Covid-19: Infodemia o pandemia?

“Infodemia” é um novo substantivo hoje frequentemente utilizado para descrever as características da cobertura da mídia sobre a disseminação da suposta epidemia devida ao coronavírus. “Infodemia” seria o equivalente do termo “epidemia”, mas referido ao mundo da comunicação

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

“Infodemia” é um novo substantivo hoje frequentemente utilizado para descrever as características da cobertura da mídia sobre a disseminação da suposta epidemia devida ao coronavírus. “Infodemia” seria o equivalente do termo “epidemia”, mas referido ao mundo da comunicação. Uma referência explícita à biologia para descrever fenômenos que estão fora do campo de observação desta disciplina, emprestando conceitos que são também alargados para o marketing (marketing viral), para a informação (informação viral) e para a teoria da disseminação das ideias (memética).

Vamos tentar pôr ordem nestas definições. Em primeiro lugar, por que se referir explicitamente a vírus em contextos extrabiológicos, como aquilo da comunicação? A resposta é simples e ao mesmo tempo preocupante. É bom começar por esclarecer o que é o vírus, uma forma biológica muito particular que não expressa as características comuns a todos os seres viventes (capacidade de reprodução, capacidade de alimentação, presença de metabolismo, etc.). O vírus fora de uma célula de um organismo, seja ele um homem ou uma bactéria, nada mais é do que uma massa de proteínas, lípidos e ácidos nucléicos e depende da célula que infecta para sua multiplicação, mas não para sua sobrevivência, porque, não sendo um organismo vivo, não pode nem morrer nem viver. Não devemos acreditar que todos os vírus são patógenos perigosos. Os vírus são elementos fundamentais das cadeias alimentares, pois controlam as populações de microrganismos presentes no meio ambiente, que, por sua vez, são essenciais para a reciclagem de nutrientes nos ecossistemas. Os vírus, também, podem proteger contra infecções e transferir material genético de um organismo para outro, tornando-se assim ferramentas para misturar genes em populações inteiras.

O preocupante é que os contextos extrabiológicos que utilizam a metáfora do vírus referem-se exclusivamente ao seu potencial patogênico. É como dizer que a disseminação “viral” de um meme (veremos o que é em breve) equivale a uma infecção que se espalha rapidamente, visto que a taxa de duplicação do material genético viral dentro de uma célula é exponencial. Em outras palavras, um vírus patogênico que infecta uma célula produz centenas de cópias de si mesmo, cada uma das quais é capaz de infectar uma nova célula e repetir o ciclo, assim como um meme de informação que atinge um sujeito é multiplicado e espalhado por ele da mesma forma. Qualquer outro sujeito alcançado pelo meme atuará como um núcleo de transmissão para um grande número de outros sujeitos. E assim por diante.

A palavra meme, agora usada principalmente para definir as unidades de informação disseminadas na Internet, foi cunhada em 1976 por Richard Dawkins, um conhecido biólogo inglês, que estudou a aplicação de conceitos da biologia evolutiva ao estudo da transferência das informações culturais. Se um gene é uma unidade de informação genética que é transferida dos pais para a prole, um meme é uma unidade de informação cultural (uma ideia, uma crença ou um padrão de comportamento) capaz de ser transferida de pessoa para pessoa. Os memes são produzidos na mente dos indivíduos e se espalham alcançando a mente de uma outra pessoa. Essa transferência é mais plástica do que aquela dos genes porque também pode ocorrer da prole para os pais, o que os genes não podem fazer. Da mesma maneira na qual as ideias podem se combinar com outras ideias, os memes são capazes de se fundir e evoluir.

Embora o estudo dos memes (memética) tenha sido criticado como não científico, o termo agora é amplamente usado para descrever informações rapidamente disseminadas. A teoria do meme parece intrigante, mas não é tão fácil tentar uma sua sistematização conceitual, porque é complicado definir um meme. Dizer que o meme, em sua qualidade de esquema de informação, deve ser replicado em quantidades ilimitadas por meio da comunicação entre os indivíduos, independentemente de qualquer transmissão genética, nos ajuda a entender a sua natureza, mas não nos ajuda a defini-la univocamente.

Definir as três características que todo bom “replicador” deveria possuir (fidelidade da cópia, fecundidade e longevidade) ainda pode nos fornecer uma ajuda adicional, mas, mesmo assim, se deixa uma grande margem de incerteza quanto à identificação precisa do meme. Na verdade, não está claro se o meme é uma ideia, uma teoria científica, um pedaço dessa teoria, uma religião ou um preceito religioso, ou todas estas coisas juntas. Um meme também pode ser a maneira de andar ou de se vestir de um sujeito. Na ausência de elementos que delimitem seu tamanho, toda a cultura de um povo poderia ser definida como um único meme gigante.

Ben Cullen, em seu ensaio de 1998 intitulado "Ecologia Parasitária e a Evolução das Religiões", especifica que os memes assemelham a uma infecção, ou melhor, aos parasitas em sua maneira de passar de um indivíduo para outro. Mais uma vez, uma semelhança perturbadora. Ainda mais perturbador é o artigo de Robert Finkelstein intitulado A Memetics Compendium and the Military Memetics Overview, que afirma “Se a memética pode ser definida como uma disciplina científica, o seu potencial militar inclui aplicações que envolvem operações de inteligência para combater memes produzidos pelo adversário, reduzindo seu número e ao mesmo tempo reduzindo a hostilidade do adversário em sua cultura militar e civil, ou seja, pode ter a capacidade de reduzir a probabilidade de guerra ou de derrota, aumentando a probabilidade de paz ou vitória”.

Nós estamos, portanto, diante de técnicas de manipulação de massa, que animam estratégias militares, refletem-se em técnicas de vendas virais e acabam por ser utilizadas na gestão da difusão das informações pelos meios de comunicação de massa, e hoje também na "memética" das redes sociais.

Voltando ao “marketing viral”, observamos que, ao eleger os vírus como modelo exemplar para aumentar “naturalmente” o potencial das estratégias de vendas, torna-se necessário processar, como se estivéssemos em um laboratório biológico, vírus mentais particularmente adequados para circular e se enraizar com firmeza na cabeça das pessoas. Alguns teóricos desses procedimentos propõem técnicas inovadoras de investigação de mercado baseadas no poder dos princípios darwinianos de sobrevivência do mais apto. Aqui está o que os profissionais de marketing viral preconizam: “considerar as pessoas como puros vetores potenciais por um novo tipo de doença, o “brand” em questão, em vez de agentes racionais com traços psicológicos complexos”.Francesco Ianneo, um autor italiano, nos lembra que “O que nos queremos neste nosso mundo ultrassofisticado e aterrorizado no final é um fenômeno ou um produto memético, um complexo de memes materializado em um objeto de alta tecnologia, um vestido na moda, um cosmético indispensável, um corpo novo, magro e cativante, uma imagem memética de nós mesmos que conquista um lugar e um papel que, por sua vez, é memético e vencedor”. É interessante o uso do adjetivo “aterrorizado” escolhido para descrever uma das características das sociedades ocidentais na era "pré-covid".Agora vamos tentar aprofundar as novas técnicas de marketing, genericamente chamadas de “marketing não convencional”. Somos imediatamente confrontados com terminologias militares e biológicas, na verdade, eu diria, terminologias de guerra microbiológica. Títulos de artigos como “Infecção controlada! Espalhar a mensagem da marca por meio de marketing viral”, dos atores Dobele, Toleman e Beverland, e definições como “guerrilha marketing”, “ambush marketing”, “stealth marketing”, de origem militar óbvia, estão associados a conceitos como “como criar uma epidemia” e “como espalhar um vírus”, obviamente no sentido de um marketing inovador e de sucesso. Esses conceitos são expressos com franqueza surpreendente em um artigo de Kaplan e Haenlein, no qual são identificados 3 pontos-chaves para o sucesso em “criar uma epidemia”: 1) escolha dos mensageiros: especialistas do mercado, redes sociais e vendedores; 2) escolha da mensagem: memorável e interessante; e 3) O ambiente: o número de Dunbar e um pouco de sorte. O número de Dunbar é 150 e representa o número máximo de pessoas com quem cada um de nós pode ter relacionamentos estáveis durante a sua vida.O "coração" da "ideiavírus", isto é, a transmissão da epidemia, são os “sneezers”, aqueles que espirram, como explicita claramente a imagem retirada do livro de Seth Godin “Unleashing the Ideavirus”, reproduzida a seguir. Aqueles quem espirram, segundo Godin, são tão importantes que precisam ser classificados com muito cuidado. Existem dois tipos: 1) sneezers promíscuos (podem ser motivados por dinheiro ou outros incentivos e raramente são tidos em alta conta como líderes de opinião, mas se forem promíscuos ou suficientes podem ser extremamente eficazes); e 2) sneezers poderosos (não podem ser comprados e cada vez que um deles aceita um benefício em troca da disseminação de um vírus, seu poder diminui).


Se pensarmos na transposição sem nenhuma mediação desses conceitos para o mundo da informação, teremos uma ideia bastante clara de como é possível racionalizar a disseminação de qualquer meme e a consequente manipulação das pessoas. O limite dessas técnicas só é ditado pelo “profissionalismo” dos operadores e pela potência das ferramentas de divulgação das notícias. Se identificarmos os “sneezers promíscuos” em jornalistas, alguns políticos e alguns cientistas de segundo plano e identificarmos os “sneezers poderosos” nas figuras proeminentes das instituições internacionais e da ciência, o quadro desconcertante da realidade que estamos a viver parece mais claro. Na realidade distópica que caracteriza o nosso presente, o vírus que se espalha pelo mundo não é um microrganismo, mas um meme.Nesse panorama, não exatamente tranquilizador, não poderia faltar a “Igreja viral”. Recomendo visitar a conta @The_ViralChurch no Twitter, cujo lema é “Equipando os Santos para Cumprir a Grande Tarefa de um Mundo Online”. Garanto que você encontrará argumentos extremamente sugestivos.No site http://www.bedouinsoul.com/post.cfm/viral-church, agora não ativo, podia-se ler esta definição de vírus: “O que é o vírus? É o próprio Jesus, em nós e também revelado ao mundo através de nós. Como o vírus se espalha? Como qualquer outro vírus, ele se espalha pelo contato pessoal ou ”espirrando” nas pessoas”. Evidentemente, Godin também fez conversões em ambientes não estritamente relacionados à venda de produtos, mas ainda interessados em técnicas de marketing eficazes.Os motivos para garantir a máxima divulgação de uma ideia foram encontrados no mesmo site: “O que torna uma ideia viral? Ninguém divulga uma ideia a menos que: 1) não a compreenda; 2) não queira divulgá-la; 3) não acredite que a divulgação aumentará seu poder (reputação, ganhos, amizades) ou sua paz de espírito; 4) não acredita que os benefícios obtidos com a sua difusão são maiores que o esforço necessário para difundi-la”. Então, uma abordagem primorosamente utilitarista transposta para a salvação da alma.

Enquanto os “memes descrevem” o que está se espalhando, a “viralidade” descreve por que os memes estão espalhando. A viralidade é definida como a tendência de um consumidor a divulgar informações sobre um produto por meio de suas redes sociais (não necessariamente telemáticas), da mesma forma que um vírus se espalha de uma pessoa para outra. O marketing viral utiliza as redes relacionais do consumidor para orientar a compra de um bem ou serviço, criando as condições para uma multiplicação rápida de informações, que ocorre de forma exponencial como a multiplicação de um vírus em um ambiente a ele favorável.

Se essas são as técnicas usadas para transferir qualquer meme para as mentes dos indivíduos, independentemente de sua validade, racionalidade e correspondência com a realidade factual, em que baseiam-se essas técnicas? Umberto Galimberti, um filósofo italiano, nos lembra que vivemos em um mundo obrigado a reconhecer dramaticamente o fracasso da ilusão da modernidade, aquela mesma ilusão que pretendia dominar tudo e todos os processos, modificando-os de acordo com nossa vontade. Da consciência deste fracasso gera-se uma evolução paranóica, que nos empurra a nos proteger da recorrência do devenir e da intrusão de eventos imprevisíveis em nossa vida. Para se defender da própria vida, imprevisível por definição, desaparecem as mediações do ego e da individualidade. Este fenômeno nos impulsiona a refazer rituais sociais pelo ritmo forçado da repetição, empobrecidos emocionalmente e buscando refúgio no narcisismo e seus derivados coletivistas. Os efeitos desse mecanismo provocam a perda da capacidade de desenvolver sistemas e ambientes simbólicos, nos quais se exerça o necessário exercício de formação de identidade e independência cultural e conceitual. Esses sistemas, hoje profundamente alterados, paradoxalmente, tornaram-se a esfera preferencial de dessimbolização do mundo, inclusive das religiões, em função da sua submissão à indústria da comunicação e da informação.

Aqui, então, estão os pressupostos do sucesso da informação viral: desconstrução da ilusão positivista da vontade de poder, expressa por uma humanidade supostamente capaz de controlar tudo e modificar tudo à vontade; nascimento de uma necessidade heterodireta de restabelecer um ilusório controle por parte de indivíduos fragilizados e privados de referências simbólicas; afirmação dos impulsos narcisistas como antídoto ao efeito desestabilizador da incursão do devenir em nossas vidas. Nesse contexto, os indivíduos sofrem pressões contraditórias: por um lado são anulados como tais e incluídos em um corpo social que nega sua identidade e, por outro, são impulsionados a exercer as apostas do agir por meio de uma falsa projeção sobre os objetivos gerados fora da sua capacidade de controle racional e emocional: um ilusório mecanismo de restauração da própria identidade. É óbvio que em sujeitos em tal equilíbrio instável, o medo se torna, mais do que nunca, uma ferramenta poderosa para a circulação dos memes.

Um outro filósofo italiano, Roberto Esposito, em seu livro de 2002 (Immunitas. Proteção e negação da vida), destacou profeticamente o pedido de imunização que vem caracterizando todos os aspectos de nossa existência, cuja principal conotação agora é a necessidade de conviver com ameaças cada vez mais prementes e difundidas. A imunização do diferente, do estranho, do portador, real ou imaginário, de patologias (no sentido mais amplo do termo que inclui as patologias sociais e as patologias clínicas) faz com que nos aproximemos cada vez mais de atitudes que consideramos protetoras, mas que na realidade nos excluem da dinâmica social e afetiva da vida. Essa “vacinação” contra os perigos tem um preço altíssimo: uma imunização presumida requer a introdução preventiva e controlada do patógeno no corpo social, com efeitos impossíveis de prever e menos ainda de dominar. Esses pressupostos deixam espaço para que se enraízem memes, não menos perigosos do que as epidemias, e para que cenários distópicos se concretizem, por meio da gestão do medo.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247

Apoie o 247

WhatsApp Facebook Twitter Email