E o combate seletivo à corrupção continua...

Repetindo o que já havia ocorrido em solo brasileiro nos idos de 1954 e de 1964, a retórica moralizante da luta contra a corrupção voltou-se exclusivamente contra partidos políticos de orientação trabalhista

Brasília - Governador da Paraíba, Ricardo Vieira Coutinho, fala á imprensa após reunião com o presidente Michel Temer, no Palácio do Planalto (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Brasília - Governador da Paraíba, Ricardo Vieira Coutinho, fala á imprensa após reunião com o presidente Michel Temer, no Palácio do Planalto (Antonio Cruz/Agência Brasil) (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

O ex-prefeito de João Pessoa e ex-governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, foi o entrevistado do Trilhas da Democracia do domingo, 29 de dezembro. Gravada em 3 de dezembro, nos estúdios da TVPE, a entrevista foi realizada, por conseguinte, antes da execução da ordem judicial de prisão do convidado, nos marcos da Operação Calvário da Polícia Federal, no dia 19 de dezembro. 

A referida entrevista teve por objetivo discutir as possíveis motivações que levaram a região Nordeste a se posicionar contrariamente àquele que viria a ser eleito presidente da República nas eleições de 2018, um posicionamento que, ao que parece, permanece o mesmo por parte da maioria da sua população e dos seus governadores, tendo levado estes últimos à construção do Consórcio Nordeste. 

A prisão de Ricardo Coutinho – revertida pelo Superior Tribunal de Justiça até o mês de fevereiro –, no entanto, leva-me no presente artigo a reafirmar que a luta contra corrupção no Brasil sempre foi caracterizada pelo seu caráter seletivo. A fim de se comprovar isso, basta cotejar os alvos políticos da brasileira Operação Lava-Jato aos implicados pela Operação Mãos Limpas, na Itália, nos anos noventa. 

Enquanto na península, todas as forças políticas que deram forma aos sucessivos governos da República italiana nascida com a derrocada do fascismo na Segunda Guerra Mundial foram incriminadas, com destaque para a Democracia Cristã e o Partido Socialista Italiano, no Brasil, PSDB e PFL/DEM passaram ao largo da onda persecutória judicializante que alcançou seu ápice com a prisão do ex-presidente Lula. 

Repetindo o que já havia ocorrido em solo brasileiro nos idos de 1954 e de 1964 (levando, respectivamente, ao suicídio de Getúlio Vargas e à deposição de João Goulart), a retórica moralizante da luta contra a corrupção voltou-se exclusivamente contra partidos políticos de orientação trabalhista (o PTB de Vargas e Jango; o PT de Lula; e, agora, o “PSB lulista” de Ricardo Coutinho), partidos estes que tiveram no combate à desigualdade uma das suas principais bandeiras. 

Que fique claro: não considero a luta contra a corrupção menos importante que o combate à desigualdade (seria melhor falar de desigualdades, no plural: social, regional, étnico-racial, de gênero etc)! O grande problema é que, entre nós, a primeira deu-se quase que exclusivamente com o fito de pavimentar o terreno para ofensivas golpistas contra governos de caráter trabalhista e, ato contínuo, desviar as atenções das reais intenções iniquizantes daquelas forças políticas que passaram a ocupar as estruturas governamentais pós-golpes. 

Assim, o “combate seletivo à corrupção” é um ingrediente indispensável para a afirmação de governos e governantes contrarreformistas, que retiram do Estado as responsabilidades de implementação de políticas públicas direcionadas a combater as desigualdades. Um ingrediente tão importante quanto a adoção de políticas econômicas monetaristas e a elevação dos níveis de repressão estatal contra os mais pobres e aqueles que se organizam para resistir à barbárie advinda em tal contexto.
 

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