Extrema direita internacional ensaia estratégias para minar a democracia burguesa e controlar o Brasil

O Brasil tornou-se o grande tabuleiro onde extrema direita e seus opositores irão mover suas peças pelos próximo dois anos

Trump e Bolsonaro
Trump e Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)
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A chamada democracia burguesa encontra-se em crise. Suas instituições – partidos políticos, poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, o Parlamento etc. – dificultam a acumulação do capital em uma conjuntura social, política e econômica na qual as margens de lucro vêm sendo reduzidas. Diante de tal situação, as leis que asseguram direitos aos cidadãos e/ou que impõem freios à acumulação capitalista dificultam a realização de lucros em um cenário de acirrada competição entre os grandes grupos capitalistas. Estes, então, propõem como solução apoiar governos de cunho fascista para que implementem reformas extremamente impopulares que assegurem a manutenção de suas margens de lucro e que são mais facilmente executadas por governos autoritários.

O governo Trump caracterizou-se pelo seu viés autoritário. Para aprovar medidas impopulares, desenvolveu um populismo de direita criador de fatos e feitos que buscaram manipular a opinião pública. Tratou logo de criar inimigos públicos – imigrantes e a China – de maneira a desviar a atenção da opinião pública e aprovar o que era preciso para aumentar as margens de lucro do capital. Criticou a democracia, ameaçou o processo eleitoral, manipulou seus apoiadores até desembocar no furdunço que o mundo acompanhou no último dia 6 de janeiro.

Não creio que o acontecido possa ser caracterizado como uma tentativa de golpe de Estado pelos vários motivos já amplamente comentados por analistas mais bem informados. O que queriam os participantes do tumulto na capital estadunidense? Impedir a indicação de Joe Biden como o 46º presidente dos EUA? Mas de que maneira? Invadindo o Capitólio vestidos com roupas extravagantes e passeando pelas suas salas? Um golpe de Estado necessita de uma articulação bem feita com objetivos claros, atores bem definidos e cientes das funções a desemprenharem e alvos cruciais a serem ocupados pelos golpistas.

O que houve foi um teste de métodos de tumulto que possam ser utilizados para minar a democracia burguesa. A extrema direita internacional vem testando e repetindo estratégias e métodos de enfraquecimento da democracia e o que funciona ela repete mundo afora, com pequenas adaptações locais.

Uma das primeiras estratégias foi o golpe jurídico parlamentar testado em Honduras e repetido no Paraguai e no Brasil.

Na Bolívia experimentou um novo formato que contou com a participação das forças policiais, auxiliadas por milícias fascistas armadas. Em todos esses casos, a ação final foi precedida de acusações de corrupção, pouco ou nada fundamentadas, contra os governos locais e, nos casos em que havia um processo eleitoral em curso, acusações de fraude eleitoral sem a apresentação de nenhuma comprovação das referidas irregularidades. Aécio Neves e o PSDB desencadearam o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff com acusações de fraude eleitoral, jamais comprovadas. Antes da realização do primeiro turno das eleições de 2018, Jair Bolsonaro afirmou que qualquer outro resultado que não fosse sua vitória no primeiro turno indicaria que as eleições foram fraudadas. Mesmo após ter sido empossado presidente da República ele reafirmou que fraude eleitoral o impediu de ganhar as eleições ainda no primeiro turno. Não apresentou nenhuma comprovação de suas denúncias e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de maneira cúmplice, assistiu a tudo sem lhe aplicar nenhuma reprimenda ou sanção

Esta estratégia foi repetida contra Evo Morales em 2019, bem como a favor de Donald Trump em 2020. Trump atribuiu sua derrota à fraude eleitoral. Tal como Aécio e o PSDB, tal como Bolsonaro, Trump também não apresentou nenhum elemento que comprovasse suas acusações. 

A contestação de resultados eleitorais é uma das estratégias que vem sendo repetidamente utilizada pela extrema direita para enfraquecer a democracia burguesa e vem funcionando muito bem. Embora não comprovada em nenhum dos casos ocorridos até agora, este artifício tumultua o processo eleitoral, sobretudo no que concerne à apuração dos votos e ao período entre a divulgação do resultado final da apuração e a posse do eleito.

O furdunço do dia 6 de janeiro em Washington foi um teste de mobilização de massas. A partir de um discurso inconsequente de Trump, uma multidão de seus seguidores, previamente convocados em diversas regiões do país e organizadamente transportados até a capital, foi insuflada a marchar até o Capitólio e ocupá-lo. Este teste comprovou alguns elementos importantes para a extrema direita. Primeiro que uma turba constantemente alimentada por teorias de conspiração (Qanon, perigo comunista etc.) pode ser fácil e rapidamente mobilizada, reunida e transportada para ações específicas. Se esta ação for bem planejada e contar com objetivos bem definidos, esta turba pode gerar muitos problemas. O segundo elemento é que é preciso mobilizar pessoas que estejam politicamente organizadas em associações, grupos e movimentos sociais que lutem por objetivos específicos. Sem isso, a ação gera pânico, mas pouco resultado efetivo. O terceiro elemento é que faz-se necessário contar com o apoio de sindicatos, grupos de pressão, mídia, parte das forças armadas e das forças policiais para obter-se sucesso; o movimento do dia 6 de janeiro contou com poucos apoios da sociedade civil organizada. Forças armadas e forças policiais são instituições que contam com milhares de indivíduos afinados com ideologias totalitárias de direita em suas fileiras. No caso estadunidense este fato foi claramente comprovado quando comparamos fotos amplamente divulgadas pela imprensa internacional que mostraram as escadarias do Capitólio ocupadas por fileiras de agentes de segurança pública durante as manifestações organizadas pelo Black Lives Matter, com fotos dessas mesmas escadarias no dia 6 de janeiro, onde se viam pouquíssimos destes agentes. Relatos informam que alguns desses agentes ajudaram manifestantes a entrar no Capitólio.

As estratégias utilizadas por Trump para enfraquecer a democracia burguesa foi acompanhada de perto por Eduardo Bolsonaro, que visitou a Casa Branca na véspera da invasão do Capitólio, e figuras importantes da extrema direita brasileira. Uma rede foi criada entre eles para difundir desinformação e organizar novas ações conjuntas. Não à toa vários representantes desta extrema direita brasileira mudaram seus avatares em diferentes redes sociais para retratos de Donald Trump, muitas vezes acompanhadas por frases de apoio a ele. Na verdade, não é o apoio a Trump que os une, mas as estratégias e táticas utilizadas e difundidas pelos movimentos da extrema direita mundial para desestabilizar a democracia burguesa e substituí-la por regimes autoritários.

No mesmo dia da confusão em Washington, enquanto seu filho aprendia tudo in loco, Bolsonaro, repetindo Trump, já colocava em dúvida o resultado das eleições de 2022, sobretudo se o voto eletrônico não for substituído pelo voto impresso. Se adotado, o voto impresso permitirá que milicianos e pastores mal intencionados controlem em quem os eleitores votaram.

Diante desses fatos e da fala de Bolsonaro, o resultado das próximas eleições presidenciais no Brasil já encontram-se sob suspeita. Qualquer que seja seu resultado, quem perder não o aceitará.

A derrota de Trump causou um grande baque na extrema direita internacional e colocou em xeque as instituições democráticas estadunidenses. A presidenta da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, solicitou ao chefe do Estado-Maior dos EUA que retire de Trump o acesso aos códigos de controle das armas nucleares o mais rápido possível. No Capitólio está em discussão qual o melhor instrumento para afastar Trump do poder o mais rápido possível. Contudo, a medida mais eficaz tomada contra Trump até agora não foi executada pelas instituições democráticas, mas pelas grandes corporações que controlam a produção e distribuição de algoritmos. Twitter e Facebook implementaram censura sobre Trump, apagando suas contas nesses aplicativos, impedindo-o de utilizar as redes sociais para comunicar-se com seus apoiadores. Estes migraram para outro aplicativo de comunicação que, imediatamente, foi retirado de circulação das redes e navegadores controlados pela Google e pela Apple. As grandes corporações, que não aceitam controle externo, só a autorregulamentação, arvoraram-se em controladores da informação, daquilo que deve ou não deve ser divulgado. Apesar de ser tão perigosa quanto a censura imposta pelo Estado, setores da esquerda aplaudiram esta medida.

O Brasil tornou-se o grande tabuleiro onde extrema direita e seus opositores irão mover suas peças pelos próximo dois anos. Perdido os EUA, a extrema direita não pode perder o Brasil. Nosso país é a galinha dos ovos de ouro para o capital imperialista controlado pela extrema direita. Ele pode assegurar oportunidades de enriquecimento, de acumulação por despossessão que nenhum outro país pode oferecer. O Brasil produz commodities variadas, possui vastas extensões de terra já agriculturáveis ou ainda cobertas de florestas, duas safras anuais de grãos, nióbio, ferro, manganês, petróleo, estatais eficientes que ainda podem ser privatizadas. O capital imperialista poderá contar com a ajuda de uma burguesia neocolonial lacaia que lhe é dócil e servil e que é voraz e cruel com os trabalhadores brasileiros, para controlar essas novas fronteiras que poderão assegurar-lhe o aumento de suas margens de lucro. 

As peças já começaram a ser movidas neste tabuleiro. Não foi à toa que Eduardo Bolsonaro encontrava-se no olho do furacão no dia 6 de janeiro e que Jair Bolsonaro declarou que o mesmo tipo de manifestação popular poderá acontecer no Brasil, caso o voto impresso não substitua o voto eletrônico. Não é à toa que Bolsonaro participa de formatura de turmas de cadetes da PM e apadrinha projetos de lei que pretendem transferir para o governo federal o controle das polícias civil e militar, bem como do Corpo de Bombeiros. Controlando-os ou contando com a simpatia dos agentes de segurança pública, quem impedirá Jair Bolsonaro de dar um golpe de Estado se ele já conta com o apoio explícito das Forças Armadas e das milícias religiosas?

Quanto mais tempo Bolsonaro permanecer na Presidência da República, mais tempo ele terá para, junto com os estrategistas da extrema direita internacional, azeitar seus planos de poder ditatoriais que permitirão ao capital imperialista controlar as riquezas do Brasil.

É preciso destitui-lo do poder já!

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