De João em João

Entre a escrita e a publicação desse texto, soube que outro assassinato aconteceu no Rio de Janeiro, na Cidade de Deus, enquanto a Frente Cidade de Deus contra a COVID-19 distribuía quentinhas aos moradores do lugar. João Vítor, 18 anos, foi o preto da vez. E eu, não tenho mais palavras

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Nesta semana, quase fui linchada, em redes sociais, quando fiz um comentário contrário à matança praticada pela polícia militar do RJ, no Complexo do Alemão. Os meus agressores virtuais me mandaram para Cuba, sempre sem as passagens, infelizmente; me desejaram ser assaltada pelos “santinhos” mortos e espalhados pelas vielas do lugar; me chamaram de hipócrita e outros adjetivos impublicáveis. A pista de um dos xingamentos é que eu era uma dessas mulheres que ganhava dinheiro com o contato físico íntimo; mas até isso, caros fascistas, está difícil nesse isolamento social. As profissionais do sexo estão passando por uma série de privações. 

Tais manifestações histéricas e apaixonadas dessa horda de celerados me fizeram pensar que, caso eu estivesse na cena, provavelmente estaria calada, apenas horrorizada, pelo receio de ser verdadeiramente morta, ou pela polícia ou pelos cidadãos de bem que infestam o Brasil como pragas peçonhentas e imortais. Gente que não morre nem à faca, nem a vírus, como o seu chefe supremo. 

A vítima mais recente, João Pedro, 14 anos, um garoto como outro qualquer da sua idade, encontrava-se em casa no Complexo do Salgueiro com os primos, divertindo-se com jogos virtuais e protegendo-se do vírus letal que paira pelas ruas. Repentinamente, o Estado do Rio de Janeiro com um grau muito maior de letalidade, usando coturno, sangue nos olhos, fuzis e granadas, invade a casa do menino à procura de traficantes; mesmo com a família informando que no ambiente só havia crianças e adolescentes. Mal sabia a aflita informante que falou a senha para a sanha dos caçadores de gente pobre: “criançadolescente”. 

“Criançadolescentes” favelados já são considerados pelo estado, projetos de marginais, e caso morram, seguindo o mesmo princípio do sicário governo, é “cortar o mal pela raiz”. O rapazinho João Pedro, como tantos outros meninos e meninas viveram e vivem no RJ sob a dupla égide de uma morte anunciada, pois como se não bastasse o presidente miliciano um dia proclamar: “[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado”; o governador do estado do RJ, não menos bárbaro, vomitou:"A polícia vai mirar na cabecinha e….fogo!” E assim foi, o jovem e seus primos, violentados e humilhados, acuados com um grande arsenal de armas e ferocidade, jamais imaginariam que seriam personagens de um Free Fire tão real. 

Sob o pretexto de socorrê-lo, seus algozes levam o seu corpo esbelto e negro, no helicóptero da polícia e somem com ele por doze horas, enquanto sua família, retalhada pelo criminoso acontecimento, agoniza pela falta de esperança de encontrá-lo com vida. Desesperança confirmada. De Complexo em Complexo, os agentes do estado, também pretos e pobres, não resolvem os seus complexos e matam.

Entre a escrita e a publicação desse texto, soube que outro assassinato aconteceu no Rio de Janeiro, na Cidade de Deus, enquanto a Frente Cidade de Deus contra a COVID-19 distribuía quentinhas aos moradores do lugar. João Vítor, 18 anos, foi o preto da vez. E eu, não tenho mais palavras. 

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