Cuidar de quem cuida de nós

"As enfermeiras são o símbolo mesmo desse trabalho anônimo, sacrificado, sofrido, dedicado. Ficamos sabendo também que grande parte delas não somente tem remunerações mínimas, como nem tem reconhecida sua profissão, nem tem contratos de trabalho", escreve Emr Sader

(Foto: Ministério da Saúde)
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Há décadas que se fala de uma nova divisão social do trabalho, baseada em uma nova divisão técnica do trabalho. A pandemia acelerou essa divisão, privilegiando ainda mais os trabalhos qualificados – inclusive pelo home office.

Porém, as condições sui generis de vida de todos introduziram novas formas de trabalho, além de acelerarem as distintas formas de trabalho precário. A centralidade que passaram a ter os trabalhos de saúde pública colocaram em evidência os trabalhadores dos hospitais, centros de saúde, ambulâncias e outros afins. Passamos a conviver com o cotidiano dos hospitais, dos espaços de atendimento dos internados.

Nossa vida, a vida de todos, passou a depender da atenção do pessoal de saúde pública. Lemos e ouvimos relatos de agradecimento dos que sobreviveram às internações, agradecendo a dedicação desse pessoal, graças ao qual salvaram suas vidas. Vemos suas fisionomias, ouvimos suas vozes, suas petições, seus apelos desesperados para que as pessoas tratem de diminuir a demanda insuportável de casos que lhes chegam todos os dias e todas as noites.

As enfermeiras são o símbolo mesmo desse trabalho anônimo, sacrificado, sofrido, dedicado. Ficamos sabendo também que grande parte delas não somente tem remunerações mínimas, como nem tem reconhecida sua profissão, nem tem contratos de trabalho. Elas, que não tem home office, nem férias garantidas, nem possibilidades de isolamento, nem de dormir tranquilamente todas as noites.

Elas, de quem depende grande parte das nossas vidas, se somos hospitalizados.  Elas, que cuidam tanto de nós, precisam que cuidemos delas, precisam de quem cuide delas. Precisam de salários dignos, de contratos de trabalho, de reconhecimento da sua profissão.

Incrível que elas, mais essenciais ainda neste tempo que vivemos, tenham que apelar, quase que suplicar, por suas reivindicações elementares, que significam tao somente o reconhecimento concreto do papel que elas tem, das responsabilidades que recaem sobre elas. Mas não se ouve retornos, não se lê que suas reivindicações sejam atendidas. 

Temos todas as dívidas, morais e materiais, com as enfermeiras.

Por outro lado, as condições de isolamento e, que uma parte de nós vive, faz com que dependamos de outro tipo de trabalhadores, sem os quais não poderíamos sobreviver: os trabalhadores que fazem as entregas dos pedidos de delivery. Que são a nova geração da classe trabalhadora brasileira.

Que fazem chegar até nós não apenas os pedidos de comida, mas de farmácia, de todo tipo de necessidades, em que dependemos que eles nos façam chegar diretamente a nossas casas.

O Galo, o dirigente desses trabalhadores, tem expressado de forma clara e direta como se sentem eles: levam nas costas a nossa comida, a que eles não têm acesso, para que possam minimamente se alimentar, nos intervalos precários do trabalho, e levar algo para que comam em suas casas.

São trabalhadores que exercem seu trabalho da forma mais precária possível: sem contratos de trabalho, com remunerações miseráveis, com riscos de acidentes o tempo todo, sem tempo definido de jornada de trabalho, sem garantia nenhuma, trabalhando nas situações de maior precariedade.

E, no entanto, dependemos tanto deles! São anjos, que nos fazem chegar o que pedimos, o  que queremos, o que precisamos!

Imaginem se eles não existissem? Que tipo de isolamento poderíamos ter?  Que tipo de proteção poderíamos ter?

E, no entanto, eles, que cuidam tanto de nós, precisam ser cuidados. Não tem vínculos de trabalho nenhum. Aqueles que os exploram mais diretamente, negam que tenham vínculos trabalhistas. Dizem, cinicamente, que são apenas intermediários entre os que necessitam e os que os atendem. São apenas aplicativos – a nova designação para a super explorado do trabalho

Precisamos cuidar deles, não apenas porque eles cuidam de nós. Mas porque fazem um trabalho muito meritório, de muito valor, porque resgatam o valor do trabalho nas condições mais difíceis, de maior risco. Eles são que de melhor temos hoje como pessoas, como trabalhadores, como seres humanos. Merecem o pleno reconhecimento das duas profissões, merecem ter atendidas suas reivindicações, merecem ser protegidas por todos, enquanto não temos um governo que os reconheça e lhes dê tudo o que merecem.

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