Cômico se não fosse trágico!

A falácia antiaristotélica continua: "O resto dos modinhas votaram nele porque o queriam no poder". Outro equívoco! Quem votou na Dilma para Presidente votou na Dilma para Presidente porque Dilma é diferente de Temer que é igual a Aécio e demais golpistas, como se viu e se vê posteriormente

temer
temer (Foto: Cássio Vilela Prado)

É impossível não notar e não deter o olhar e a reflexão em certas manifestações públicas nas redes sociais, verdadeiras preciosidades que explicam o motivo pelo qual a maioria da população brasileira está inerte em face do pós-golpe de 16.

Das inúmeras e infindáveis autoproclamações bizarras e indecorosas (no sentido sentido moral kantiano), destaca-se um pequeno texto publicado no Facebook, lamentavelmente, um verdadeiro diamante para entender um pouco daquilo que se passa na cabeça e no coração político de muitos (as) brasileiros (as).

Eis o pequeno texto:

“Se sentindo de alma lavada”

“Agora continua o vice ELEITO PELO POVO!

Como EU não o elegi Eu posso exigir fora Temer! O resto dos modinhas votaram nele porque o queriam no poder, agora não adianta chorar, gritar, espernear porque foram VOCÊS que quiseram assim!

Golpe??? Golpe foi o que VOCÊS fizeram em 2014 elegendo esse bando de ladrões!

Carreguem com vocês a culpa do Brasil está nessa merda! Eu durmo tranquila toda noite!

Que comecem o “mimimi”!

Aceita que dói menos! (...) Vai comungar a mandioca bem longe daqui!”.

Sensacional, espetacular o nível de entendimento político; o ódio, o ressentimento e uma profunda deformação da realidade.

O “sentindo de alma lavada” denuncia a patologia da vingança, da forra. Essa triste manifestação facebookiana aponta para um verdadeiro caos mental em que se chegou a nação tupiniquim.

Não obstante, há sinal de uma pequena iluminação, embora dúbia e dissociada na frase seguinte: “Agora continua o vice ELEITO PELO POVO”. A pequena iluminação se refere ao reconhecimento de que Temer foi eleito vice-presidente (*IMPORTANTE: vice, mas não presidente) pela vontade popular, inerente aos Estados Democráticos de Direito, através do voto cidadão, porém obrigatório.

Dissociada porque o vice Temer não continua vice-presidente, cargo para o qual foi eleito na chapa encabeçada pela Presidenta Dilma com o programa de governo social-democrata do PT (Partido dos Trabalhadores) aprovado pela maioria dos (as) brasileiros (as), anos-luz distante do programa mutilador da nação erigido pelo golpe de 16. Pode-se, inclusive, pensar que se trata de uma dissociação menos débil que perversa, pois reconhece e desmente simultaneamente a própria realidade alegada: “vice ELEITO PELO POVO”. Aliás, foi esse mecanismo psíquico utilizado na arquitetura e na excecução do Golpe de 16: Reconhecimento e negação simultânea da realidade na qual a Presidente Dilma foi vitoriosa nas eleições de 2014, contudo, impetrando-se um escancarado atentado parlamentar-jurídico-midiático na Democracia Brasileira.

Na sequência da sábia publicação: “Como EU não o elegi Eu posso exigir fora Temer! O resto dos modinhas votaram nele porque o queriam no poder, agora não adianta chorar, gritar, espernear porque foram VOCÊS que quiseram assim!”, percebe-se também a clara dissociação egoica entre “EU não o elegi” e “foram VOCÊS”, denunciando assim a dificuldade explícita do (a) manifestante para conviver com o Outro, com a alteridade, com a perda (nas eleições), elementos éticos essenciais para a convivência democrática desmentidosVerleugnung (desmentido, recusa) – na manifestação virtual em destaque.

E a falácia antiaristotélica continua: “O resto dos modinhas votaram nele porque o queriam no poder”. Outro equívoco! Quem votou na Dilma para Presidente votou na Dilma para Presidente porque Dilma é diferente de Temer que é igual a Aécio e demais golpistas, como se viu e se vê posteriormente.

Aqui vale um exercício de lógica utilizado na metodologia da pesquisa científica:

O programa de governo de A é diferente de B (A# B), sendo A= Dilma (PT) e B= Temer (PMDB).

C = Demais Golpistas (PSDB + DEM + sem partidos + ...), conforme abaixo:

A é diferente de B que é igual a C (A#B e B=C), logo A#C, sendo A= Dilma; B=Temer e C=Demais Golpistas. Portanto A (Dilma) é diferente de B (Temer) que é igual a C (Outros claquistas de B ou contra A).

Assim, o programa de governo de A não tem nada a ver com o programa de governo de exceção de B + C. Tratou-se de uma coligação partidária (comum no Presidencialismo de coalização de todo o mundo, pois é necessário o apoio do Congresso Nacional para governar)) inicialmente firmado no campo político-ético democrático, no qual, a priori, o vice não anunciasse a sua conspiração a posteriori.

Não fica claro, todavia, o que o (a) manifestante quis dizer com “os  modinhas”. O que se tornou uma nova “modinha” foi o golpe dado na Democracia, a ‘nova moda’ (ou modinha) brasileira do Estado de Exceção em vigor. Até 2016, parecia que o Brasil se tornava uma Pátria, paulatinamente, em construção de sua incipiente Democracia. Contudo, por uma dessas manifestações canhestras, compreende-se melhor porque recuamos em nosso projeto de nação desenvolvida e civilizada. Não há uma maioria com maturidade suficiente para conviver com a diferença através do respeito às regras do jogo democrático avesso aos excessos de “EU”. O que se percebe nesses tipos de personas mentais é uma intensa fixação nas suas vivências infantiloides remotas, embora atualizadas no agora com o Outro (Linguagem, Cultura, Sociedade, etc..)

Seguindo, o (a) manifestante infectado (a) dispara: “Golpe??? Golpe foi o que VOCÊS fizeram em 2014 elegendo esse bando de ladrões!”.

Muito bem! As contradições continuam, agora também com prejulgamentos e ilações acusatórias generalizadas (“bando de ladrões”). Sobre isso, caberia perguntar a esse (a) manifestante: E você, votou em quem para presidente em 2014? Mas é totalmente desnecessária a pergunta, pois havia somente uma outra opção que tão bem conhecemos.

O que a Historiografia recente do Brasil registra nesse cenário é que houve uma Eleição Democrática em 2014, totalmente lícita e sem vícios, à qual se refere o (a) manifestante, distorcendo novamente os fatos concretos, tentando transformar o pleito de 2014 em Golpe, incontestavelmente inadimissível, já refutado juridicamente nos Tribunais.

“Carreguem com vocês a culpa do Brasil está nessa merda! Eu durmo tranquila toda noite!”:

“Carreguem com vocês a culpa do Brasil está [deve ser “estar”, digo eu, possivelmente um erro de digitação] nessa merda! Eu durmo tranquila toda noite!”, prossegue o (a) manifestante, de forma projetiva e tentando jogar “culpa” no Outro, em “VOCÊS”. Aqui cabe o trocadinho: o (a) manifestante indica que ele (a) mesmo (a) foi cúmplice do golpe de 16, assassinando a Democracia Brasileira, só que, ao invés de ir ao cinema: “Eu durmo tranquila toda noite”. [tranquila ou tranquilo (?) –  para manter o anonimato, embora o post seja público].

Na verdade, a (o) manifestante despolitizado (a) não se importa com o país, se agora Temer fede ou cheira, tanto faz, “ela dorme tranquila com o seu EU”.

Enfim, para que o leitor não perca mais seu tempo: “Que comecem o “mimimi”! [talvez “comece”] Aceita que dói menos! (...) Vai comungar a mandioca bem longe daqui!”, finaliza a linda e soberba manifestação facebookiana.

Assim caminham os Brasis individuais políticos que compõem o Brasil. Ou ‘BrazEU’?

 

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