E tem gente dizendo que a esquerda errou

O editor e colunista do 247 Gustavo Conde afirma ter sido previsível a péssima performance do governo Bolsonaro que, segundo o linguista, consagra-se como um vexame generalizado; Conde entende que a semântica de 'vitória' e 'derrota' está em colapso e que é questão de tempo a população entender esse fenômeno linguístico; ele ainda diz que o adversário mais destacado da esquerda é o ceticismo e a vocação para o autoflagelo - que imobilizam a ação pela 'virada' institucional

E tem gente dizendo que a esquerda errou
E tem gente dizendo que a esquerda errou (Foto: Roberto Parizotti/ CUT)

Vexame o país do pós-golpe.

E o mais impressionante: o que ainda sustenta o resto de institucionalidade que sobrou é o sentimento antipetista.

Ou seja: eles não têm personalidade, projeto, autoestima, senso de ridículo e vida própria.

E eles acham que vivem uma "vitória" (muitos de nós também achamos; muitos de nós achamos que "a esquerda perdeu").

Para entender a nossa vitória, nem é preciso ter a capacidade de 'sentir' o tempo histórico - o que é difícil e exige lastro. Não é preciso conhecer a história para entender que o processo em curso nos fortalece (fortalece o nosso discurso, a nossa ação, a nossa mobilização).

Quem passa os dias (a vida) reclamando de "falta de mobilização da esquerda" são os fracos que depois terão de ser amparados pela vergonha da própria inércia.

A gente dá água a esses pobres coitados.

A 'mobilização', caras-pálidas, é feita todos os dias, dentro de si. Esteja mobilizado em sua existência e saiba que esse é o gesto de soberania espiritual por excelência.

Quem vive "esperando" que os outros se mobilizem pela própria causa (que acha que tem), segue a própria sina pequeno-burguesa dos scrits pré-fabricados. São agentes que gostam de aparecer em fotos de jornal e depois mostrar para amigos dizendo: "olha como eu lutei pela democracia".

Se nós soubéssemos só um décimo da dimensão da nossa vitória política nesses últimos 4 anos de barbárie golpista, nós nem estaríamos mais nesse lodaçal bolsonarista.

Qualquer cidadão que se dê ao respeito sabe que, para se conquistar uma vitória plena, moral e convencional, é preciso acreditar que ela é, não só possível, como real, concreta e inevitável.

E eu, este cara-pálida que vos fala, tenho tanta certeza desta vitória que prefiro pensar em algo um pouco mais ambicioso: é preciso que nós construamos um adversário melhor no futuro próximo.

Porque os adversários destituídos de autoestima fazem a sociedade inteira mergulhar em um vale-tudo intragável e desmobilizador - o tal ceticismo histérico de muita gente que se diz 'progressista'.

É preciso - paradoxalmente - ajudar o adversário político nesse próximo ciclo histórico que se aproxima rapidamente.

Esse adversário não pode ser um tecnocrata moralmente fracassado como um tucano, nem um fascista simbolicamente aniquilado como um bolsonarista.

É preciso um adversário digno, que tenha conteúdo, que goste do debate, que respeite a democracia, que saiba perder (para depois desfrutar a vitória real, soberana, assim como nós desfrutamos).

No terreno devastado depois dessa guerra violenta, a reconstrução não pode ser dar apenas de um lado do espectro ideológico. Precisa se dar, justamente, naquele lado que ainda nem existe (porque, a esquerda vai bem, obrigado - temos o maior a mais popular partido político do país).

Temer, Bolsonaro, PSDB, FHC, Serra, Alckmin, Aécio, MDB, STF, Poder Judiciário, todos esses vetores do retrocesso presente terão de ser substituídos por alguma coisa nova que preste.

Um povo soberano - como é o povo brasileiro, ainda que muitos de nós não acreditemos nisso - não suporta tamanho acúmulo de incompetência. Nunca suportou (sempre reagiu, como reagiu à ditadura, como reagiu a Collor, como reagiu a FHC - esse, no voto).

O ceticismo é um alucinógeno muito sedutor. Ele dá algum tipo de identidade em existências devastadas pela inoperância. É "chique" dizer que "não se acredita".

É por esse e outras que eu opto pelo caminho mais difícil, o contra-intuitivo, aquele que me confere não o prazer imediato da aceitação, mas o fel instantâneo do sujeito estilhaçado pelas contradições.

Viver é perigoso. Mas provocar a vida é muito mais.

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