Como nos olhamos

Como constituímos o olhar sobre nós mesmos?

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Como constituímos o olhar sobre nós mesmos? O olhar sobre nós, aquele que nos distingue, nós o constituímos a partir do Outro, do olhar que o Outro deposita sobre nós. O cristalino do olhar do Outro opera como um espelho, que, primeiramente de uma forma especulativa constitui a imagem do nosso corpo para nós mesmos e forja o Eu e, progressivamente, à medida que nos organizamos subjetivamente, essa relação antes de domínio imaginário (o jogo dos espelhos) toma uma dimensão mais complexa, dialética, simbólica, pois será um dos elementos estruturadores da nossa condição de sujeito do desejo.

A bem da verdade esses processos não são estanques, pois o desenvolvimento do nosso corpo biológico e do nosso corpo psíquico vai se dando simultaneamente, e os processos psíquicos eles ocorrem numa dialética entre os eixos da linguagem que designamos: real, simbólico e imaginário, a saber, quando o Outro nos olha ele nos captura em seu desejo, portanto, seja o processo especulativo (imaginário), seja as transmissões simbólicas (as inscrições dos significantes na mente e no corpo), assim como o objeto real (que nos falta e que para sempre o perdemos) se organizam de modo a constituir um déficit no ser-falante, déficit esse que a fala emerge como um sintoma e o desejo se nos apresenta como uma falta, por isso que o nosso desejo nunca é satisfeito plenamente, e por isso que a nossa vida humana é sempre movimento, busca de algo a mais em razão do algo a menos que se nos falta. Como dizia Jacques Lacan: “falar é faltar”. 

Destarte, quem são esses outros que nos referimos e de quem somos cativos em nossa construção? A nossa família, o par parental, as representações sociais, da cultura e da civilização, e ainda os nossos semelhantes/dessemelhantes, os de nossa espécie falante. A esses constituímos o que designamos por uma dívida simbólica, a saber, uma relação à nossa ancestralidade que deriva da língua aos afetos, da sociabilidade à nossa presença no mundo, da Lei aos valores que cultivamos.

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Não somos sós; não somos uma ilha. Somos uma formação linguageira que envolve e entrelaça o corpo psíquico, somático e social. A nossa vida é irremediavelmente implicada e vinculada ao Outro (agência de linguagem donde nos organizamos como ser-falante) e aos outros (nossos semelhantes).

A nossa relação ao outro, a dimensão da outridade, tem algo de muito peculiar para a nossa espécie humana que é a de que enquanto sujeito somos dividido pelos significantes, quero dizer, pela linguagem. Não é a nossa mente, o nosso corpo e o socius que é dividido em nós (visto numa perspectiva cartesiana), e sim a linguagem em face como ela opera, a sua lógica de funcionamento. Isso posto significa que nós não somos uma simples unidade em nós mesmos, pois há uma outridade em nós mesmos, uma, que ignoramos, que não apreendemos cognitivamente, que é vizinha, íntima e ao mesmo estranha, estrangeira em nós mesmos. Isso é o inconsciente, a que Sigmund Freud designava como um “saber que se sabe sem saber que se sabe”, e que Lacan designou como “estruturado como uma linguagem”, de outro modo, também em uma formulação de Lacan: “o inconsciente é o discurso do Outro”. Portanto, se portamos uma diferença em relação aos semelhantes (espécie), por isso dessemelhantes (sujeito), descobrimos com a psicanálise que sequer somos idênticos a nós mesmos (sujeito dividido pelo efeito da linguagem). Daí a babel de nossas línguas, num exemplo; daí a impossibilidade de sermos uma totalidade, noutro exemplo.

Essa construção subjetiva dos indivíduos também de algum modo se expressa na formação de uma comunidade, sociedade e nação. O nosso mundo vai além de vísceras e órgãos biológicos, o nosso mundo é de palavras e significantes, pois a condição de um falante é a de nomear as coisas: os órgãos do nosso corpo, os aparatos físicos em geral, a matéria e o imaterial (ao menos, neste caso, até onde a palavra alcança). E quando nomeamos as coisas, quando falamos, é porque está contido uma ex-centricidade em relação ao objeto e ao sujeito da fala, quero dizer, eles estão fora do nosso alcance, ou seja, não o apreendemos totalmente. Esse mecanismo se replica quanto ao objeto do desejo. Insisto com Freud e Lacan para quem “o objeto do desejo é o que nos falta”. Portanto, não adianta querer impor uma realidade para o outro a partir de nossa própria realidade, pois nada é mais impróprio ao humano, então a nossa condição é a de eticamente aprendermos a viver com a diferença, e a respeitá-la. Todavia, paradoxalmente, esse é um dos nossos mal-estar.

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As palavras, como observamos, não dizem tudo, há uma sombra nelas e há além do mais o inacessível às palavras, o não-dito. Portanto, o nosso mundo é de ditos e não-ditos, de imagens e sensações táteis, de cogitações cognitivas e racionais como também ao desconhecido e aos invisíveis, e a tudo isso em apelos os mais diversos.

Falamos a partir de um lugar, de um lugar Outro, a saber, do agenciamento da linguagem que toma no istmo de nossas relações sociais um elemento perturbador ao ser-falante que é o sujeito, aqui me refiro ao sujeito do desejo. Contudo, esse istmo da articulação da linguagem em contexto social chamaremos de discurso, e o discurso é o que nos faz laço social. Portanto, se há um sujeito que fala em nós, e se ele perturba, digamos assim, as normalidades e os consensos, podemos dizer que nós ingressamos na vida social e subjetiva de uma forma desajeitada, as vezes em nexos estranhos, desconhecidos, imaginem, até por nós mesmos quando enunciamos as nossas falas, tornando-as públicas. De vero, o nosso mundo humano não é só de luz e claridade, mas de muitas estranhezas e escuridão.

Muitas vezes nos debruçamos com a seguinte questão: como o povo brasileiro se vê? Como ele se vê pelos seus pares nacionais e pelos estrangeiros? Não raro lemos e ouvimos comentários depreciativos sobre a nossa imagem e sobre o modo como funcionamos enquanto sociedade e nação. Coisas do tipo: o Brasil é um país incrível, lindo, maravilhoso, mas o seu povo...

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Não obstante, normatizamos isso seja em discursos um tanto melancólicos ou em discursos chistosos que nos faz rir de nós mesmos. Rimos muito de nós mesmos para atenuar muitas vezes uma vergonha que sentimos de nós mesmos ou a fragilidade de nos reconhecermos como povo e nação, ou ainda, como uma sociedade distópica. Nisso, e também não raro, nos comparamos a outros povos sempre em posição rebaixada ou na melhor das hipóteses – se é possível dizer isso como melhor hipótese – por um ufanismo tolo que tenta se sustentar por um ideal imaginário de um povo forte e feliz, todavia, mal escondendo que antes isso é parte de nossas fragilidades socioculturais e subjetivas do que propriamente uma virtude.

Oscilamos muito de um pólo ao outro, exemplo: em certos momentos nos avaliamos, quero dizer, nos vemos como um povo feliz e jubiloso, um dos mais mais do mundo, de outro tempo, nem tão distante assim num espaço histórico, nos vemos como um povo sem esperança e possibilidade, quase um povo infeliz, é o que enuncia certas enquetes internacionais feitas recentemente. Observem, oscilamos, reitero, de um pólo ao outro, contudo, sem experimentarmos um olhar mais crítico e calibrado, uma possibilidade mais amadurecida de observar as nossas questões ao invés de responder apenas aos afetos de ocasião. E isso parece indicar que trazemos conosco enquanto povo e nação uma forte ideia de destino que exclui a possibilidade de nos vermos e nos situarmos enquanto sujeito. O destino é sempre algo que está antecipado para nós, e por conseguinte, não interferimos em nada quanto à nossa existência, parece não termos responsabilidade com isso. Contudo, o nome disso pode ser chamado também de ilusão, e na ponta, um sintoma de nossa sociedade e/ou do fracasso do nosso laço social.

De fato, temos um enorme déficit, enquanto povo e nação, de examinarmos a fundo nossas questões e nossos nós os quais inviabilizam muitas vezes uma progressão mais razoável como sociedade. Parece que estamos todos atados a um tempo lúdico de uma criança magnífica em busca de um gozo jubiloso, mas que ao sermos frustrados ou privados desse objeto de gozo quase caímos em uma depressão ou em um niilismo, não raro, de forte componente cínico. A questão que nos solicita seria a de que, em assim sendo, estamos subjetivamente preparados a enfrentar os nossos dilemas, desafios, encarar a realidade de nosso funcionamento social e civilizatório, democrático, pluralista, ou não?

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Bem, deixo a questão em suspenso para cada um dos senhores e das senhoras que me honram com vossa leitura e atenção.

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