de uma sociedade em pânico, das instituições em frangalhos e das mídias embasbacadas, aprovação para um estado de exceção. 

Como isso será feito? Há duas operações em curso no momento.

1. A primeira é a transferência da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém ou de um escritório de negócios oficial brasileiro na cidade. É uma decisão gravíssima. Desde 1947 a ONU determinou que Jerusalém fosse uma cidade com regime internacional, sem controle exclusivo de judeus, árabes ou cristãos. Jerusalém é de todos e não é de ninguém. A Cidade Sagrada do judaísmo, do cristianismo e do islamismo deveria ser um símbolo da convivência e da paz no mundo. Quase 3,5 bilhões de indivíduos, mais de metade da população global, seguem uma religião que tem locais sagrados nesta cidade. 

Em 1980, o governo de Israel investiu contra este projeto de paz e o Knesset (parlamento) aprovou uma lei declarando que uma "Jerusalém unificada e indivisível" seria a capital de Israel, sede do Knesset e onde outros países estabeleceriam suas embaixadas. No próprio ano de 1980, uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, aprovada com catorze votos e abstenção dos EUA, declarou que a Lei de Jerusalém era nula e não deveria ser reconhecida. De fato, assim o foi. Nenhum país instalou sua embaixada na cidade.

O lobby judaico obteve do Congresso dos EUA uma decisão favorável à mudança da embaixada em 1995, mas a lei virou letra morta, pois os presidentes americanos postegaram a implementação da decisão. Donald Trump rompeu com o consenso e decidiu instalar a embaixada dos EUA na cidade, numa afronta ao Direito Internacional, aos muçulmanos e cristãos, numa atitude de provocação ao mundo árabe. Isolado, o presidente americano conseguiu que apenas Guatemala e Paraguai acompanhassem a decisão.

Desde a campanha o clã Bolsonaro vem anunciando que iria romper com a histórica posição do Brasil no Oriente Médio como um protagonista que sempre buscou soluções de paz e iria seguir a decisão de Trump, se vencesse as eleições. Uma vez vitoriosos os bolsonaros. houve quem imaginasse que a retórica eleitoral seria arquivada e o bom senso prevaleceria. Qual nada. Jair Bolsonaro avisou: o projeto segue em frente. Nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro confirmou a decisão na terça-feira (27), depois de um encontro com Jared Kushner, genro e conselheiro de Trump. Nesta quarta (28), foi a vez de Fávio Bolsonaro, eleito para o Senado pelo Rio de Janeiro. "É uma questão que está decidida", afirmou ele a jornalistas. Finalmente, nesta quinta (29) Bolsonaro pai afirmou que o  tema esteve na agenda de seu encontro com o conselheiro de Segurança Nacional, John "senhor da guerra" Bolton.

A mudança da embaixada para Jerusalém está sendo vendida pelo clã Bolsonaro à opinião pública como uma questão ideológica, o que é uma estultície, porque não há um tema vinculado a visões ou concepções de mundo na questão; o Itamaraty manteve uma posição consistente em relação a Israel e à Palestina desde a década de 1940, tanto em governos conservadores como liberais ou de esquerda e assim foi até na ditadura militar. Além disso, o confronto aberto com os povos e países árabes em decorrência de uma eventual mudança compromete a economia brasileira. Os países árabes são grandes compradores de frango e carne bovina do Brasil. Em 2017, o superávit da na relação comercial com o mundo árabe foi de US$ 7,1 bilhões, mais de 10% do superávit total do Brasil (US$ 67 bilhões); enquanto isso, na relação com Israel o Brasil teve déficit de US$ 419 milhões. Ou seja, não há qualquer vantagem para a economia brasileira na inversão das relações do país no Oriente Médio. 

Então, qual a razão da insistência dos Bolsonaro, para além do alinhamento automático com Trump? Há uma lógica calculada e calculista: a mudança de posição do Brasil, se concretizada a transferência da embaixada, irá removê-lo da condição de pacificador e interlocutor privilegiado em toda a região, com árabes e israelenses, e lançará o país no centro do conflito, tornando-o um agente do odiado imperialismo norte-americano no mundo árabe. De promotor da paz a patrocinador do conflito. Este é o desejo dos Bolsonaro, este é o lugar onde querem que o Brasil esteja. Por um motivo simples: com o reposicionamento do país estará aberta a estrada para o discurso do "Brasil alvo do terrorismo". Os muçulmanos, que já são hostilizados pela extrema-direita brasileira, mas não são o principal alvo de seu ódio, serão elevados à condição de "inimigos da pátria".

O novo governo começará a caçar "terroristas" por todo o canto, com uma formidável caixa de repercussão: as empresas jornalísticas conservadoras, de direita e extrema direita, e a constelação de polos irradiadores de ódio nas redes sociais. Rapidamente, a sensação de insegurança irá se espalhar. O que faltará para o clamor por um Estado de Exceção? Um atentado. Mas isto é algo que, como demonstra a história brasileira, a direita pode conseguir com um estalar de dedos. Uma bomba em São Paulo ou no Rio será suficiente. Nem será preciso matar ou ferir alguém. Bastará a explosão. Há precedente. Em 1981, dois militares ligados aos porões da ditadura foram os protagonistas desastrados do frustrado ataque a bomba no Rio Centro, onde milhares de jovens reuniam-se num show, em 30 de abril, comemorativo do Dia do Trabalhador. O sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo capitão Wilson Dias Machado só não plantaram a bomba no local do espetáculo porque ela explodiu no colo do sargento, matando-o, e ferindo gravemente o capitão. O plano era executar o atentado e culpar a esquerda. Mesmo diante do fiasco, o Exército criou a farsa de um inquérito que foi arquivado e o caso só foi reaberto 18 anos depois. Apenas em 2012 vieram à luz documentos comprovando toda a trama dos serviços de informação do regime militar. Um dos autores do atentado, o capitão Wilson Machado, continuou sua carreira militar sem qualquer percalço, até ser reformado como coronel. Tanto ele como o sargento morto pertenciam ao  DOI do I Exército, da máquina de repressão, tortura e morte da ditadura. É com esses segmentos militares que Bolsonaro guarda históricas ligações. Seu herói, Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores da história brasileira, pertencia ao DOI-CODI. O roteiro, portanto, não é difícil de ser entendido. 

Há um caminho para a disseminação do terror rascunhado a partir da mudança da embaixada para Jerusalém. O recuo para a mudança em etapas, com a abertura de um escritório de negócios do Brasil na Cidade Sagrada não muda o essencial do roteiro.

2. De maneira simultânea à ofensiva dos últimos dias para garantir a mudança da embaixada, o terceiro filho de Bolsonaro, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, o grande líder da ação do clã nas redes sociais, soltou na noite de quarta  (28) uma bomba em forma de twitter, afirmando que seu pai pode ser morto por quem está "muito perto" (leia aqui). A notícia de que o filho de um filho do presidente eleito e integrante de seu núcleo duro denunciou uma conspiração para matar o pai no interior de seu agrupamento de poder seria manchete de enorme repercussão em qualquer país do mundo. Mas a mídia conservadora olhou para o outro lado, fingiu não ter visto e apenas o 247, secundado pela mídia progressista, deu a merecida repercussão ao caso. No meio do dia, Bolsonaro falou sobre o caso. Poderia ficado quieto, poderia ter apaziguado, poderia ter dito que o filho se precipitara -poderia ter adotado diferentes posturas para esvaziar o assunto. O que fez Bolsonaro? Jogou ainda mais gasolina no fogo. "Minha morte interessa a muita gente" declarou o presidente eleito (aqui).

A versão de um "cerco" e de "ameaças à vida" de Bolsonaro está crescendo. Em 1 de novembro, o general Augusto Heleno, futuro chefe do Gabinete de Segurança Institucional, anunciou que "a inteligência" teria descoberto planos para um suposto atentado "terrorista" (palavra usada por Heleno, leia aqui). No mundo político a história foi recebida com desdém e sorrisos de ironia, mas agora sabe-se que ela era parte de uma narrativa que está sendo construída e que caberá como uma luva na justificação para o o endurecimento do novo regime.

A história está sendo montada e ganhou novo impulso com o twitter de Carlos Bolsonaro.

"Inimigos externos", os "terroristas do Islã" e "inimigos internos", as "forças ocultas que desejam ver Bolsonaro morto" são as sementes do clima de terror que estão sendo lançadas à terra. A colheita pretendida é óbvia: o Estado de Exceção. É bom ficar de olhos e ouvidos abertos.

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