Elzita Santa Cruz - A partida de um símbolo da resistência

Gilvandro Filho, membro do Jornalistas pela Democracia, escreve sobre Dona Elzita Santa Cruz, que partiu nesta terça-feira, aos 105 anos, "personagem fundamental para se entender o que se passou neste país e o que não pode se repetir. Uma mulher que enfrentou uma das ditaduras mais cruéis de que se tem notícia na América Latina. Mas, sempre com uma palavra de carinho, com muito amor no olhar e não raro com um sorriso nos lábios"

Dona Elzita e a ditadura militar do Brasil
Dona Elzita e a ditadura militar do Brasil (Foto: Reprodução)

Por Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia - Dona Elzita Santa Cruz, que partiu nesta terça-feira, aos 105 anos de idade, é um dessa mulheres a quem podemos chamar, sem medo de erro, de heroína. Foi uma vítima das mais sofridas da ditadura militar que atingiu o País durante 21 anos, a partir de 1964. Em 1974, naquele que é tido como o período mais sanguinário da história recente do Brasil, o governo do general e ditador Emílio Garrastazu Médici, ela perdeu o filho Fernando, então um jovem com 26 anos de idade, que foi preso, torturado, assassinado e dado como desaparecido pelas décadas seguintes. 

Dona Elzita foi muito mais que uma guerreira. Ela é personagem fundamental para se entender o que se passou neste país e o que não pode se repetir. Uma mulher que enfrentou uma das ditaduras mais cruéis de que se tem notícia na América Latina. Mas, sempre com uma palavra de carinho, com muito amor no olhar e não raro com um sorriso nos lábios. Dona “Zita”, como nós, os seus amigos e “filhos” lhe chamavam, nunca viu pessoalmente Ernesto Che Guevara. Mas é incrível como o líder guerrilheiro cunhou sua frase mais marcante sem tê-la conhecido. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.

Dona Elzita perdeu Fernando num sábado de carnaval. Com a família, marido e filhos, ela sempre morou em Olinda; Fernando, nessa época morava no Rio de Janeiro, onde estudava e fazia militância política em um tempo de guerra e de guerrilha. O jovem era militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), um braço político da esquerda revolucionária que também contava com outras organizações, mas de luta armada. Se não voltasse até a noite, certamente teria sido preso, previu ele à irmã, que morava em Laranjeiras. Não voltou. E sumiu numa esquina de Copacabana, junto com seu companheiro de organização Eduardo Collier Filho. Os dois tinham um “ponto” para “cobrir”. A polícia já estava de tocaia.

A partir daí, a vida de Dona Elzita transformou-se em procura e em cobrança. Com a fibra de mulher nordestina e uma coragem invulgar, ela passou, junto com os filhos, a percorrer quartéis, delegacias, gabinetes, imprensa, hospitais, cemitérios. Em todos os lugares e a todas pessoas, pedia ajuda, exigia resposta à pergunta que lhe acompanhou ao longo de toda a vida: “Onde está meu filho?”. A busca durou até o dia de sua partida, neste 25 de junho de 2019, quando Dona Elzita virou estrela-guia; certamente servirá de norte para tantas pessoas que lutam contra a tirania e a injustiça.

Dona Elzita bateu à porta de líderes de todos os lados, dos opositores da ditadura aos seus aliados. Valiam todos os esforços por uma palavra sequer que pudesse dar uma pista de Fernando Santa Cruz e de Eduardo Collier. Dos cúmplices do regime militar, recebeu, normalmente, desprezo, frieza e cinismo. Vivíamos governos que não davam satisfação a ninguém e que tinha na tortura, no assassinato e no sumiço de corpos as armas de guerra que deixaram milhares de famílias sem pais, mães, filhos, filhas, irmãos, irmãs. Mesmo quando algum dos militares tentava ajudar, o boicote era imediato. Foi o caso do marechal Juarez Távora, figura histórica que tentou interceder atrás de notícias de Fernando, sem sucesso.

A luta e a pergunta de Dona Elzita foram contadas nas duas edições do livro “Onde Está Meu Filho?” (Editora Paz & Terra, SP, 1984 e Editora Cepe/Governo de PE, 2012), a segunda atualizada com fatos ocorridos a partir de 1984. E que foram muitos. Da primeira notícia surgida sobre Fernando e Eduardo (ver abaixo) até a indicação de Dona Elzita como concorrente ao Prêmio Nobel da Paz. O livro foi escrito por Chico de Assis, Glória Brandão, Jodeval Duarte, Nagib Jorge Neto, pela ex-deputada (já falecida) Cristina Tavares e, com muita honra, por este que vos escreve, Gilvandro Filho.

A luta da família Santa Cruz não teve fim. Mas, em 2012, surgiu a primeira notícia concreta a respeito do paradeiro, pelo menos dos corpos, de Fernando e Eduardo. O delegado aposentado e ex-agente da ditadura Cláudio Antônio Guerra, no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, de autoria de Marcelo Netto e Rogério Medeiros, revelou que foi autor de um trabalho sujo como poucos no regime militar. Ele foi encarregado de “dar fim” a 12 corpos de militantes mortos sob tortura e escolheu um meio sem similar em termos de crueldade. Jogou todos os corpos - entre eles, os de Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier - nas fornalhas da Usina Cambahyba, em Campos, Rio de Janeiro.

A usina de cana pertencia ao empresário Heli Ribeiro, vice-governador do Rio (1967-1971), entusiasta da ditadura e dos métodos repressivos por ela utilizados, e membro da famigerada Tradição, Família e Propriedade (TFP), organização ligada à extrema-direita católica. A usina servia de campo de concentração e “desova de terroristas” mortos pelas forças de segurança.

A história de Dona Elzita sinaliza para tempos que não podem mais voltar. E serve de alerta contra aqueles que clamam pelo retorno da ditadura, da censura, da tortura e da morte impune e consentida. Alerta contra aqueles que têm como ídolos torturadores e genocidas. Pessoas, fatos e situações que passaram a encontrar guarida entre os integrantes da direita radical que formam a “entourage” do poder nos tempos atuais e de um governo eleito com base em promessas de volta de regime de força, armamento da população, fim de conquistas trabalhistas e sociais. Contra tudo isto, que a memória de Dona Elzita sirva de trilha e de farol. 

Dona Elzita Santa Cruz - PRESENTE!

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