Como está a Argentina frente ao abalo sísmico das eleições no Brasil

Os efeitos das eleições presidenciais no Brasil, com a subida de Bolsonaro e da direita no governo, repercutem na Argentina causando emoção, perplexidade no campo popular, preocupação nas lideranças políticas e militância de esquerda, e desconcerto no campo opositor burguês que resiste à avançada do FMI com Macri

Os efeitos das eleições presidenciais no Brasil, com a subida de Bolsonaro e da direita no governo, repercutem na Argentina causando emoção, perplexidade no campo popular, preocupação nas lideranças políticas e militância de esquerda, e desconcerto no campo opositor burguês que resiste à avançada do FMI com Macri; e agora, com Bolsonaro, acende-se o alerta vermelho a uma maior dominação regional (financeira e militar) dos EUA através do Brasil.

O fato é tido como um grande golpe para as esquerdas latino-americanas. É o tema presente em todas as análises de jornalistas e políticos da área progressista, da esquerda argentina, e das pessoas comuns que nas ruas indagam “como é possível que um povo tão alegre como o brasileiro tenha votado um violento?” A liderança política argentina e os movimentos sociais, ao superar o primeiro impacto, reagem com debate e reflexão para responder e evitar que nas próximas eleições presidenciais em novembro de 2019 repita-se o fenômeno Bolsonaro na Argentina.

O “lawfare” venceu o primeiro round no Brasil. Querem repeti-lo na Argentina. Ataque jurídico-midiático prévio às eleições, prisões preventivas, processos arbitrários e sem provas contra Cristina Kirchner e ex-membros dos governos kirchneristas, como no conturbado cenário no Brasil: a “anti-polítíca, o anti-partidismo, e o anti-PTismo” que levaramo o eleitorado ao córrego dos 30% das abstenções, brancos e nulos, desaguando no “bolsão” da direita. O tema agora é como romper o cerco midiático, para convergir as multitudinárias manifestações, na Argentina, rumo à conscientização popular nos bairros, nas escolas e nas bases sindicais; como conduzir a crítica passiva ou histérica rumo a uma politização objetiva. Como trabalhar a unidade das forças progressistas, partidos, movimentos sociais e sindicatos em torno a um projeto econômico-social de recuperação da soberania nacional e dos direitos democráticos?

Tudo isso, não só em função das eleições presidenciais que ocorrerão dentro de um ano (novembro de 2019), mas respondendo ao já e agora. A crise econômico-social acumulada nestes 3 anos de governo Macri (desemprego massivo, inflação anual chegando a 49%, com 80% dos trabalhadores declarando perda de poder aquisitivo) torna-se incontrolável com a aprovação da nova Lei orçamentária de 2019, aprovada no Senado (45 a favor e 24 contra e 1 abstenção), com cortes mortais nos gastos públicos (saúde, educação e obras sociais) sob ordens do FMI com o qual a Argentina já se endividou em cerca de 57 bilhões de dólares (somados aos já quase 140 bilhões de dólares de dívida externa) a serem pagos pelas próximas gerações de filhos e netos. Com tal violência provocada aos direitos humanos básicos, há que torcer para que a preservação da institucionalidade na Argentina chegue até as eleições de 2019.

Macri e Bolsonario

Na Argentina, Macri e “Cambiemos” venceram as eleições com uma campanha baseada em promessas mentirosas, ocultando as intenções entreguistas aos EUA e às finanças internacionais, e conseguiram arrastar boa parte da classe média. Macri, o candidato empresário, disfarçou na campanha: “vamos manter os feitos do governo anterior e melhorar”. Só depois, tirou a máscara. A agressão veio em seguida e a destruição do anterior foi total.  Bolsonaro, baseou-se de cara na mentira, na fraude eleitoral que começou com a prisão inconstitucional de Lula (inocente e seguro vencedor), nas fake-news contra o PT; isso faz da sua vitória um fator político mais preocupante.  Mas, ambos, Macri e Bolsonaro ocultaram na campanha o seu projeto econômico dos arrochos salariais, dos ajustes previdenciários e das desnacionalizações. A bravata ideológica contra Cuba, China e países do Oriente Médio, para brindar parte da sua base eleitoral da direita conservadora, é mostrar músculo des-inflável, pois nem Trump, nem a economia capitalista global conseguem coordenar-se e romper com o referido bloco, num mundo em que se fortalecem o BRICs, o bloco China-Rússia e em que o dólar, sem lastro nenhum, passa a não ser a moeda principal.

A realidade cruel, a dos cortes, já está se dando com a cumplicidade de Temer. A culpa dos males ficará por conta do futuro embaixador na Itália. E a avalancha de Paulo Guedes está por vir com a lei da previdência, privatizações, entrega da Petrobrás, Embraer, dos Bancos estatais, desemprego em massa. Então, sim, ao tocar-se no bolso e no dia a dia da classe média iludida pela campanha “anti-corrupção”, se iniciará, tardiamente, a custas de muita dor, o seu despertar. O Brasil ainda não percebeu que a ida dos gloriosos médicos cubanos, será uma grande perda para a saúde pública brasileira, com mais de 24 milhões de brasileiros desamparados improvisadamente; somente as populações pobres o saberão dizer e desde já, lhes são imensamente gratas.

Mas um Bolsonaro não será aceitável na Argentina, onde a mídia hegemônica não apagará a memória do povo argentino pelos seus 30 mil desaparecidos na ditadura militar. Além de tudo, passados 3 anos de violento ajuste econômico desde 2016, em que o ramerrão das justificativas de que “a culpa foi do governo kirchnerista anterior” já começa a cair no vazio, e as evidências das consequências do projeto neoliberal de Macri já estão no dia a dia atroz do povo argentino.  O rechaço popular à atuação do governo atual chega a 70%, e deverá aumentar com os efeitos que terá a redução do orçamento nacional à metade de 2018 (do qual nem 25% foi utilizado) no decorrer de 2019. Até lá, um ano deste governo atual no Brasil, será suficiente para demonstrar que na Argentina: “Ele não!”.

Onde estão o Judiciário e a justiça?

No Brasil ainda estamos à espera de que a consciência de alguns juízes do STF respeitem a constituição e levem à libertação de Lula. O mundo inteiro está de olho em tamanha aberração e transgressão às leis e aos direitos humanos. Na Argentina, há algo que se move na expectativa de que o “lawfare” não tente reproduzir o mesmo esquema brasileiro, ou seja, prender Cristina Kirchner  ilegalmente para tirá-la da corrida presidencial de 2019. Algo importante que acaba de ocorrer é que “Cambiemos” foi derrotado como maioria no Conselho da Magistratura, onde uma aliança entre o Partido Justicialista (PJ), Partido Renovador (Massa) e o kirchnerismo (FPV e Unidade Cidadã) conseguiram eleger como membros dirigentes, com 131 assinaturas, a deputada Graciela Camaño (Frente Renovadora) e Wado de Pedro (Unidade Cidadã).

Outras movimentações na área judicial têm ocorrido, apesar de Macri ter nomeado para presidente da Corte Suprema de Justiça o juiz Carlos Rosenkrantz, ligado ao grupo Clarín , que foi favorável a aplicar a lei 2x1 a favor de genocidas da ditadura militar. Ricardo Lorenzetti, se retira da presidência da Corte Suprema deixando questionamentos sobre as “prisões preventivas” ilegais.  Outro elemento a considerar é que o juiz federal, Casanello, sentenciou que não há evidências para processar Cristina Kirchner nas acusações associadas a Lázaro Baez de lavagem de dinheiro na gestão de obras públicas. https://www.pagina12.com.ar/154423-sin-pruebas-contra-cfk

Portanto, começam a surgir objeções internas no próprio Judiciário ao comportamento de juízes, como nas causas movidas pelo juiz Bonadio (considerado o Moro argentino) contra empresários e funcionários do ex-governo kirchnerista, baseadas nas tais fotocópias dos “Cadernos”.

A oposição se une e Cristina Kirchner retoma a liderança

Fala-se num grande acordo entre forças progressistas do peronismo, kirchnerismo, massismo, da esquerda e dos sindicatos e dos movimentos sociais para constituir uma força opositora decisiva, sem excluir o papel fundamental de Cristina Kirchner. Inclusive, dois deputados (Beatriz Mirkin e José Alperovich) romperam com o Bloco Justicialista (chamado Argentina Federal de Miguel Pichetto, que tem feito discursos xenófobos e favoráveis ao governo) e não excluem unir-se a Cristina Kirchner. Leia Isso, sem contar que Juan Grabois, (CTEP) seguidor do Papa Francisco e dirigente de movimentos sociais e da economia popular, lança a frente Pátria Grande, apoiando também Cristina.

Veja o contundente discurso de Cristina Kirchner no Senado, à altura da estadista que foi, na madrugada de 15 de novembro durante a votação do Orçamento.   Discurso de Cristina K

Não é casual que, no dia posterior a esse discurso, “Cambiemos” chame o Senado a votar a retirada da imunidade parlamentar de Cristina devido à causa levantada pelo juiz Bonadio contra a mesma, por um suposto encobrimento do atentado à AMIA. Leia Como não é casual que no mesmo dia tenham surgido inúmeras ações de artefatos explosivos na capital, reivindicadas por “anarquistas”. Baseado nisso, a Ministra da Segurança justifica a repressão a um suposto terrorismo islâmico surgido do nada. Tudo seguido de um novo show midiático, mesclado com arbitrariedades para desviar a atenção do povo da aprovação do orçamento bomba 2019 no Senado.

Tudo isso se dá a poucos dias da realização da reunião do G-20 em Buenos Aires em que se prepara um desproporcional arsenal de guerra para blindar a cidade contra possíveis contestações populares.  O governo faz um apelo a que os cidadãos tirem férias (com que dinheiro?) nestes dias e evacuem a capital.

Neste clima e previamente à reunião do G20, se realiza a partir desta 2a. feira, dia 19, o Fórum do Pensamento Crítico organizado pela CLACSO. Este, assume um caráter fundamental nas circunstâncias atuais diante do advento da direita no Brasil. Com a participação de Dilma, Haddad/Manuela e lideranças do PT, acompanhados por representantes do pensamento  progressista e da esquerda latino-americana e mundial, abre-se a oportunidade para uma batalha de ideias e para uma frente-única que freie a avançada do neoliberalismo fascista, nesta fase nefasta do capitalismo mundial decadente, restabelecendo rumos a seguir pela reconquista dos projetos nacionais e populares. Lula Livre já! deve ser uma das tarefas centrais.

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