Opinião

Flávio Bolsonaro e a diplomacia da submissão ao império

O ataque ao Irã é a negação da autonomia diplomática brasileira

Donald Trump, Flávio e Eduardo Bolsonaro
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O ataque ao Irã é a negação da autonomia diplomática brasileira
As declarações de Flávio Bolsonaro em Buenos Aires devem ser tratadas com a gravidade que merecem. 

Ao prometer transferir a Embaixada do Brasil em “Israel” para Jerusalém, atacar a relação brasileira com a República Islâmica do Irã e anunciar alinhamento automático ao governo israelense, o senador revelou um projeto de política externa perigoso, visando substituir a tradição soberana do Brasil por uma diplomacia de submissão ao eixo Washington–Tel Aviv.

Jerusalém não é moeda de campanha. Seu status está submetido ao Direito Internacional e às resoluções das Nações Unidas. A Resolução 478 do Conselho de Segurança da ONU rejeitou a tentativa israelense de declarar Jerusalém sua capital “eterna e indivisível” e conclamou os Estados a não manterem missões diplomáticas na cidade. 

Portanto, transferir a embaixada brasileira para Jerusalém não seria gesto simbólico, mas uma afronta deliberada à legalidade internacional e aos direitos nacionais do povo palestino.

A proposta também agride os princípios constitucionais da política externa brasileira. O artigo 4º da Constituição estabelece que o Brasil deve reger suas relações internacionais pela independência nacional, autodeterminação dos povos, prevalência dos direitos humanos, defesa da paz e solução pacífica dos conflitos. 

Nada disso combina com uma política externa ajoelhada diante de “Israel”, justamente quando Gaza segue destruída, a Cisjordânia permanece ocupada e Jerusalém Oriental continua submetida à colonização.

Desde a redemocratização, a diplomacia brasileira preservou, com diferenças entre governos, uma linha de autonomia, multilateralismo e diálogo com diferentes polos de poder. 

O Brasil construiu relações com países árabes, com o Irã, com a Palestina, com a África, com a Ásia, com a Europa e também com “Israel”, sem abdicar do princípio básico de que sua política externa deve servir aos interesses nacionais, e não aos cálculos estratégicos de potências estrangeiras.

É nesse ponto que o ataque de Flávio Bolsonaro ao Irã revela seu sentido mais profundo. Não se trata apenas de hostilidade contra um país específico. Trata-se da negação da autonomia diplomática brasileira. 

A República Islâmica do Irã é hoje um ator central do Sul Global, membro dos BRICS, potência regional no Oriente Médio e peça estratégica nos debates sobre energia, segurança, rotas comerciais, multipolaridade e integração eurasiática.

Independentemente das diferenças políticas, culturais ou institucionais entre Brasília e Teerã, o Irã representa uma experiência concreta de defesa da soberania nacional diante de sanções, bloqueios, sabotagens, ameaças militares e pressões permanentes das grandes potências. 

Há quase cinco décadas, a República Islâmica sustenta sua independência estratégica frente aos Estados Unidos e seus aliados. Esse dado não pode ser ignorado por um Brasil que pretende atuar como liderança do Sul Global.

Um país continental como o Brasil não pode escolher parceiros a partir da lista de amigos e inimigos dos Estados Unidos ou de “Israel”. Deve dialogar com todos, defender seus interesses e preservar sua capacidade de decisão. 

Relações com o Irã, com os BRICS, com o mundo árabe e com o Oriente Médio não são desvio ideológico, mas parte de uma política externa madura, plural e soberana.

A diferença entre os dois projetos é evidente. De um lado está o modelo da soberania, com países que buscam autonomia estratégica, fortalecem o multilateralismo e lutam por uma ordem internacional multipolar. 

De outro, o modelo da subordinação de governos que transformam sua política externa em extensão dos interesses de potências estrangeiras. 

O Irã, com todas as suas especificidades, expressa o primeiro caminho. Flávio Bolsonaro propõe ao Brasil o segundo.

Ao prometer reconhecer Jerusalém como capital israelense, ele legitima a ocupação. Ao atacar o Irã, assume a lógica da guerra permanente. Ao alinhar o Brasil ao governo israelense, despreza o Direito Internacional, a Constituição e a tradição universalista do Itamaraty.

Jerusalém não pertence ao oportunismo eleitoral da extrema direita brasileira. É parte de uma questão internacional marcada por ocupação, expulsões, anexações e violações de direitos. Usá-la como palanque é irresponsável.

O Brasil deve rejeitar essa aventura diplomática. 

Defender a Palestina, respeitar o Direito Internacional, manter relações soberanas com o Irã e fortalecer os BRICS não é radicalismo. É compromisso com a independência nacional. 

Radical é querer transformar o Brasil em correia de transmissão dos interesses dos Estados Unidos e do regime sionista de “Israel”.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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