De quando conheci Mariátegui pessoalmente

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O ano era o de um distante 2005. Chegávamos à cidade de Ollantaytambo, na metade do caminho para a histórica Machu Pichu, no Peru. Estávamos na realidade voltando depois de uma visita à cidade perdida. O trem que levaria de volta a Cuzco ainda tardaria uma manhã inteira. Eu e minha amiga e companheira de viagem por Nuestra America, Mariana Sanchez, achamos que naquele intervalo de tempo valia a pena caminhar pelas vielas da minúscula cidade, caminhos estreitos, em que cada rua parecia disputar ombro a ombro com o sistema de águas herdado da época do império Inca, onde os canais de águas corriam velozes pelo chão. 

As casas carregavam na sua fachada o peso dos anos, pareciam o símbolo da invasão espanhola – representada na arquitetura, porém erguida sobre a base das antigas casas de pedra incaicas. A cidade era um jogo de brinquedo, um labirinto, compacto e quadrado, por onde nos perdemos, enquanto dali era ainda possível ver mais ruínas históricas no horizonte. Estávamos cansados, pés desgastados, há pouco mais de quatro meses na estrada, caminhando e fazendo amigos naquelas terras. 

Havia perdido Mari de vista, cada um seguindo o seu caminho e refletindo em silêncio enquanto se perdia pelo labirinto sem tempo. De repente, ela apareceu de dentro de um velho portão e me chamou. Havia sido convidada por Ronald Castillo, educador peruano, a conhecer o seu universo, a recriação da cozinha dos avós, a criação de cuys para abate, uma espécie de pequeno roedor também do período incaico, as tradições e pensamentos que se mantêm acesas em volta da fogueira no chão. 

Castillo falava-nos de uma tradição comunitária que não estava perdida, que sobrevivia, nessa longa extensão desenhada pela cadeia de montanha dos Andes. Ele nos ofereceu um livro de ensaios do qual havia participado com um artigo, e a obra inteira abordava a defesa de uma comunalidade que podia ser resumida naquela cozinha aconchegante, onde estávamos sentados no chão de terra ouvindo aquele ancião. 

- O problema do indígena é o problema do acesso à terra.

Já havia escutado aquela frase antes, fiquei revirando a memória até me recordar que foi no filme de Walter Salles, Diários de Motocicleta, no momento quando Che Guevara e Alberto Granado travavam contato com aquele país ecom a tradição marcante do pensamento de Mariátegui. 

Nossa conversa passava do impacto da pobreza e da ausência de direitos para a população peruana, o governo Fujimori, que margeou a ditadura, a perseguição contra as comunidades camponesas e a guerrilha de nome potente, chamada Sendero Luminoso, da região de Ayacucho, quando Ronald nos ofereceu o milho dos mais saborosos que comemos na vida. 

- Precisam conhecer Mariátegui e Cesar Vallejo. É fundamental para entender o nosso país, indicava Ronald, mais uma pessoa que se referenciava em Mariátegui, o jornalista, marxista, dirigente político, falecido aos 36 anos, mas que deixou a obra de peso “Sete Ensaios de interpretação da realidade peruana”. E também Vallejo, poeta e romancista incrível na forma e no conteúdo, autor de Paco Yunque, Poemas Humanos, obras marcantes de nossa América e também dos horrores da guerra Civil Espanhola.

Curiosamente, esses dois autores olharam seu continente à distância para ter uma dimensão melhor sobre o constituía de genuíno de seu povo. Mariátegui teve uma experiência de formação na Europa, onde Vallejo viveu uma espécie de exílio. 

A literatura histórica andina, na Bolívia e no Peru, é marcada pela narrativa da exploração dos trabalhadores mineiros. Essa visão está explícita no romance Tungstênio, de Vallejo. Esta e “Los Socavones de Angustia” do boliviano Fernando Ramirez Velarde, são obras que retratam a exploração histórica da mineração e organização dos mineiros nos países andinos. O retrato do impacto da dependência sobre os trabalhadores. Folheando agora novamente o trabalho de Mariátegui, me deparo com uma frase exemplar para o momento que vivemos no Brasil e no continente: "A política liberal do laisser-faire, que tão pobres frutos deu no Peru, deve ser definitivamente substituída por uma política social de nacionalização das grandes fontes de riqueza", do capítulo “A comunidade e o latifúndio”, de “Sete ensaios”. 

Na casa do educador popular peruano, ficamos impactados e fico sobretudo agora com a impressão forte sobre como um pensador, intelectual e militante, falecido no ano de 1930, deixou sua marca e seu pensamento presente na casa de um educador vivendo na profundidade de um país, cultivando seus valores originários ao mesmo tempo em que buscava entender as questões atuais do Peru e da América Latina. Numa mescla da necessidade do socialismo, inserido e potencializado no processo e na cultura comunitária do povo peruano. Estaria aí uma pista para um pensamento de totalidade, ou para o famoso “sentipensador” de que nos relatava Eduardo Galeano?

Deixamos Ronald de encontro ao horário combinado e exato do trem, como um barco que se afasta a contragosto de um porto seguro. Eu e Mariana conversamos pouco sobre isso, mas convivemos por muitos anos talvez em silêncio com essa memória marcante daquele educador popular indígena. Originário e original. Ao ter entrado um pouco mais em contato com os trabalhos de Mariátegui, percebi o quanto ele estava ali, na casa de Ronald, presente e vivo. 

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