É a casa-grande, Brasil

Enquanto a casa-grande não for demolida, a escravidão se reinventará e se perpetuará, porque o seu princípio não foi superado

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O apoio popular a Bolsonaro, daquela parcela da população que vai às ruas defender as pautas genocidas, autoritárias e equivocadas, não passa de 15%. São, em geral, pessoas cujas precárias condições de alfabetização e politização, ou até mesmo de empregabilidade, se lançam às ruas, de verde e amarela, defendendo pautas antidemocráticas e retrógradas, para dizer o mínimo. Os demais 15% são compostos de quem é ou se supõe da classe dominante mais tacanha do mundo, a brasileira. Ela não acredita no Brasil porque não tem identidade alguma com ele. Para os brejeiros endinheirados da nação, não importa que a Petrobras tenha recebido, em 2015, o maior prêmio que uma petroleira possa receber, por desenvolvimento tecnológico, um ano depois de a farsante operação Lava Jato decretar e falência da empresa.

Para a classe dominante brasileira não importa, também, que o Brasil tenha construído um acelerador de partículas, enriquecido urânio com tecnologia própria, ou executado uma obra pensada, em 1840, a partir de 2005, que leva água para 12 milhões de brasileiros. Um avanço civilizatório no país onde a desigualdade é uma das maiores do mundo. O que interessa aos herdeiros mal nascidos e preguiçosos da casa-grande é, assim como aos seus ancestrais, lucrar o mais rápido e o máximo possível com as riquezas naturais e as empresas estratégicas brasileiras, entregando-as ao desenvolvimento de outros povos, à custa do suor e do sangue da classe trabalhadora. Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes cumprem fielmente a agenda ultraliberal que, desde o golpe de 2016, não trouxe uma única contribuição para o desenvolvimento do Brasil.

Pelo contrário, a dupla exterminadora do futuro, em meio à mais profunda crise sanitária da história do País e ao maior recuo do comércio exterior, de quase 20%, pretende se desfazer da Petrobras, Eletrobras, Correios, BB, Caixa, Casa da Moeda, entre várias outras empresas estratégicas e dos recursos energéticos, como o petróleo e, mais recentemente, a água. A única e mais urgente tarefa de um governo comprometido com a gente do seu país é combater a pandemia, com proteção da população e a defesa da economia. Não é o momento de se desfazer do que vai tirar o Brasil do atoleiro econômico, que aumenta e se aprofunda desde a EC95, culminando num sofrível PIB de 1%, em 2019. É com essas ferramentas que se fará a retomada da economia, com geração de empregos que demandarão a produção industrial, cujos produtos passarão a ser consumidos por quem faz a economia girar, a classe trabalhadora.

A sociedade é diuturnamente entorpecida por um discurso de Estado mínimo, reverberado como mantra pela voz do mercado financeiro, a imprensa comercial. Os presidentes dos outros países se desdobram para manter a população isolada e protegida, pois eles sabem que são elas e, somente elas, quem vão recuperar a economia. Políticas recessivas e privatização do patrimônio nacional já estão suficientemente demonstradas que causam miséria, atraso e ferem o brio de qualquer povo que se pretende desenvolvido. Porém, é aí que reside o problema do Brasil e dos brasileiros. Para a classe dominante e seus dois paus mandados, Bolsonaro e Guedes, o interesse nacional não está em questão. Desde 1.500, a casa-grande dispõe das riquezas brasileiras sem consultar a sociedade. Para ela, a nação não passa de mera espectadora dos seus interesses e pagadora de impostos.

Gerar os empregos necessários para retomar a economia, com as empresas e os recursos energéticos, já será uma tarefa muito difícil. Sem elas, será impossível. Não é preciso ser um doutor em economia para saber que os países que comprarem as empresas brasileiras vão investir o seus potenciais para os seus próprios interesses e destinar os lucros para seu território, deixando no Brasil apenas mão de obra para servir a esse sistema de exploração. Portanto, além dos dois, deve ser combatido o ultraliberalismo, uma política que concentra renda e poder nas mãos de poucos e distribui muita miséria a milhares de seres humanos que servem de mão de obra para sustentar um sistema autofágico e falido. Ao fim do governo ultraliberal, de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil tinha um PIB de R$ 1,5 trilhão e uma reserva internacional de US$ 37 bilhões. Quando o PT foi derrubado do governo, ele deixou um PIB de R$ 5,5 trilhões e uma reserva de U$ 380 bilhões.

No final de 2014, antes do início do processo do golpe, o Brasil alcançou o pleno emprego, com 4,5% de desempregados. Sem as empresas estratégicas e as fontes energéticas, jamais teríamos essas conquistas. Bolsonaro e Guedes são os feitores da destruição. Portanto, o grande inimigo é o ultraliberalismo, que deve ser extirpado do mundo. Não há planeta possível que suporte duas mil pessoas ter mais riqueza que 4,6 bilhões de outros seres humanos. Esse é o resultado das altíssimas concentração de renda e exclusão social.

Faz todo o sentido FHC apoiar a permanência de Bolsonaro, que significa manter o Guedes, o ministro do mercado financeiro, para quem o ex-presidente tucano entregou, entre outros patrimônios, à revelia dos brasileiros, a Vale do Rio Doce, por menos de 10% do seu valor. Ela foi uma empresa estatal respeita em todo o mundo. Até então, nunca havia cometido os crimes humanitários e ambientais, sem precedentes na história do Brasil. A eficiente, eficaz, ágil e moderna iniciativa privada conseguiu emporcalhar o nome da empresa e produzir centenas de mortes humanas e desastres ambientais cujas consequências são o desaparecimento de ecossistemas e décadas para recuperar o que ainda vive dos crimes cometidos em Brumadinho e Mariana.

Portanto, enquanto a casa-grande não for demolida, a escravidão se reinventará e se perpetuará, porque o seu princípio não foi superado. Não houve abolição com justiça social e reforma agrária, por exemplo. Ao longo de mais de século, ela vem se adaptando às tecnologias que, agora, controla a exploração a distância. A greve dos trabalhadores de entrega por aplicativo dá mais visibilidade aos novos escravos, vítimas das reformas trabalhistas, iniciadas por Temer e aprofundadas por Bolsonaro, que nada mais são que a submissão da classe trabalhadora aos mais novos limites de exploração da mão de obra, onde a remuneração é de subsistência, os gastos e os riscos são altíssimos para os trabalhadores, sem qualquer obrigação de quem lucra bilhões com aplicativos que escorcham o trabalho de quem entrega e de quem produz o que entregar. Fora, ultraliberalismo.

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