Devassa em presentes acentua pequenez de Temer

Embora figura obrigatória em quase todas as delações premiadas, o que revela a presença dos seus tentáculos em muitas das transações que renderam propinas milionárias, Cunha permanece incólume

O vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, na solenidade de posse do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin (Valter Campanato/Agência Brasil)
O vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, na solenidade de posse do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin (Valter Campanato/Agência Brasil) (Foto: Ribamar Fonseca)

A mesquinhez do interino Michel Temer é muito maior do que a principio se pensava. Depois de sitiar a presidenta Dilma Rousseff, controlando o acesso ao Palácio da Alvorada; proibir as suas viagens em aviões da FAB e cortar as verbas de alimentação do pessoal da residência oficial decidiu agora promover uma devassa nos presentes que ela e o ex-presidente Lula receberam quando no exercício da Presidência da República. Com tantas coisas sérias para se preocupar, Temer quer saber o que foi que os presidentes petistas ganharam de presente dos governantes de outras nações, o que mais uma vez confirma a sua pequenez para presidir o país. Evidenciando uma inexplicável vingança, fruto de um estranho ódio enrustido, tais atitudes, longe de atingir Lula e Dilma, só servem para tornar mais visível, aos olhos do povo brasileiro e de outros países, a falta de estatura do interino para governar uma nação do tamanho e da importância do Brasil.

Temer, na verdade, já deixou bem claro que não assumiu o governo na condição de substituto eventual da Presidenta, diante do seu afastamento transitório, mas como presidente definitivo, mesmo sem o julgamento final do Senado. Além de ter trocado em apenas um mês os dirigentes de todas as empresas estatais e órgãos do governo, o que nenhum interino faria, ele também mexeu na política de todos os ministérios, inclusive na política econômica, aumentando os gastos em mais de R$ 100 bilhões, o que, além de contrariar seu discurso de austeridade, se constitui em mais uma prova de que conspirou mesmo para ocupar o poder pelo menos até as eleições de 2018. E agora continua conspirando junto aos senadores, com a ajuda do seu conselheiro-mor Eduardo Cunha, para se manter no cargo, pois já não consegue esconder a sua preocupação diante das notícias de possíveis mudanças nos votos dos que julgarão a Presidenta em agosto próximo. Se os senadores não forem teleguiados, como a maioria dos deputados que votaram a favor do impeachment, Dilma voltará ao Palácio do Planalto.

O interino não deve estar dormindo direito ante a perspectiva de voltar às sombras como vice-presidente, levando junto todos os que hoje o incensam, e, sobretudo, de ser obrigado a devolver tudo o que usurpou. Ele se esforça, porém, para publicamente mostrar confiança em sua permanência no cargo, como em evento em São Paulo, onde afirmou que depois de agosto vai tomar as medidas impopulares. Na oportunidade, recebeu uma declaração poética e bíblica de apoio do governador Geraldo Alckmin, que disse: "O destino colocou sob suas mãos este grande desafio de retornar a primavera da democracia, do desenvolvimento e da paz. Conte conosco para as reformas inadiáveis que o Brasil precisa, para que possamos chegar à terra prometida". Alckmin, porém, cometeu um equívoco, pois quem colocou o poder nas mãos dele não foi o "destino", mas o golpe. Quanto à "primavera da democracia" e a "terra prometida" o governador paulista provavelmente estava zoando o interino, pois golpe nunca foi primavera e muito menos democracia. E terra prometida por quem?

O fato é que Temer não consegue esconder seus receios quanto ao resultado do julgamento do impeachment. Por isso, tem usado os cofres públicos para fazer agrados a parlamentares, liberando suas emendas; concedendo aumento de salários, fazendo nomeações a torto e a direito para conquistar apoios e promovido encontros para afagar senadores. Para essa mobilização política conta com a assessoria, os contatos e os conselhos do deputado Eduardo Cunha, com quem se reúne secretamente para acordar manobras. Cunha, aliás, está zombando de todo mundo, inclusive do Supremo Tribunal Federal. O seu afastamento da presidência da Câmara dos Deputados, para supostamente evitar a sua influência no processo de cassação do seu mandato, na verdade foi um grande prêmio, pois além de manter todas as mordomias do cargo e continuar manobrando os cordéis dos fantoches que ajudou a eleger – e que proporcionaram aquele deprimente espetáculo da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff – virou conselheiro-mor de Temer.

Embora figura obrigatória em quase todas as delações premiadas, o que revela a presença dos seus tentáculos em muitas das transações que renderam propinas milionárias, Cunha permanece incólume, enquanto por muito menos o juiz Moro manda prender outros acusados, especialmente os ligados ao PT, e o STF quebra o sigilo fiscal e bancário do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão. Ele e Temer, talvez embalados pela certeza da impunidade, não parecem preocupados com essas delações – nem mesmo com os inquéritos abertos pelo Supremo – e tanto isso é verdade que continuam se reunindo secretamente, indiferentes a tudo e a todos. Em suas reuniões, longe das vistas de curiosos, eles certamente combinam estratégias de ação para não apenas salvar o mandato de Cunha, mas sobretudo garantir o afastamento definitivo de Dilma do Palácio do Planalto. A escolha do deputado Rogério Rosso para presidir a Câmara, com a sua esperada renúncia, já é fruto desses conchavos. Resta saber apenas até quando o Supremo Tribunal Federal vai continuar assistindo de camarote, mergulhado no mais estranho e profundo silêncio, a movimentação da dupla Temer-Cunha. Como diria o Boris Casoy: "Isso é uma vergonha!".

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