“De abril a abril – Cartas a Lula” lidas em Paris

Foi uma explosão de afeto e compaixão à figura do ex-presidente. Lindas, profundas, singelas, encantadoras, divertidas e arrebatadoras cartas.

Em Paris, ativistas leem cartas para Lula
Em Paris, ativistas leem cartas para Lula (Foto: Neto Tavares)

No mesmo dia em que nos deparamos com mais um deprimente episódio dadesmoralização institucional brasileira (25/06), uma vez mais evidenciada e arquitetada com evidentes toques de desonestidade e acovardamento pela Suprema Corte, houve um potente ato em apoio a Lula em Paris. “De abril a abril – Cartas a Lula” foi uma explosão de afeto e compaixão à figura do ex-presidente. Lindas, profundas, singelas, encantadoras, divertidas e arrebatadoras cartas. Traçando a linha temporal que vai de abril de 2018, mês de sua prisão, até abril deste ano que corre – alucinado -, 80 cartas (entre as 22.000 mil enviadas à sede da Polícia Federal de Curitiba) foram bela e intensamente lidas, declamadas e sentidas por personalidades da cultura, da política e da educação franco-brasileiras. 

O escaldante calor parisiense se fundiu ao calor humano que transpirava na sala lotada do Teatro Monfort. Lágrimas, suor e sorriso pairaram no rosto dos quase 500 expectadores e dos 38 artistas que compuseram a encenação. Uma complexa mistura de tristeza, alegria, luto e esperança circulou por entre os corpos e almas que vivenciaram o ato, todos clamando pela liberdade de Luiz Inácio. 

A ideia do espetáculo partiu da historiadora Maud Chirio, cofundadora da Rede Europeia pela Democracia no Brasil (Red.Br), contando com a mise-en-scène de Thomas Quillardet, autor e diretor francês, e de Calixto Neto, bailarino e coreógrafo brasileiro, e com a contribuição do cineasta Filipe Galvon na parte dos vídeos e imagens.

Pode-se afirmar com contundência que este foi mais um episódio marcante no quetange à construção de uma base de solidariedade internacional que visa a defender a democracia brasileira, denunciando os desmandos e brutalidades do desgoverno bolsonarista e defendendo incessantemente a liberdade de Lula. Percebe-se, a cada evento realizado na França, uma presença mais acentuada de personalidades internacionais, tanto na plateia como no palco, o que ajuda a comunidade internacional a compreender mais profundamente a destruição da soberania e do estado de bem-estar social brasileiros. 

Nesse sentido, é inconteste a sincera relação do ex-presidente com as diversas vertentes e gerações brasileiras, imprimida nessas cartas que traçam um retrato social- antropológico fidedigno de legítimos anseios e reivindicações por justiça, liberdade e dignidade humana em terras tupiniquins. Não são apenas as manifestações por Lula livre que permeiam as palavras encontradas nesses documentos, que já são históricos porque mostram uma diferente narrativa quanto à imagem de Lula perante a opinião pública brasileira. Existe, de forma igualmente recorrente, o reconhecimento de um povo em relação ao legado dos anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Percebe-se, outrossim, críticas construtivas e conselhos visando os próximos passos do movimento progressista. As cartas são uma convincente prova de que as rosas da primavera evocada por Lula, no visceral discurso que antecedeu sua prisão, não foram detidas pelas forças fascistas que pairam no Brasil.

Ver Chico Buarque, nessa monta, apoiando de forma incansável seu companheiro delonga data é tocante. Leu uma carta como se tivesse lendo uma passagem de um de seus livros: docemente, pausadamente, com sua aura imponente de grande artista brasileiro. Respeitado mundo afora, mas perseguido em seu país ao longo do curso da história tal qual Lula, guardadas as devidas proporções e diferenças. Chico existe, persiste, resiste e luta assim como o amigo. 

O momento mais emocionante, na minha singela opinião, ficou para o final com a carta de Jean Wyllys, a qual foi lida por ele mesmo. Falou do exílio como um “não-lugar” - citando o escritor francês Marc Augé -, mas “ainda melhor que a prisão”. Constantemente emocionado durante todo o evento, Jean segurou o choro para escancarar e potencializar seu desejo. “Quero te ver livre, meu guerreiro”, finalizou. 

Importante ressaltar, por fim, as equânimes potência e importância das cartas escritas pelos brasileiros ordinários, se postas em comparação com cartas como a de Frei Betto e a de Jean por exemplo. Estão eles longe dos holofotes, distantes e esquecidos (mais do que nunca nesse crítico momento da história do nosso país) em seus interiores brasileiros, do norte até o sul, mas, graças à iniciativa que desembocou nesse evento, puderam nos emocionar e nos fazer compreender que o amor e a esperança ainda existem e se fazem mostrar de forma genuína nas palavras, frases e ideias das rosas que fazem e recriam o ciclo da primavera.

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