Distritão, corrupção e “ao depois” são do tempo de D. Pedro II

Diálogo entre o Guarda Nacional Francisco e o escrivão da Subdelegacia, Diogo, publicado na Página 2 do jornal “O Anônimo”, do Rio de Janeiro, de 11 de maio de 1840, mostra como funcionava o “distritão” ou voto em lista nas eleições para o comando da Guarda Nacional

Deputados retomarão a votação dos destaques da proposta de reforma política na manhã desta quinta-feira Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Deputados retomarão a votação dos destaques da proposta de reforma política na manhã desta quinta-feira Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil (Foto: Alex Solnik)

Diálogo entre o Guarda Nacional Francisco e o escrivão da Subdelegacia, Diogo, publicado na Página 2 do jornal “O Anônimo”, do Rio de Janeiro, de 11 de maio de 1840, mostra como funcionava o “distritão” ou voto em lista nas eleições para o comando da Guarda Nacional.

Acusações de corrupção, ladroeira e enriquecimento suspeito de funcionários públicos são noticiados com frequência na imprensa da época e um dos deputados, o sr. Vasconcelos, sempre o responsável por formar as maiorias, parece ser o Eduardo Cunha do Império.

O governo - e não o imperador que é inviolável e nessa época completava 15 anos - é tão espinafrado pelos jornais como Temer o é nas ruas hoje em dia.   

Um dos advérbios mais empregados por Temer – “ao depois” – é dessa época.

Retrocedemos 177 anos na história.

 

Francisco: Ora me não dirá, sr. Diogo! O que entende Vosmicê por voto livre?

Diogo: Deve entender-se o voto que cada um de nós dá, sem coação física ou moral e de nosso coração próprio. 

Francisco: E há esse voto livre? Julgo que não. Tal ou qual coação há sempre, sr. Diogo!

Diogo: E por que? Como? 

Francisco: Ora, ouça. Eu sou Guarda Nacional. Tenho meu sítio, de que pago foro ao sr. Costa. Eu, portanto, votaria de coração nesse senhor. Tenho meu capitão, meu tenente-coronel e nesses votaria também com prazer. Dispensam-me de certos serviços, tratam-me bem. O vigário mereceria também meu voto. No batizado do meu Maneco nem quis aceitar a vela. O doutor e o João Boticário são bons homens. Este fia meus remédios, aquele curou minha mulher das febres. Votaria neles. O compadre André, oh esse deve ir na cabeça da lista, fia-me as fazendas de sua loja com que me visto e a mulher e aos filhos.

Diogo: Então tem você já uma chapa inteira. E bem boa. Mas olhe que a polícia ainda não está representada.

Francisco: É verdade. Nos srs. Delegado e subdelegado eu voto também de coração, são bons homens.

Diogo: Mas votando neles já tem gente demais e eu, sr. Francisco, tinha meus desejos.

Francisco: É verdade, já tem gente demais. Vosmicê é muito belo moço, é capazório, eu desejo votar também em Vosmicê. Lembro-me do Silva que me fia, às vezes, a carne seca e o toucinho. Ora, isto é o diabo! Aí já vão três ou quatro de mais. Como há de ser isto?

Diogo: Mas isto se arranja. Olhe. Se há de votarem três pessoas da polícia pode representá-las em sua lista votando em um somente, entende? Um escrivão representa em muitos atos por muitos juízes.

Francisco: Sim senhor, não está aí a dificuldade, Sr. Diogo.

Diogo: Pois em que está? Vejamos...

Francisco: Ouça. O meu capitão mandou me chamar. E disse-me: “sr. Francisco, se quer continuar com a minha amizade declaro-lhe que não há de receber outra chapa senão a minha. Entram nela o tenente-coronel, o major, o vigário, o delegado e o subdelegado, o André da loja, o João da botica, o médico Villares e eu. Se Vosmicê me quiser dar seu voto”. “Oh, sr. Capitão, pois nisso põe dúvida, a chapa que deu é ótima, bem formada, nesses mesmos eu gostaria de votar. Porém, se pudesse ser, eu queria dar voto no sr. Costa, que é meu senhorio”. “Não pode ser. Costa é da oposição, trabalha contra o governo e bem vê que nós, os militares devemos dar exemplo de respeito e submissão. Demais, o Costa recebe do sr. o foro, que não é tão pequeno, olhe que exigir cinquenta mil reis é ser mais que usurário”. “Bem” lhe disse eu “tem razão o capitão e nem bem o ano está vencido já quer a renda. Isso é verdade”. Prometi aceitar a chapa do capitão e retirei-me.

Diogo: Então, está tudo decidido. E Vosmicê esqueceu-se...

Francisco: Não está, não senhor. Quando cheguei à casa, de noite, achei o recado do sr. Costa. Que me mandava chamar. Bateu-me logo o coração. Confesso que pouco dormi. De manhã fui ver o que queria. “Senhor Francisco” me disse ele logo “o seu arrendamento está a concluir-se e eu tenho quem queira o sitio e me pague a pensão de 100 mil reis”. “Como, sr. Costa, pois Vossa Senhoria não tem sido pago sempre pontualmente? Não vê que trabalho por meu braço e com um só escravo? Porque a negra mais serve em casa”. “É verdade, mas Vosmicê tem se declarado meu inimigo, tem-se rebelado contra mim”.  “Eu, senhor, seu inimigo”? “Sim, senhor, na eleição de eleitores para o senador ligou-se lá ao seu capitão e ao seu tenente-coronel e não quis a minha chapa”. “Santo Deus, o sr. Costa não me procurou, não me disse nada”. “Pois agora o procuro. Quero que aceite a minha chapa”. “E qual é ela”? “Escute: entro eu, meu filho João e meu genro Teodoro, o irmão do meu genro Anastácio, entra o mano Joaquim, seu filho, meu sobrinho Quincas”. “Sr. Costa, eu em Vosmicê eu votaria, mas nesses outros senhores, não, porque devo votar no meu capitão, no meu tenente-coronel, no meu vigário. Vossa Senhoria sabe, a gente é pobre e deve promover os seus interesses. Estes nomes, o compadre André, o doutor Villares”... “Canalha, mais que canalha! E não quer que diga que se rebelou contra mim! Nada! Ou há de votar na minha chapa inteira, nos meus parentes ou apronte-se para despejar do sítio. Mais nada, nada. Vá-se embora e delibere”. Fui à casa e contei tudo à mulher. Ela ficou em pranto e perguntou-me se não havia algum lugar onde não houvessem eleições nem Guarda Nacional que havendo ela se queria mudar para ele.

Diogo: São caprichos de mulheres.

Francisco: Caprichos, senhor Diogo. Quem me dera achar esse lugar. Ora, diga-me, sou livre no meu voto?

Diogo: Escolha a chapa, eis a liberdade.

Francisco: Eu quero a do capitão, mas então me despeja no caso porque o sr. Costa não quer pedaço, quer a chapa inteira. E pode haver voto livre? Em que apuros me vejo!

Diogo: O sr. tem razão. Deve pensar bem no caso, porque se acha entre talas. Tome parecer com algum amigo.

Francisco: Quero tomá-lo com Vosmicê.   

Diogo: Então havemos de arranjar-lhe o negócio. Confie em mim. Não declare mais seus segredos a ninguém, é o silêncio a alma dos negócios.

Francisco: Sim, senhor, tem razão. Olhe que se me tirar das dificuldades tenho lá ainda umas laranjas nas árvores que reservei para os amigos. Diga ao delegado e ao subdelegado que eu voto neles. E quanto ao mais – chiton – nós cá nos entendemos.

Diogo: Não tenha cuidado. Adeus. Mande as laranjas.

Francisco: Se eu pudesse votar em 20 em lugar de seis ou sete...satisfazia a todos, mas não me deixariam. Que liberdade tenho eu? Onde está ela? Oh que formidável peta não é essa do voto livre!

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