Facebook fora do ar provoca crise de abstinência das traquitanas eletrônicas

"Facebook, instagram, whatsapp, twitter, linkedin, toda essa parafernália de nomes em inglês, que até pouco tempo atrás a gente nem conhecia, passaram a ocupar tanto tempo no nosso cotidiano que hoje simplesmente não conseguimos viver quando eles saem do ar. Nos sentimos fora do mundo", escreve o jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia 

Facebook fora do ar provoca crise de abstinência das traquitanas eletrônicas
Facebook fora do ar provoca crise de abstinência das traquitanas eletrônicas (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

De repente, sem aviso prévio, o Facebook saiu do ar, na tarde de terça-feira, e nós descobrimos a que ponto chegou nossa dependência informática dessas traquitanas eletrônicas.

Horas depois, começou a aparecer uma explicação na tela do computador:

"Ops. Ocorreu um erro. Estamos trabalhando pra resolvê-lo o mais rápido possível".

Para milhões de usuários no mundo inteiro, durou uma eternidade a crise de abstinência, pois o sistema só voltou a funcionar no final da noite de quarta-feira.

Aqui no Brasil, em meio ao clima de insegurança, medo e conspirações em que vivemos, desde o começo do ano, logo começaram a falar em censura para não se comentar mais o caso da prisão dos dois suspeitos da morte de Marielle, que completa um ano hoje, sem o nome dos poderosos mandantes.

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Só aos poucos, na falta de maiores informações sobre o motivo do "erro", é que se descobriu o alcance do problema, que tirou do ar o Facebook e todas as outras plataformas correlatas em países como Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha.

Meio mundo começou a reclamar e levantar suspeitas, principalmente a partir das 13 horas de quarta-feira, logo após o massacre de Suzano, que deixou o Brasil em polvorosa.

Nestas horas, a blogosfera entra em ebulição, com a rede conectando todos com todos, pessoas aflitas em busca de explicações para mais uma tragédia brasileira, entre tantas outras desde a posse de Jair Bolsonaro.

O sumiço do Facebook logo passou a ser, por ironia, o assunto mais comentado do mundo nos trend topics.

Na primeira postagem que consegui publicar no meu Facebook oficial, antes de ir dormir, perguntei se essa sucessão de desgraças que abalaram o Brasil teria a ver com a energia negativa do capitão e seus escatológicos ministros _ um pé-frio no comando do país?

Não acredito em bruxas nem duendes, mas chegamos a tal ponto de paranoia, num país onde o presidente confessa dormir com um revolver ao lado da cama, que sempre queremos saber o que se esconde por trás dos fatos, qual é a maldade em curso, a próxima sacanagem contra os inimigos imaginários de um governo em guerra permanente.

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Facebook, instagram, whatsapp, twitter, linkedin, toda essa parafernália de nomes em inglês, que até pouco tempo atrás a gente nem conhecia, passaram a ocupar tanto tempo no nosso cotidiano que hoje simplesmente não conseguimos viver quando eles saem do ar. Nos sentimos fora do mundo.

Resisti até onde pude a essa revolução da internet e das novas mídias e tecnologias, mas também acabei caindo neste mundo virtual, que para mim ainda é um grande mistério.

Fui o último da redação do antigo Jornal do Brasil, em São Paulo, a entregar minha máquina de escrever e a aceitar o computador novinho em folha que puseram na minha mesa, sem bula.

Só passei a usar celular quando fui obrigado pelo presidente Lula, ao ir trabalhar no governo, em 2003, mas ainda era aquele de tampa, apenas um telefone sem fio, que ficou comigo até muito recentemente.

Até o ano passado, não sabia usar o I-Phone que ganhei de presente de Natal e ficou um tempão mudo em cima da minha mesa.

Também foi só no ano passado que minha filha Mariana, que domina todas essas ferramentas com maestria, me convenceu a entrar no Facebook e a usar o whatsapp para participar do grupo da família.

Agora, como quase todo mundo, passo a maior parte do dia lendo e digitando no celular e no computador, esquecendo às vezes até de comer e ir ao banheiro.

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É uma nova forma de escravidão a que nos submetemos para sobreviver profissionalmente, mas também para permanecermos conectados com os outros, sem ter que sair de casa, quando as pernas já não ajudam.

Bastou um dia e meio de abstinência para sentir na pele o drama dos netos que ficam sem celular quando são colocados de castigo, exatamente por usar demais os gadgets (é assim que se fala?) eletrônicos.

Para mim, tudo é mais difícil porque, além de ser um dinossauro analógico, nunca fui capaz de aprender inglês.

Até me pergunto como consegui chegar vivo até aqui, sem nunca ter usado um aplicativo, nem mesmo o do Uber. Vocês acreditam? E também nunca assisti a uma série na TV. Não sinto falta.

Não é frescura, é bloqueio mental mesmo, de alguém que veio ao mundo no final da primeira metade do século passado.

Sou ainda do tempo do telégrafo, do livro, da cortesia, da boemia, do bonde, da solidariedade, da tolerância, do boteco da esquina depois do serviço, do carnaval de salão, da bolinha de gude, da pelada na rua, de Tonico e Tinoco, dos bailinhos de sábado, da paixão passageira, da missa de domingo, das amizades gratuitas, da TV em branco e preto com chuvisco, do comício com cachorro quente, das ruas de terra ou de paralelepípedo, da conversa fiada, do cigarro sem filtro, da vitrola e do disco, do prato do dia, da temperança, do afeto, da confiança nos outros, do fígado acebolado e de tantas outras coisas que já nem lembro.

Comecei falando da modernidade e acabei na antiguidade dos tempos que não voltam mais. Ou estarão voltando, sem as coisas boas, só as negativas?

Mas se já estão pensando até em revogar a Lei Áurea, nem me sinto tão fora de moda assim...

Vida que segue.

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