Do Oscar, de vitórias e de derrotas

Não há que se falar em derrota, onde derrota não houve. Petra Costa e o Brasil saem do Oscar mais conhecidos e fortalecidos, abraçando novas e renovadas mensagens de solidariedade. Devemos isso à jovem cineasta

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Petra Costa é uma jovem cineasta brasileira de 36 anos, apenas 10 anos de carreira e uma filmografia formada por um curta-metragem e três longas. Ainda assim, é, hoje, a mais premiada cineasta do nosso país. Nesses tempos sombrios que estamos vivendo e contra os quais estamos lutando, também é uma das pessoas mais comentadas para o bem e para o mal. 

É que Petra teve a “ousadia” de fazer um filme e de, nesse filme, mergulhar no processo do golpe que ceifou a Democracia brasileira. É um filme profundamente autoral, vivido, narrado e comentado pela própria cineasta, que traz para a cena experiências e histórias familiares. Mas Petra foi além. Fez um filme de grande impacto, inovador, extraordinário, que chamou a atenção do mundo; “Democracia em Vertigem” foi indicado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para o Oscar 2020, no quesito Melhor Documentário. 

Bastou para virar alvo da sanha fascista que emergiu do golpe, sendo brutalmente atacada até pelo ódio oficial, de um governo que coloca a máquina de Comunicação do estado para intimidar as pessoas. 

Por outro lado, Petra vai se tornando símbolo da luta que irmana todos e todas que defendem princípios tão básicos e históricos como liberdade, fraternidade e igualdade, velhos ideais da Revolução Francesa. De certa forma, Petra lembra Marianne, representação simbólica da República da França.

Que força tão extraordinária tem essa jovem de aparência até frágil? Por que o seu sucesso apavora os fascistas? Por que os mensageiros do ódio exultam diante da sua aparente derrota na noite do Oscar 2020? Que derrota foi essa? Será que existiu?

Pra começo de conversa, é preciso dizer que Petra Costa é uma profissional madura, bem sucedida e amplamente reconhecida. O filme de estreia, o curta “Olhos de Ressaca” (2009), arrebatou onze prêmios, inclusive nos Estados Unidos e na Inglaterra. “Elena” (2012); o primeiro longa, recebeu 17 prêmios, no Brasil e no exterior (Estados Unidos, França, México, Polônia, Cuba e Croácia), foi o documentário mais visto no Brasil, em 2013 e ficou em quarto lugar no ranking de média de público por sala de exibição nos Estados Unidos. “Elena” foi descrito como "um sonho cinematográfico”, pelo The New York Times e listado como um dos melhores documentários do ano, pelo site especializado IndieWire. 

Essa trajetória de prêmios e reconhecimento foi confirmada pelos filmes seguintes: “Olmo e A Gaivota” e “Democracia em Vertigem”; em 2019, Petra foi indicada pela revista especializada em cinema Variety como uma das 10 documentaristas a serem vistas. E, em 13 de janeiro de 2020, “Democracia em Vertigem” foi indicado ao Oscar. 

A indicação, por si, já é uma conquista e tanto, especialmente porque, pela primeira vez na história desta que é a maior premiação da indústria do cinema mundial, incluiu um nome de documentarista do Brasil. Um feito imenso, uma inequívoca vitória pessoal e profissional de Petra Costa, cujo nome passou a figurar entre os principais cineastas do mundo.

Julia Reichert, co-diretora do documentário vencedor (Indústria Americana, que fez em parceria com Steven Bognar), saudou especificamente as concorrentes da Macedônia e do Brasil - "vocês nos inspiram" - em um discurso que destacou que “trabalhadores e operários têm uma vida cada vez mais difícil. E nós acreditamos que a vida vai melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”.

Mas a indicação ao Oscar ultrapassou uma conquista pessoal. Ao expor ao mundo o golpe sofrido pela Democracia brasileira, Petra Costa amplificou a denúncia dos tempos sombrios e nefastos que emergiram da conspiração antidemocrática, do golpe ao estado social.

Os seus detratores a acusam de “falar mal do Brasil”, “arruinar a imagem do país”, “torcer contra” e outras bobagens de igual quilate. “Democracia em Vertigem” em nenhum momento vai contra o Brasil; ao contrário, defende o nosso país ao defender os valores democráticos, sociais e civilizatórios. O que fere a nossa imagem é o autoritarismo do governo, o despreparo da atual gestão, o fascismo, o aumento vertiginoso da miséria, o declínio da Educação, os ataques à Cultura, ao Meio Ambiente e às populações indígenas, as queimadas na Amazônia. Façam pesquisas na internet e constatem.

Contra o que realmente destrói o Brasil, levantam-se a voz e o ofício de Petra Costa e o seu magnífico Democracia em Vertigem, assim descrito pela crítica internacional: 

"Um documentário absolutamente vital" – The New York Times

"Um documentário vasto e petrificante" – Varietty 

"Um thriller político ao estilo de Todos os Homens do Presidente (...) com um toque de O Poderoso Chefão – ScreenDaily

"As imagens são de cair o queixo” – site Firstshowing.net.

“Um documentário como nenhum outro, um trabalho íntimo e grandioso” – POV Magazine

Portanto, não há que se falar em derrota, onde derrota não houve. Petra Costa e o Brasil saem do Oscar mais conhecidos e fortalecidos, abraçando novas e renovadas mensagens de solidariedade. Devemos isso à jovem cineasta.

Valeu, Petra. Obrigado, querida.

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