De onde menos se espera daí mesmo é que não sai nada

A ideia de um novo partido não se constitui nenhum crime ou pecado ou blasfêmia, mas não cumpre papel positivo qualquer que seja para unificar o campo democrático-popular. Seria antes um empecilho, sinônimo de divisão e dispersão. O que, suposta e hipoteticamente, ampliaria, se daria sob o preço de sujeição ao mote eleitoral, capitulação ideológica, desunião e concorrência no terreno à esquerda e pragmatismo suplantando programatismo.

(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
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Circula pelas rodas políticas e jornalísticas toda sorte de especulações. Algumas dão conta das diatribes e malabarismos da Extrema-Direita, outras falam das movimentações e conversações dentro da oposição liberal (a que aprova a pauta econômica, mas se descola no quesito Democracia) e há aquelas que tratam de comentar, fomentar e fustigar fatos e versões no esquálido campo da Esquerda.

A cobertura e destaque para a disputa estabelecida entre PT e PDT, ou noutros termos, entre Lula e Ciro, é manchete recorrente. Aparecem também sinalizações titubeantes que tentam domesticar o petismo com promessas de perdão. O PSOL, graças ao destaque de Freixo e Boulos, costuma render alguns destaques. Mas a bola da vez parece ser uma discussão que põe no centro uma liderança nacional emergente e seu partido: Flávio Dino e o PCdoB.

O assédio sobre o governador comunista e as propostas de que mude de sigla para eventualmente disputar a Presidência da República ou a invectiva de construir uma nova organização partidária de Centro-Esquerda ganharam espaço nos últimos dias.

Natural que o desempenho e desenvoltura de Dino chame a atenção, ainda mais em um momento de dificuldades explícitas da Esquerda. Não é prática muito respeitosa, mas é do jogo político. Houve rumores que outro partido também fizera idêntica proposição.

O caminho de Dino compete a ele definir. É da vida. Porém, surgiram a reboque outras notas que insinuavam algo mais profundo: a de formatar um novo partido político com vistas a angariar apoio mais amplo. A conversa muda de tom. E não só por envolver a quase centenária facção comunista no assunto, mas porque também traz implicações outras.

A ideia de um novo partido não se constitui nenhum crime ou pecado ou blasfêmia, mas não cumpre papel positivo qualquer que seja para unificar o campo democrático-popular. Seria antes um empecilho, sinônimo de divisão e dispersão. O que, suposta e hipoteticamente, ampliaria, se daria sob o preço de sujeição ao mote eleitoral, capitulação ideológica, desunião e concorrência no terreno à esquerda e pragmatismo suplantando programatismo.

Não polemizo nem a sugestiva intenção de diluir o Partido Comunista do Brasil nessa aventura. Fosse um debate sobre Frente Ampla orgânica, talvez merecesse algum crédito, coisa que aliás se recorreu como escape ao advogar por uma inexistente - até o momento - Federação Partidária. Nada mais distante e destoante da perspectiva de uma Frente Ampla- seja ela política, seja ela eleitoral 

É forte a tendência de que a Esquerda saia derrotada nas eleições municipais. Também é dramático perceber que tal derrota pode favorecer e facilitar perspectivas golpistas, autoritárias e ditatoriais. A análise movida por paixões e interesses particularistas impera e a falta de compreensão ou compromisso com objetivos mais elevados é patente.

Mas num momento de crise, refluxo, retrocesso e defensiva, cabe ponderar sobre o desastroso caminho dos partidos comunistas mundo afora que renegaram sua identidade quando da crise do socialismo e queda da URSS nos anos 1990 ou, olhando doutro viés, da manutenção da estrutura comunista do PC uruguaio no conjunto heterogêneo da Frente Ampla.

Saídas fáceis e sedutoras - verdadeiros canto da sereia - não resolverão o problema fundamental: derrotar o fascismo, condição essa que não se deve apenas ao resultado das urnas, mas a um processo, movimento e política muito mais complexo e do qual um partido como o PCdoB tem papel essencial, seja dentro das normativas impostas pela Democracia excludente, seja por caminhos outros. Ao longo de quase um século de lutas, uma coisa ficou marcada na trajetória comunista e para defini-la recorro ao célebre dito espirituoso de Aparício Torelly, o Barão de Itararé: "de onde menos se espera daí mesmo é que não sai nada".

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